traductor traditor

pé camuflado

Vinha recentemente noticiada no Público a publicação pela APDSi um glossário que fornece definições e propostas de tradução para uma abrangente lista de termos respeitantes ao universo da informática e da internet (aliás, da Sociedade da Informação). Se o combate à info-exclusão é um objectivo nobre, há determinadas traduções que me parece inútil sequer propor, sobretudo numa altura em que os termos na língua original já entraram irreversivelmente no vocabulário das pessoas que contactam com eles diariamente. É tudo uma questão de energia: dá muito mais trabalho dizer mensagem de correio electrónico do que dizer email. Mensagem de correio electrónico parece uma palavra (o problema é que nem sequer é uma palavra, são quatro) de info-excluídos. Os franceses conseguiram resolver o problema abreviando: courriel é quase tão fácil de dizer como email e eu, por cá, julgo que faz mais sentido dar às pessoas uma boa definição de email do que ensinar aos que não sabem uma palavra (não, 4 palavras) que só eles é que vão usar. Dizer email, para não sair do universo estritamente feminino em que sou quase sempre catalogada, é como dizer em Português as palavras francesas soutien ou cachecol. Peça de roupa que oculta o efeito da gravidade sobre o peito e cobertor para o pescoço também não colaram. É natural.


Não li o glossário todo mas também me chamou a atenção a definição de Blogue (para mim vai ser blog até decidirem escrever também internete), que é pobre e desactualizada.

Voltando às palavras, e falando como total leiga na matéria, suponho que as Línguas mudem no sentido de se tornarem mais operacionais e adequadas à realidade. O que me faz pena é mais ver que quase ninguém se importa com os acentos graves e o verbo haver, mas enfim.

PS: por coincidência deparei hoje com este post (a palavra post não consta do glossário da APDSi) de uma homónima do outro lado do Oceano. É sobre muitas outras coisas mas também sobre esta (e as brasileiras usam sutiã).

18 comments » Write a comment

  1. aqui e precisamente ao contrario. as vezes acho que vao rapido demais. todos os anos sai uma actualizacao do ‘van dale’ (nome do dicionario oficial da lingua neerlandesa, porque holandes nao existe!). este ano 9000 palavras novas entre as quais: ‘googlen’ (em portugues seria googlar), ‘smsen’ (sms-sar??) e ‘harry potter’!!!

  2. Muito bom ler-te em assuntos um pouco afastados dos habituais :) (a propósito, hoje li a palavra ‘cascol’ e tive dificuldade em perceber a que se referia! lol)

  3. É a globalização!:D

    Estes problemas linguísticos sempre existiram, eu ainda me lembro que em pequena não se escrevia «futebol» nem se dizia «sandes»! Alguém se lembra? Esta questão do e-mail e tudo o mais não é novidade da APDSI!Já o Dicionário da Academia de Ciências o tinha abordado à uns anos atrás ( não muitos ) é claro que não pegou!Nem vai pegar! Qual é o tótó que vai dizer em quatro palavras o que pode dizer com uma? Só alguém cheio de mofo! E esse é o exemplo mais simples. Enfim…Cá estaremos daqui por uns anos a ver como é que as coisas evoluíram.;)Ao menos ficámos a saber que existem pessoas que se preocupam com a não extinção da «««(: portuguesa!

  4. ….lá está, ninguém se importa com o verbo haver e com os acentos graves! Tens toda a razão. Gostei muito de ler o post(e)brasileiro.

  5. A palavra “traductor” é um arcaísmo ou é só um “distraísmo”? ;)

    A (chata da) correctora de serviço.

    (E o “tive lá”? Que irritação! O verbo é “estar”, não “tar”.)

  6. Estás a ver como estamos sempre a aprender? :)

    Obrigada pela explicação! Eu bem sabia que tu não te enganavas assim. ;))

  7. Sou tradutora, portanto acho que posso comentar com propriedade :)

    Da mesma forma que me irritam as adaptações por preguiça (como insistirem em “priorizar” ou “prioritizar” quando temos a expressão “dar prioridade” que serve perfeitamente), acho que há que haver bom senso e, numa área como a da informática, que avança a uma velocidade tremenda, as palavras no idioma original enraizam-se num instante e o bom-senso, a meu ver, manda que elas sejam utilizadas assim mesmo.

    Não sou contra a validade da expressão “mensagem de correio electrónico”, mas acho absurdo invalidar-se “e-mail”. No entanto, das consultas que fiz ao dicionário da Academia, o que percebi foi que “e-mail” não era invalidado, visto que aparecia no dicionário; simplesmente remetia para “correio electrónico”; mas o facto de aparecer como entrada mostra que é válida a expressão “e-mail”.

    Oh, há tanto para discutir no que toca às traduções e ao ritmo a que a evolução actual lhes impõe… :)

  8. 1- Tanta indignação e não há ninguém que se indigne com erros como “tótó”? Não existem palavras com mais do que um acento gráfico em português.

    2- Há muitos casos do uso de expressões com quatro palavras que podem ser substituídas por apenas uma… Se quiserem exemplos, basta que os peçam.

    3- “À uns anos atrás”??? Ninguém quer comentar?

    4- Parece haver uma pequena confusão entre locuções nominais como alternativas ao uso de estrangeirismos e a definição de sentido desses mesmos estrangeirismos…

    Quando um leigo torna públicas as suas opiniões, deve fazer um esforço para as validar convenientemente.

  9. Apesar de concordar em parte como o texto da Rosa, a minha “veia” de lexicógrafa faz-me ter que responder… Ao contrário do que dizem alguns dos comentários, existem regras no aportuguesamento que devem ser tidas em conta no português europeu (este muito mais permissivo, em termos de grafia, do que o português do Brasil, ao contrário do que parece). Aportuguesamentos como blogue são perfeitamente lícitos dado que aproximam a grafia portuguesa à forma como a palavra é pronunciada. Os aportuguesamentos propostos pelo Dicionário da Academia respeitam essas regras e é a sua função propor palavras correntes ou aportuguesamentos para neologismos, que desde que formados regularmente são aceites. Este ponto é importante, e já mencionado antes: PROPOSTOS, registando-se também o estrangeirismo, mas propondo uma alternativa para quem não o quer usar, o consulente é livre de tomar a sua opção, com o bom-senso mencionado antes. Quanto a não terem “pegado” as propostas feitas pela Academia das Ciências é só fazer uma pesquisa na Internet em sites:pt… inclusive muitos destes aportuguesamentos foram adoptados na maior parte dos livros de estilo dos jornais mais credíveis.

    Escrever “Internet”, “blog”, acho muito bem mas em itálico ou entre parênteses, como faz a Rosa, tal como se deve fazer sempre que se recorrem a termos estrangeiros.

    Mas concordo, mais grave do que estes aportuguesamentos ou não de estrangeirismos é a falta de saber distinguir o uso do “hᔠe do “à”, acrescento também: o uso abusivo de dupla acentuação e a ausência de acento em “pôr” vs. “por”

    Peço desculpa por mais um testamento, podes sempre apagar…

    :)

    sandra

  10. Kerop: palavras com mais do que um acento gráfico até existem (vd. bênção). O que não existe, penso eu, são palavras com duas ocorrências do mesmo acento.

  11. É muito interessante ver até onde podem ir as discussões apaixonadas (ou não) sobre a língua portuguesa e ver o que as pessoas dela conhecem e o que sobre ela estão dispostas a perorar (com ou se propriedade, mas com interesse, pelos vistos). Como se chega a um web log por acaso e se encontra uma inesperada controvérsia… E em vez de se elogiar algumas coisas muito bonitas de ver (parabéns às maravilhosas mãos), acabamos por comentar algo inesperado… Sem querer alimentar polémicas, é importante (não é vital, e ninguém morrerá por andar equivocado desde a primária) sublinhar que não há palavras com dois acentos gráficos em português (salvo se hifenizadas), pois o til não é um acento, é um diacrítico que serve apenas para indicar a nasalidade da vogal; por vezes coincide com a vogal da sílaba acentuada, mas não é nem será acento. Traductor traditus fuit?

  12. Acho esta foto extremamente interessante! A arte da camuflagem em calçada portuguesa?

  13. Magdala: mea culpa, de facto não o sabia. Estamos sempre a aprender, não é verdade? Obrigada! :)

  14. só que cachecol em francês diz-se écharpe e soutien (ou sutiã?) diz-se soutien-gorge. as voltas que a língua dá…

    :D

  15. Visto que o meu comentário deu origem a algo inesperado aqui vai a correcção: não é tótó mas sim totó ( a Magdala tem toda a razão )e não é «à uns anos» mas sim «há uns anos». A humildade é uma virtude, que não tenho em abundância, mas que tenho em quantidade suficiente para escrever esta correcção; o mesmo já não se pode dizer de quem se designa por Kerop que demonstrou « quem tem telhados de vidro…» A sua bênção.Um conselho:uma colher de mel por dia, nem sabe o bem que lhe fazia! «Ninguém quer comentar?» Parece que não. :x

    Peço desculpas à Rosa, mas tinha de responder. A última coisa que quero é ver este espaço ( que me dá tanto prazer)transformado num local de comentários azedos sobre algo que ultrapassa a própria autora do blog ( ou blogue ).

    :)

  16. gostaria muito de saber como se escreve JESUS CRISTO em latim.

    agradeço desde já a atenção e aguardo anciosamente a resposta

  17. Bem, eu digo e escrevo, em português, “mensagem de correio electrónico”. Ou apenas “mensagem”. Raríssimamente “e-mail”, e quando o faço tenho o cuidado de não omitir o hífen e de grafar a palavra em itálico (ou sublinhado à falta deste, ou entre “_”s, à falta de ambos) — e até de capitalizar o “m”, e não o “e”, quando ocorre em início de frase.

    Posto isto, não creio que seja exacto considerar-me um info-excluído, nem (espero!) alguém cheio de mofo.

    Acrescento em relação aos acentos que o que realmente não faz sentido na ortografia habitual portuguesa é a ocorrência na mesma palavra de mais que um acento tónico, sendo estes o agudo e o circumflexo. O grave nunca é tónico (incl. monossílabos, claro), e o til só o é quando na palavra não ocorre um agudo ou circumflexo — como em “bênção”, “sótão”, “órgão” etc.

    Finalmente, os meus respeitos e admiração à “Ervilha cor-de-rosa”, que, ao exitir, faz do Mundo um sítio melhor.