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Uma das melhores prendas que se me pode dar é a morada de uma retrosaria que ainda não conheço. Ponho-me logo a sonhar com galões e botões e a tentar inventar tempo para lá ir. Hoje, depois de uma das meninas do Zingarelho me ter revelado a existência de um verdadeiro tesouro escondido em Alfama, dei corda aos sapatos e rumei à Rua dos Remédios.


A loja é minúscula e fica do lado direito de quem sobe a rua. Já não parece uma retrosaria. De fora só se veem panos da louça muito feios, com galos de Barcelos daqueles made in qualquer sítio estampados em cores berrantes. Só quem vai à procura repara nos armários que os panos escondem, a cheirar a pó e a prometer caixinhas. O senhor lá dentro é muito velhinho e mal me dirijo a ele garante-me que não tem nada do que eu possa vir à procura. Estas coisas já não têm saída, menina. Olhe que não vale a pena, vai ficar desiludida. Insisto e ele insiste também. Conto-lhe do meu gosto por coisas com pouca saída e ele conta-me de quando a mãe costurava do outro lado da rua, de quando vendia grega de todas as cores e aos metros por dia. Acede finalmente a destapar alguns dos armários. Por debaixo dos panos feiosos, um maná de botões de outros tempos, de todas as cores, tamanhos e feitios, e cada um mais lindo que o outro. Este senhor conta-me que já ninguém usa botões (a Benedita falava-me do mesmo no outro dia a propósito da sua filha adolescente, que os despreza. A E. tem uma única peça de roupa com botões, que me lembre assim à primeira. São mesmo uma espécie em vias de extinção). Estes milhares de botões estão lá, escondidos, à espera de serem encontrados e elogiados e comprados e cosidos e mostrados. Acho que ficámos uma hora na conversa. No fim, foi escolher um saco de plástico mais bonito para as minhas compras (nem tive coragem de lhe dizer que não queria mais um saco de plástico como faço militantemente em toda a parte) e pediu desculpa por não me poder servir melhor. E eu só queria que lá passasse mais alguém para comprar botões e lhe relembrar que eles são muito mais bonitos que os panos da louça.

21 comments » Write a comment

  1. acredita que se fosse a lisboa visitaria essa retrosaria…adoro botões…adoro essas casas (aqui no porto, felizmente, ainda existem muitas)e adoro as pessoas que lá trabalham. pois em mais nenhuma loja nos atendem como nessas: uma simpatia enorme e conhecimento afincado daquilo que fazem. e eles podem não vender como querem, mas eu vou lá estar sempre…agora posso dizer que tenho uma retrosaria preferida, porque tecidos e linhas para tricotar, fazer crochê e ponto cruz só compro na “loja do senhor velhote mais atencioso que conheço”. e eu já fui lá mais que uma vez e nunca fui antipaticamente recebida.

    um grande viva às retrosarias fantásticas das nossas cidades.

    vou ver se faço um relatório fotográfico das que existem aqui no porto para revelar a quem não conhece. porque não fazes o mesmo aí em lisboa? :) era giro! :)

  2. Olá Rosa,

    Tenho que dizer que este espaço trouxe novas cores ao meu quotidiano. De facto, não é todos os dias que encontro alguém com a mesma “pancada” por trapinhos, galões, botões, fios… e todas essas coisas às quais já ninguém liga.

    Descobri a “ervilha” através de uma amiga, e agora sou visitante assídua! Os trabalhos são lindos, de muito bom gosto mesmo. Agradam-me os tecidos, as cores, e os textos também.

    Estudei no Porto 5 anos, e também lá conheci este tipo de lojas onde já nem as traças entram, por serem velhos, mas que escondem autênticos tesouros da costura.

    Deste-me uma nova vontade de pegar em linhas, agulhas e tesouras, de desbravar anos e anos de “sacos” religiosamente guardados de “trapinhos que um dia hão-de servir para qualquer coisa”. Muito obrigada!!!:D

    Entretanto vou contar aos sete ventos que existe um espaço virtual que se chama “ervilha cor-de-rosa”, e que é lindo!! Ah, e que afinal não sou a única a delirar com trapinhos, fitinhas e botões!!

    Até breve, Rosa!!

    Beijinho,

    sara aires

  3. Que máximo Rosa :-)

    Adoro a maneira como decreves as coisas, os momentos…a loja deve ser uma como uma caixa de surpresas :-)

    Beijo grande

  4. Olá Rosa!

    (pena de não ter idop a Lisboa no fds passado…)

    Ao ler a tua descrição, até parece que senti o cheiro do pó! Adoro retrosarias e, especialmente, botões e fitas. Felizmente que cá em Aveiro ainda vou encontrando o que procuro, apesra da higienização dos espaços.

    bj

  5. Ai Rosa, conta mais “histórias” destas e deste modo.

    Ai que bem que me soube.

    Eu tenho imensos botões, gosto muito de botões.

    Até tenho um livro que aborda o historial dos botões (pena ser inglês que não pesco quase nada)e com vários exemplares de botões.

    Obrigada por este momento delicioso.

    Sandra Pereira

  6. Fiquei cheia de pena do senhor…

    Aqui no Porto há retrosarias fantásticas, de babar, e não noto que estejam assim às moscas, sempre que lá vou vejo montes de clientes… Mas se calhar também há dessas velhinhas escondidads e ainda não dei por elas.

    Também tenho panca por botões, a minha mãe tem uma caixa fabulosa cheia deles que foi coleccionando desde pequena, e que era um dos meus brinquedos favoritos quando era miúda. Agora estou a formar a minha caixa.

  7. Que linda descrição, eu também adoro retrosarias!

    E botões…que fascínio, o meu avô paterno era alfaite…desde que me conheço como gente, que recordo a mesa de corte, os manequins de molde, com esticadores nas costas, consoante a medida dos corpos que trabalhava, uma panóplia infindável de tesouras douradas, enormes, curvas, rectas, a caixa do giz, a almofada dos alfinetes que ele usava no antebraço, e as “fazendas e cortes” importadas de itália e frança, que se amontoavam num armário ao longo da parede, as publicações que ele assinava, e que vinham do “estrangeiro”, e a mais preciosa de todas as coisas, uma compilação que foi encadernada pelo pai dele, e que pertenceu à minha bisavó e que se chama “El Correo de la Moda”, eram fascíclos mensais de moda e utilidades domésticas, ilustrados, datados de 1885, é simplesmente fabuloso! Ao folheá-lo somos imediatamente transportados para outro mundo, com os trajes de passeio, de gala, de montar, e a roupa de crianças, é maravilhosa, cheia de galões e rendinhas…é lindo, lindo! Em casa chamamos-lhe o tesouro do avô António!

    As retrosarias assim, também são tesouros!

  8. Oi, Rosa.

    Também fico inspirada quando entro em armarinhos e vejo os botões, miçangas.

    Tenho dúvidas da formação que tive e que me encaminhou pelo mundo dos projetos. O que eu queria mnesmo era fazer arte, brincar com as cores, linhas, tecidos e miçangas, ou mesmo tintas. Fazer bolsas, xales e almofadas.

    O que me tolheu, verdadeiramente, foi o acesso à máquina de costura, que não tive. Para minha mãe, crinças e adolescentes não podiam mexer na sua máquina ‘para não quebrar’. E lugar de criança era na escola e não na máquina de costura.

    Sinto tanto não ter abraçado esta causa… Hoje fico comovida de ver trabalhos como o seu, de tanta(o)s outra(o)s que conheço pela Internet.

    Desejo-lhe longa vida, para que continue encantando internautas com seu talento. Bjs

  9. e eu aposto que vai haver uma data de gente que vai mesmo passar por lá graças a ti!… o senhor vai ficar espantado…

    (por acaso a I tem algumas coisas com botões… mas não são nada originais ou especiais…)

  10. what a wonderful photo! … and description as well. i just love the feeling you get from the image. xo! mav

  11. Oi Rosa!

    Adoro como descreve as coisas, parece que estamos vendo a cena. Você devia pensar em escrever um livreto com essas suas experiências, nas visitas que faz às retrosarias, nos pequenos-grandes achados.Ía ser muito divertido :)

    Parabéns, os botões são muito fofos, e dá p/ fazer uma imensidão de novos projetos não é?

    Se vier passear em terras brasileiras um dia, me avise que vou te levar para conhecer nossos “armarinhos”, vai se divertir. Ou até ficar estressada com tanta coisa para ver, em tão pouco tempo. Eu adoraria conhecer vossas retrosarias!

    beijinhos

  12. ai, ai, acho que temos de criar uma Liga para a Protecção do Botão. Eu também sou uma apaixonada pelos botões, não compreendo o desprezo por esta verdadeira instituição do vestuário em benefício do ruidoso velcro, dos arrepiantes fechos e dos elásticos deprimentes e de-pressivos.

    Tive esperança que uma recente moda de usar os botões como elemento decorativo desse o mote para um ressurgimento em força mas … parece que a luta continua.

    bjs rosa, excelente post!

  13. Adorei este post.Dá mesmo vontade de ir lá fazer uma visitinha ao senhor.:)

    Em Lagos, acabaram com a única retrosaria que existia.:(

    Eu ainda não descobri foi nenhuma aqui em Benfica, mas vou investigar a fundo.ehehe

    Existem tantos botõezinhos lindos, nao percebo porque não os utilizam em peças de vestuário.

    Concordo com a GattoPardo, temos que criar uma Liga para a Protecção do Botão.:)

  14. lolol

    Também desprezo sempre os sacos de plástico que insistem em dar em todas as lojas!!

    Descobrir novos locais de interesse é sempre um incentivo para que o dia corra bem. Há sempre histórias curiosas para narrar. Andar por ruelas que fujam da rota diária é uma surpresa. Vale mesmo a pena!

    Não sei se acredito na morte dos botões… Não quero acreditar pelo menos!

    a.m.

  15. Que, emotiva que sou, quase chorei ao ler este seu post.

    Esse tipo de coisa que me faz feliz =)

    Vonta de ir até aí e conhecer a loja…e o velhinho.

    Beijos!

  16. Tenho pancada por botões ao ponto de os pregar em almofadas e tshirts só porque acho que fazem um efeito giro. Presumo que conheças um retrosaria na esquina da Av. da República com a Visconde Valmor que tem galões de fita de veludo de algodão “dos antigos” e uma óptima colecção de botões de madrepérola? Se não conheceres dou-te a morada certa.

  17. Aposto que esse senhor acabou de ganhar uma clientela muito vasta graças ao teu post. Passarei por lá assim que puder. Entretanto, guardo religiosamente a pequenina colecção de botões que a minha avó me deu, com a alegria de saber que mais esperam em casa dela.

    Jinhos*

  18. É bom saber que a lojinha ainda existe.

    Só encontraste botões ou o senhor ainda tinha chitas e galões de que tanto gostas?

    Para a semana tambem vou investigar e se descobrir algo passo a palavra.

    Beijos.

  19. Fico contente por saber que há mais gente como eu… Sofro do mesmo mal que tu (vocês!)!Desde pequenina que me perco em tudo que é retrosaria. Qto mais empoeirada, mais pequenina, mais velhinhos forem os senhores que estão a atender melhor! Ainda há (FELIZMENTE!) muitos tesouros desses perdidos pelas travessas de Portugal. Compete-nos a Nós dar alento e força para que estas não desapareçam!!! É pena ser de longe porque senão amanhã mesmo, ia arranjar maneira de passar por lá!!

  20. Adoreia tua história, fico fascinada como uma menina tao jovens se ineressam por essas coisas.

    Nas Caldas há lá uma retrozaria k tambem ias adorar. 1 bj para ti e para a Elvira k é um amor de menina