lá em baixo (continuação)

Depois de uma semana em que não tive cabeça para tratar do assunto, passei hoje mais uma manhã ao telefone. Comecei pela SCML e acabei com a carta (aliás email) que já enviei, e que aqui fica também:


Ex.mo Sr. Delegado Regional de Saúde,

Dr. Carlos José Pereira da Silva Santos,

Venho por este meio expor-lhe uma situação que há mais de dois anos estou a tentar resolver:

Resido … em Lisboa … . No andar por baixo do meu vive uma idosa, sozinha, com a visão, a audição e a mobilidade muito reduzidas. Esta senhora (D. F.) ainda sai de casa, a muito custo, mas creio que diariamente, mas já não tem capacidade para cuidar da sua higiene pessoal e menos ainda da da sua residência e da do gato com que vive. Da sujidade que a rodeia são testemunhas todos os habitantes do prédio, não só por poderem constatá-la nela própria, mas também pelo cheiro nauseabundo que invade diariamente as escadas do prédio.

Passo a enumerar os contactos que efectuei de há dois anos para cá com o objectivo de solucionar este problema e as respostas que obtive dos mesmos, que me levaram, finalmente, a escrever esta carta:

1. Linha do Cidadão Idoso: Fui aconselhada a contactar a Autoridade de Saúde Local.

2. Autoridade de Saúde Local (Centro de Saúde de … ): Contactei pessoalmente a Autoridade de Saúde há já dois anos, apesar da relutância desta em receber-me. Foi-me dito que deveria escrever uma carta para a Câmara Municipal de Lisboa e que a Autoridade de Saúde não tinha meios para intervir.

3. Câmara Municipal de Lisboa: através do apoio telefónico da CML foi-me dito que esta apenas pode intervir quando a casa em questão é propriedade da CML.

4. Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: Foi-me dito que a responsabilidade sobre questões como esta (em que é necessária uma intervenção não só ao nível pessoal mas também sobre a higiene de uma residência) é de facto das autoridades de saúde. No entanto, a assistente social com quem falei (Dra. … ) ofereceu-se para intervir. Visitou a D. F. na companhia de uma agente da PSP da esquadra … (Agente … ) e mais tarde com a Autoridade de Saúde. No final desta visita, a Autoridade de Saúde determinou não ser a situação tão grave que exigisse uma intervenção da sua parte. A Dra. … conseguiu com muito esforço e passado algum tempo contactar a filha única da idosa, para lhe pedir que autorizasse a instituição do chamado Apoio Domiciliário para a D. F., mas aquela disse não haver necessidade visto dar à sua mãe todo o apoio necessário. No entanto todos os moradores do prédio podem testemunhar que esta senhora nunca é vista a entrar ou a sair do prédio e que a D. F. não recebe qualquer tipo de apoio em sua casa.

Dois anos passaram entretanto e a situação agravou-se naturalmente ainda mais.

5. Linha Nacional de Emergência Social do MTSS: Aconselharam-me a contactar novamente a Santa Casa da Misericórdia, no sentido de reabrir o processo.

6. Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: Sugeriram-me que contactasse a Autoridade de Saúde, única com poder de intervenção ao nível da necessária limpeza da habitação da D. F. A SCML poderá apenas instituir um apoio regular de cuidados e higiene pessoal da idosa.

7. Direcção Geral de Saúde: Foi-me dito que escrevesse uma carta ao Delegado Regional de Saúde.

Queria ainda transmitir-lhe que muitas das pessoas a quem relatei esta triste história, em que as várias entidades presumivelmente competentes delegaram umas nas outras o poder de intervir nesta situação, me aconselharam a dar conhecimento dela aos meios de comunicação social. Ainda não tive vontade de o fazer, por preferir confiar no poder do Estado e na vontade dos que para ele trabalham. Expu-la apenas no meu weblog pessoal, em

http://ervilhas.weblog.com.pt/arquivo/108570.html, onde tenho também intenção de tornar pública esta carta que lhe dirijo.

5 comments » Write a comment

  1. Certamente, menos que a Rosa e restantes habitantes do prédio e da Senhora D.F.; eu aguardo ansiosamente que o Exmo. Sr. Delegado Regional de Saúde resolva de imediato esta situação.

    A ver vamos…

    Sandra

  2. Coragem… tenho passado por uma história muito idêntica e até hoje nada…. No “meu caso” a responsabilidade é da Santa Casa… e ainda não consegui obter uma resposta que resolva o problema da minha vizinha

  3. Que aventura… gabo-te a paciencia e a boa vontade… já disse antes, pessoas como tu há muito poucas infelizmente… pode ser q seja desta! Estou a torcer… por ti e pela D.F.! Se há coisa q n entendo é a filha…

  4. Aqui no prédio tivemos um caso idêntico. O senhor não só morava sozinho, não cuidava da sua higiene pessoal e da casa, como trazia lixo da rua. O cheiro nas escadas também era insuportável… infelizmente, o senhor acabou por morrer há cerca de um ano. :(

    É triste ver que os idosos são abandonados nas suas casas, nos hospitais e nos lares. Largados como se de objectos tratassem.

    Espero mesmo que encontrem uma solução.

    Jokas

  5. Ah, grande mulher! Acho que fizeste muito bem, a situação que contas deve ser insuportável. (Não percebo essa filha, ou melhor, percebo… portuguesices, mas isso são outras conversas.)

    Se por acaso eles não fizerem nada (espero que façam), fica aqui o meu apoio para falares à comunicação social ou mesmo para te ajudar no que possa. Dá notícias. :)

    Espero que tudo se resolva pelo melhor, para ti e para a Dona F.