notas soltas

O dia de Simone

Não leio muitos livros de puericultura. Li o Spock de fio a pavio durante a primeira gravidez, os incontornáveis Touchpoints e um manual bem humorado sobre toddlers. Sobre um dos assuntos que mais tinta faz correr ficámo-nos por este, que é genial. Em Português (ou estava em Castelhano?) li este, que não me convenceu.

Estou a ler o The Good Behaviour Book. Não porque ache que a E. podia ser mais bem comportada mas porque senti uma quebra na minha tolerância e capacidade de a confrontar sempre (tão sempre como possível) pelo lado positivo. Aconteceu durante a gravidez e estava a acentuar-se. O livro, escrito pelo famoso (por cá pouco) William Sears, é bem feito e útil e foi o seu autor quem cunhou as expressões attachment parenting e babywearing.

Os meus posts sobre escolhas (enquanto mãe) suscitam sempre o uso da palavra fundamentalista em algum comentário. Não sou (cá em casa até há uma Cinderela maneta e uma Barbie). É ingénuo associar criança e liberdade de escolha quando se fala de desenhos animados, brinquedos ou comida e de crianças pequenas (a minha mais velha tem 4 anos). A criança vê, quer e escolhe dentro do que lhe é apresentado. Muitas fazem a sua escolha apenas dentro do que o canal de televisão e a cadeia de supermercados escolheram para elas. É perigoso confundir isso com liberdade, porque se trata exactamente do contrário.

Enquanto pais e mães passamos o dia (a vida) a fazer escolhas. Muitas não são fáceis. Escolher menos não é dar mais liberdade e é muitas vezes a maneira mais fácil de justificar a ausência das regras que tivemos receio de impor. Eles vão pedir-nos explicações na mesma.

19 comments » Write a comment

  1. eh pá, era a dica que eu precisava!

    (e não haverá em português, não… é que em inglês só acabarei de o ler lá prós 30 anos da miúda…)

  2. ora nem mais. há sempre escolhas, selecionando ou não selecionando está-se sempre a escolher…e cada um fará aquelas que lhe trarão mais confiança ou com as quais se sentem mais confortáveis. importante é ficarmos bem com as escolhas, com as nossas e com as que eventualmente fazemos por eles sejam elas mais ou menos “pseudo fundamentalistas”. fiquem todos em paz com as vossas escolhas e as dos outros…rosa, continua a fazer as tuas…

    continua a parecer-me importante fazer algumas escolhas pelos filhos, um dia eles farão as deles com uma base de referência aberta a alterações…

  3. Não tenho problema em dizer que não peguei em nenhum livro pedagógico, e não me sinto mais desadequada ou desinformada por isso. Sinto-me bem em ser mãe naturalmente, assim sem directrizes globais, certificadas e comprovadas. E que venham os erros e as correcções, que eu aprendo tanto com ela como ela aprende comigo.

    Vejo a minha caminhada como uma aprendizagem tão grande (ou maior) do que a dela.

    A criança escolhe dentro do que lhe é apresentado, concordo – mas acredito mais na escolha informada do que na censura completa. No dia em que ela se deparar com todas as coisas que lhe foram vedadas ou escondidas, é bom que saiba porque é que deve dizer não.

    Ensinar a pensar é mais complicado que ensinar regras.

    Não existem livros a seguir

  4. Fundamentalista?!

    Isso chamam-me a mim quando digo que a minha filha mais nova (com dois anos e meio) nunca foi pesada e nunca foi a um pediatra…

    Tal como a Alice aqui no comentário acima, nunca li nenhum livro sobre “parenting”, e os poucos a que dei uma vista de olhos foi com propósitos profissionais.

    Acho que cada pessoa sabe o que é melhor para si e para os seus. Sou uma defensora das liberdades individuais. Se determinados pais precisam de ler outras opiniões para se sentirem melhor com as suas escolhas, porque não?

    Por outro lado, também acho que um excesso de informação em “how to parent” pode levar a uma certa mecanização da educação das crianças e a pouco espaço para a sensibilidade e intuição.

    Em relação aos temas quentes, por aqui a telivisão também é totalmente racionada e tentamos que os brinquedos passem pelo mesno escrutínio de qualidade/competências educativas/criatividade.

  5. Alice: escolha informada, o mais possível. Mas com “informação” proveniente de mais fontes para além dos canais normais (televisão, publicidade, grandes lojas, etc.).

    Por outro lado, a “escolha informada” de que falas é feita dentro da TUA selecção de conteúdos, pois certamente não entregarás o comando da televisão a uma criança pequena confiando no seu critério.

  6. As acusações de fundamentalismo a que por vezes estou sujeita estão, quase sempre, associadas a uma enorme falta de disponibilidade, por parte de quem as faz, para compreender e pensar outros pontos de vista que não os seus e têm, geralmente, o intuito de deitar por terra ideias que fogem à regra vigente e que a possam pôr em causa. Curiosamente, quem as faz, considera-se defensor de abordagens mais livres….enfim, contradições…

  7. Oi Rosa!

    Acompanho o teu blog e trabalho há alguns tempos… Gosto muito! Parabéns!

    Gostei do título do teu post de hoje… que é uma rubrica que costumo utilizar muito no meu blog ;)

    Bjs

  8. Rosa. De certeza estás a fazer o melhor! Porque

    fazes tudo com Amor! E isso nota-se! E é isso que é importante! E eles não vão pedir explicações…. (fala uma mãe de um com 20 e de uma com 4…)

  9. Mãe de 3, todos diferentes, todos desobedientes.

    Leio livros, muitos livros, de diversos autores e com várias opiniões. De todos eles acolho o que a minha sensibilidade e o bom senso me aconselham. Não, não sou fundamentalista, acredito na disciplina com amor. É claro que não sei sempre o que fazer, o que dizer, e à medida que eles crescem é cada vez mais difícil. Estou convencida, no entanto, que sou hoje melhor mãe do que fui do 1º filho, por obra da experiência, da maturidade, das leituras, das conversas,…

    As regras, essas, são um direito recenhecido aos nossos filhos, fundamental na sua educação, só assim poderão entender o porque sim e o porque não.

    Fácil: não é para nunguém, pelo menos para quem se preocupa com isto.

  10. Ser mãe/pai é um teste constante. Tentamos fazer dos nossos filhos as melhores pessoas e eles apenas querem ser eles próprios. Tenho 4 entre os 7 e 1 ano. Só rapazes. Tínhamos tudo planeado. Poucos livros, mas muitas ideias do que (para nós) estava certo e estava errado. E tudo correu bem até nós servirmos de filtro (leia-se “ir para o infantário”). Depois surgem amigos com muito do que afastámos (mascotes do McDonalds, festas de aniversário com comida plástica, consolas de jogos…) e as coisas mudaram. É dificil lutar contra a corrente. Sempre. Mais quando se tem 4 anos. A viragem começou com as inevitáveis comparações às “boas mães dos amigos” onde, naturalmente, eu não era incluida. Depois veio a frase do Pedro que mudou tudo: “mãe, porque é que não me deixas viver a minha vida feliz?”. Sem palavras. Temos o que podemos, sempre com moderação. A moderação passou a ser o limite. Religiosamente respeitado. Nós… descobrimos novas formas de brincar. E brincamos. Muito mais. Mesmo muito. E há um especial prazer sempre que a bola rola lá em casa e o pókemon fica no armário. Eles aprenderam sozinhos a optar. Gabam-se de saber lançar um pião quando os amigos nem sabem o que isso é. São as suas escolhas. Deixei de as conseguir condicionar. Nem quero. Nunca mais!

    Não fiquei a perder. Ficámos a ganhar. Só lamento o tempo que perdemos com as batalhas quixotescas de imposição de ideias e ideiais. Porque queremos (sempre) as comunguem. Mas eles são eles, e têm sua identidade. Se mudámos de ideias? Não. Mas adaptámo-las a eles. E com eles. E eles a nós. E é assim que tem que ser. E é assim que (connosco) resulta.

    És boa mãe. Segue-te. “Invejo” a tua capacidade de estimulação das tuas filhas. É um dom. Não o vires contra ti.

    Mudando de frequência, tenho de te felicitar pelo teu trabalho. Desde a 3ª gravidez que ambiciono uma boneca tua (tenho-a escolhida desde sempre :))e depois… os slings. Andamos com um mealheiro a juntar para ambos. E vamos lá chegar!

    Tem sido sempre assim. Levamos tempo, lutamos por isso. Depois sabe melhor.

    Não esqueças Rosa, que foi a tua filha que fez de ti mãe. Foi ela a primeira a ensinar. Deixem-se aprender. Todos. Com todos.

    Tudo de bom para vocês e para as vossas meninas.

    Sofia

    PS: Desculpa o testamento :(

  11. Completamente de acordo! Pelo que aqui acompanho, a Rosa sempre me pareceu uma mãe preocupada em ser esclarecida e muito cuidadosa, sem sombra de dúvida. Assim deveriam proceder todos os pais e não estaríamos na cauda da Europa… a educação começa em casa e não, só na escola.

    Aproveito a oportunidade para pedir-lhe desculpa por não ter agradecido a resposta que – tenho a certeza – me terá dado, ao email que enviei sobre os «lenços de namorados». Acontece que não consegui aceder ao Outlook Express por não o ter configurado devido ao facto de ter mudado

    recentemente de operador/servidor. Telefonei e não conseguiram resolver-me a situação a contento, pelo que continuo a não ter acesso aos emails enviador por aí. O meu endereço é daquemdalemmar@—–.com.

    Obrigada na mesma.

    Felicidades.

  12. Ahh. We have this struggle everyday as max gets more and more aware of what he is capable of having bought for him (against what we allow him to have bought for him). The list is very long…..

    Great books – especially Touchpoints which is a staple in our house.

  13. Thanks for this post Rosa, and all the excellent and interesing comments by visitors.

    I think the title “Fundimentalist” is mostly given by those who follow the mainstream opinions driven by the media, to those who don’t conform. The question of “why do you conform?” is never placed, only “why do you not?”. I’ve found that just by doing my things my way, others feel defensive e.g. I used real nappies for my son, and often when changing him in public other mothers would feel the need to either justify themselves in using disposibles or make sharp comments about how I must consider myself virtuous. This without myself having said a word.

    When we are confronted with the example of a different option we are forced to judge how and why we do things our way. When you swim against the tide you are contantly aware of this. When you follow the tide you may not be used to the implicit questioning of value judgements that alternative options offer. It can be scary to question things you’ve always taken for granted, it opens such a large door and confronts all your responsibilities.

    There will always be tensions between the individual, the family, and the community. It can be tiring and difficult to reflect, behave and communicate in the way you believe.

    To offer a friends story, she told her 4 y/o son about how supermarkets try to trick parents into buying children sweets by placing them next to the check-out at the kids height. When they next went to the supermarket instead of the asking for sweets he said “look mum, you were right, they’re trying to trick me!”

  14. Fundamentalista?!!! :DD Essa expressão faz-me automaticamente pensar em terrorismo e não creio que a educação dos nossa filhos deva de alguma forma assemelhar-se a uma guerra… Penso que qualquer tipo de fundamentalismo está relacionado com uma obsessão cega baseada em escolhas desinformadas. Não creio que seja esse o caso!

    Tenho um filho, também de quatro anos. Quando ele nasceu o que eu sabia sobre puericultura era zero, e informei-me na altura para o poder perceber melhor e estimular o seu desenvolvimento. Passei os primeiros 2 anos e meio com ele, porque podia, mas principalmente porque achei que em tão tenra idade é com os pais que devem estar, são estes que os devem influenciar e é aos seus carinhos e modo de lidar que se devem habituar.

    Confesso que não imponho muitas restrições, mas considero o equilíbrio entre a disciplina e a compreensão estruturante para o desenvolvimento das crianças.

    Não acredito em métodos infalíveis, nem num só modo de fazer para todos.

    Acredito que estejas a fazer um excelente trabalho, pelo pouco que nos permites acompanhar: elas são criativas, alegres e demonstram capacidades adequadas e até mesmo precoces para a sua idade. Estão a fazer um excelente trabalho! São as vossas filhas e é a vocês, e a elas, que têm de prestar contas pela sua educação.

    É sempre muito fácil colarmo-nos a padrões massivamente estabelecidos, mas são poucas as vezes que eles dão bons resultados e como já disse antes, são ainda menos as vezes que se adequam a todos.

    Parabéns pelo teu trabalho (do qual gosto muito), e obrigada pela partilha destes 6 anos!

    :)

  15. Ao contrário da Rita, eu adoro ler livros de “pedagogia” ou “educação”, como lhe queiram chamar. O Spock e o Brazelton como livros de consulta, vorazmente nos primeiros meses. E a colecção “What to expect”, muito boa na gravidez e no primeiro ano! Neste momento leio “Between Parent and Child”, que recomendo, embora não haja tradução para o português. Num impulso contido, e depois de ler um pouco este teu site, decido escrever uma palavra! Os livros a mim ajudam-me a pensar, tal como qualquer livro, dão-me ideias e mostram-me outras formas de viver e de estar. Claro que a escolha e sempre nossa, e ainda bem. E a escolha acertada existe apenas para cada um de nós, e ainda bem. Fiquei com vontade de ler o livro do Sears, no dia em que senti a minha tolerância e paciência pequena, pela 1ª vez em 2 anos e meio (o meio ainda não foi celebrado!).

    Uma boa partilha!

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