going going gone

futuro ex-mosaico hidráulico

Acho que é a última mercearia da rua com mosaico hidráulico no chão e não me espantava se fosse a última do bairro. A D. Ana está em obras e disse-me que a Câmara a mandou substituir o chão, que tem mais de cinquenta anos de uso e, fora a cor se ter desgastado, está impecável (como este que, um quarteirão acima, ainda resiste), por um pavimento cinzento, de aspecto plástico, que aposto que não durará nem dez. Porquê?

PS: O comentário da Fátima, que agradeço, levou-me a subir a rua para ouvir a história mais bem contada. A D. Ana garante que foi a CML que a obrigou a substituir o chão, mas creio que terá sido a ASAE (que percorreu recentemente o bairro). O tristemente famoso excesso de zelo desta autoridade tem levado a protestos por razões semelhantes noutras partes da cidade. É inaceitável que as mercearias tenham de se livrar dos armários em madeira e todos os seus outros mobiliários e revestimentos de origem quando estes se encontram em bom estado. É inaceitável que, sendo justificada a substituição de pavimentos, os Gabinetes Técnicos dos bairros antigos não aconselhem os comerciantes, pelo menos, a colocar material novo igual ao antigo. Vão os armários para as lojas chiques de design, onde são vendidos a preços exorbitantes, e ficam as mercearias vestidas a azulejo de casa de banho. Lá vai Lisboa…

19 comments » Write a comment

  1. Acho que não existe uma obra de reabilitação que não desperte um pontinha de polémica – fenómeno este bastante recente.

    Há séculos atrás, simplesmente não havia prurido nenhum em destruir para construir de novo, e embora não defenda atitudes tão drásticas, porque evoluímos culturalmente ao ponto de dar valor ao património histórico, a verdade é que o dever final do edifício é acompanhar o uso que fazemos dele.

    Apesar disso, concordo contigo quanto ao mosaico hidráulico (embora não tenha a certeza que os 50 anos de uso tenham sido a única razão para a sua substituição).

  2. Um dos efeitos positivos dos blogs, e especialmente do teu blog, a par das tuas lindas filhas, do teu belíssimo trabalho e acção cívica, já tenho aprendido e me inspirado nalgumas matérias, ou melhor, materiais. Desconhecia o mosaico hidráulico, e perguntei até aqui ao meu namorado que tem jeito para as artes e é mais velho que eu… e senti o que a educação do gosto a funcionar – aquela mudança, se bem que o gosto pode ser um bocadinho genético, consoante a ‘tendência’ para se olhar, para se cheirar, numa combinação de sentidos, senti que podia gostar e muito daquele mosaico até ali desconhecido, o padrão, cores e composição. Não conhecia. É lindo. Sabia que gostava de quilts, mas não sabia que era tão trabalhoso, original, por isso, valioso.

    Isto tudo para dizer que me sinto desgostosa com esta notícia. Favas! para o gosto impirado no nylon ou latex! Espero que a D. Ana tos dê…!(?)

    :)

  3. Sou formada em História/Arqueologia e trabalho na Reabilitação Urbana da CMLisboa; até há pouco tempo trabalhei no Bairro Alto e trabalho agora na Mouraria. Nas vistorias que faço salvaguardo sempre os elementos de valor patrimonial, que incluem desde rodapés, tectos relevados em estuque, portadas interiores, ferragens (gonzos), passando pela guarnição dos vãos, etc., assim como ao nível das fachadas, cobertura, etc. A CML tem muitos defeitos (sou a 1ª a apontá-los), mas nunca mandaria trocar um chão de mosaico hidráulico no Bairro Alto, a menos que, sendo um estabelecimento comercial, se apresentasse muito danificado. Infelizmente os inquilinos/proprietários é que substituem os elementos de valor patrimonial por materiais de qualidade e gosto duvidoso (se bem que para mim não oferecem dúvidas), e quando confrontados refugiam-se nas costas largas da CML. Felizmente, os técnicos não têm a cara do seu presidente e afins ;-P

  4. Fàtima..

    Também estava na duvida se a CML realmente mandaria trocar um chão de valor patrimonial(e intacto) por um mais “moderno”…obrigada por esclaracer!

    Mary Pereira

  5. sou uma orgulhosa “possuidora” de duas divisões e varandas com mosaico hidráulico. A casa onde vivo está no centro histório da cidade onde habito e o prédio está classificado.

    Ainda assim, isso não impediu os vizinhos de cima de terem substituído o mosaico hidráulico por um chão de gosto duvidoso…

    Confesso que o da cozinha está bastante desgastado, imagino eu por causa de produtos de limpeza bastante agressivos e nada recomendados para mosaico hidráulico.

    Nunca substituiría este chão por outro, mas tenho a prova visível que um mosaico hidráulico mal tratado fica em mau estado de conservação e limpeza…

  6. Não resisto a comentar a 2ªvez, facto inédito:

    Essa versão da ASAE já me convence muito mais!As preocupações deles não cobrem de maneira nenhuma o património histórico e culutural que vai sendo apagado, daí que esteja tudo a ser varrido a plástico, vidro e alumínio.

    O mais interessante é que as peças que são retiradas não vão parar só a lojas de pseudo-design, mas também a novos locais de restauração que vão abrindo com um público alvo com mais poder de compra que o das mercearias de bairro.

    Nesta inspecção da ASAE a mobília já passa!;)

  7. Decisões dessas parecem resultar de abordagens tontas e preconceitos complexos, onde se confude (ou pretende confudir, porque é mais fácil) a higiene com que são desenvolvidas determinadas actividades, com a actualidade e impermeabilidade dos materiais que compõem os espaços onde essas mesmas actividades são desenvolvidas.

  8. Infelizmente a política de reabilitação na CML tem perdido força desde o executivo do Santana Lopes e piorando com o Carmona; a ponto de a Directora da DMCRU (uma jurista que nada percebe de reabilitação) estar a dispensar os técnicos de História/História de Arte/Arqueologia que fazem parte das Unidades de Projecto dos Bairros Históricos (e quanto a mim, essenciais), e consequentemente, não haver diálogo entre os diversos departamentos da CML. Assim, a ASAE é bem capaz de diligenciar obras num estabelecimento comercial num Bairro Histórico sem fazer ou permitir qualquer contacto com as Unidades de Projecto, neste caso a UPBAB (Unidade de Projecto do Bairro Alto e Bica). É uma luta diária que os técnicos têm vindo a travar, ganhando cada vez menos batalhas… e quem sofre é a cidade, pois a perda do nosso património é irreversível. Concluindo, espero que os lisboetas não cometam 3 vezes o mesmo erro no dia 15 de Julho….

    Vivo na Alameda num prédio pleno estado novo, com um pavimento de mosaico hidráulico dos mais bonitos que já vi e também muito danificado (à conta da insensibilidade de uns senhores que fizeram umas obras cá em casa). … e não consigo substituí-lo.

  9. obrigada pelo contacto vai-me ser muito útil uma vez que só tinha um contacto de uma empresa espanhola e vou tentar aplicar mosaico hidraúlico num jardim de infancia pelo menos nas salas de aula que por ser artesanal fica acima do orçamento… mas também muito “acima” em muitros outros aspectos :)

  10. Mosaico hidraulico should be treated like an animal in vias of extinction, and duly protect. “Save the Tiles” stickers all round.

    lembro me de ver duas empressas em Estremoz que ainda faziam mosaico hidraulico, tinham bancas na Feira de Atensenato anual (que é umas das boas) . Lembro me sonhar que um dia podia colocar um e levei um cartao. Vou procurar na aquela gaveta chei de papeis….

  11. Creio que o pessoal da ASAE deveria ter umas aulinhas de património e não só.

    Infelizmente não é só a ASAE que diz o que se tem de mudar num estabelecimento. Na pastelaria dos meus avós também têm que mudar as prateleiras de madeira por umas em inox. Nas mercearias antigas acho ridículo,os alimentos nem estão em contacto com o material, logo não se trata de ser higiénico ou não, trata-se sim de teimosia…e talvez falta de vontade de preservar o que é nosso.

  12. tenho uma amiga que diz:

    prefiro os imbecis aos ignorantes,,,

    eu não prefiro nem um nem outro, mas definitivamente acho que é mais facil convercer um ignorante a um imbecil,

    eu nestas situações,

    acho que o unico remedio,

    é partir para quebrar,

    melhor dito,

    explicado,

    contra a imbecilidade,

    porque na camara ou sei la onde for, de certeza que o que havera será algum imbecil,

    ignorante, não acredito, !!

    façam uma marcha silenciosa,

    peçam os azulejos à senhora da mercearia,

    convoquem manifestaçao,

    e cada qual que leve um desses azulejos e os coloque na entrada,

    na via publica,

    a frente da camara municipal de lisboa,

    é so uma sugestão,

    a,

  13. Fatima Tomé,

    Desculpe,estou segura de que as suas vistorias são minuciosas respeito a salvaguardar os “ex-libris” lisboetas,

    e a dos seus colegas, tambem técnicos, não tenho dúvida de que tambem serão,

    mas do que se está a falar aqui são de leis,

    que deveriam ser proibitivas de determinado tipo de obras, sejam elas de substituiçao, seja de reforma, em locais considerados “protegidos”,

    tipo as reservas ou parques naturais,

    tá a ver??

    não se pode caçar numa reverva cinegética, mesmo sendo proprietário dela, as vezes que nos apetece,

    há leis,

    que foram feita, para dirigir o “livre gosto” “ou o gosto duvidoso”,

    e é disso que a CML deveria implementar,

    leis,

    que definam,

    que nem rodapés,

    nem balcões,

    nem vitrinas,

    nem chãos hidraulicos,

    nemmmm (a vestimenta dos senhores que atendem ao balcão)

    serão modificadas sem previa autorizaçao,

    tipo licensas de construção, para o caso de novas edificações,

    deveriam haver,

    licensas de remodelação do conteudo,

    no caso de locais, considerados patrimonio da cidade,

    caso contrario,

    daqui a uns anos,

    a baixa lisboeta,

    será identica a de nova york,

    será uma pena para todos,

    mas será uma perca principalmente para este pais,

    que poco a poco se irá tornando descaracterizado,

    já não digo igual a…

    digo sem caracteristicas que o identifiquem como Lisboa,

  14. Mesmo não tendo em conta o valor patrimonial, a tijoleira hidráulica é em geral entre 50 a 80 vezes mais bonita…no mínimo no mínimo. esperemos que um dia breve volte em força.

  15. Olá

    encontrei, por acaso, este seu comentário aos mosaicos hidráulicos e resolvi apresentar-me.

    Há cerca de 1 ano e meio começei a importar mosaico hidráulico para colmatar uma necessidade própria: precisava de um restauro.

    Agora, já tenho a minha própria empresa de distribuição de revestimentos e somos os representantes exclusivos dos mosaicos http://www.mosaicdelsur.com em Portugal.

    A boa notícia e que há imensa gente culta que quer recuperar ou aplicar mosaicos em obras novas.

    O mosaico é muito bonito, muito resistente e altamente democrático: tanto está nos mercados, como nos palácios e nas prisões..

    Se tiver tempo dê uma saltada ao nosso site http://www.studiofirma.com e vai encontrar outros produtos interessantes.

    Parabéns pelo bom gosto!

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