linbransa

fato à lavradeira

Viana do Castelo. Fato à lavradeira.*

Em Viana do Castelo, capital do folclore, as cores vivas dos trajes saltam de quase todas as montras e perde-se a conta às lojas de artesanato (leia-se souvenirs), mas não há uma que recomendasse sem hesitar a um visitante desprevenido. A minha preferida vende, no meio de muitas outras coisas, peças de museu a preços tentadores: saias antigas tecidas em casa, lenços cache-nez que há muito não se fabricam, algibeiras e outras relíquias a cheirar a campo e a bafio. A outra de que gosto este ano estava fechada (acho que só para férias). Nestas e nas outras, o que abunda é industrial e desinteressante. Dou por mim quase com o discurso reaccionário deste livro, onde página após página se lamenta o fim dos serões passados à lareira com as ingénuas e genuínas raparigas do campo a tecer e bordar pacientemente os seus enxovais, e se descreve, já nos anos sessenta, a fraca qualidade do artesanato à venda nas lojas. A atitude não podia ser mais diferente da minha mas, por outro lado, custa-me ver morrer as últimas avós que nasceram num mundo diferente e, com elas, a memória e os saberes desse mundo. Há peças bem recuperadas, mas são a excepção. As poucas tentativas de integrar motivos tradicionais em peças de uso moderno que encontrei pareceram-me feitas com pouco gosto e menos qualidade. E no entanto há tanta coisa que se podia fazer…

PS: Não encontrei esta loja, e parece-me que foi uma pena. Gostava de ter visto de perto as rodilhas e o resto.


almofadas

* Fotografia retirada de Traje Popular, catálogo da exposição realizada pelo Museu de Etnologia no Museu Nacional do Traje em 1977.

15 comments » Write a comment

  1. Que bom ler-te de volta! :)

    Como podes imaginar, não posso concordar mais contigo.

    Estas constatações em relação ao artesanato português, ou à decadência deste, parecem reaccionárias precisamente porque estão (erradamente) associadas à ideia de que o artesanato é uma arte menos nobre, e que a arte popular em geral é pouco erudita e redutora de quem a executa.

    É preciso acima de tudo mudar mentalidades e descobrir o valor genuíno dessas peças em esquecimento, como testemunhos vivos de uma cultura.

    Precisamente o que tens vindo a fazer no teu blog :)

  2. Nõa podes ter mais razão. E infelizmente é o que se constata por este Portugal fora. Não só em Viana que tal acontece.

  3. Sempre tão querida, Rosa. Obrigada…

    A Tenda é mesmo ao pé da Praça da Erva (onde é o Turismo), pertinho da Igreja Matriz e da Praça da República. :)*

  4. Há mesmo muita coisa que se podia fazer e bem.

    Da nova onda de artesanato, parece-me que os novos artesãos (não queria, mas acho que vou ferir os mais sensíveis) deixaram de se preocupar com a qualidade ou originalidade, sinto que está a ficar tudo igual e muitas tentativas para remeter ao mais tradicional, parecem forçadas e por vezes caiem no exagero dos pormenores. Explorar uma técnica (e há tantas em que se podiam pegar) e recriá-la para uma situação actual pode tornar-se num trabalho verdadeiramente interessante e sedutor, mas poucos levam essas «explorações» a sério, e por isso o «novo artesanato» está a tornar-se banal e é uma pena! Tudo podia ser mais interessante, para quem executa e para quem deseja comprar, e o artesanato mais tradicional podia continuar vivo, com qualidade e poderiam surgir muitos trabalhos novos e originais (sinto que vou ser crucificada com estas palavras…)

  5. Há uns anos andei à procura na aldeia da minha mãe, do senhor que fazia os cestos. Fui pedir-lhe que me ensinasse… Estranho mas foi ele que hesitou e acabou por criar entraves! Que era muito complicado tratar o vime (humedecê-lo, secá-lo, etc) e já não me lembro mais o quê. Não sei se hoje ainda será vivo mas era o único que o fazia ali nas redondezas!

  6. Acho que foi no seu blog que em tempos vi um crachá com uma borboleta cor de rosa lindo. Gostava de o rever mas nao encontro. Se puder mande-me o mail ou em que mes esta esse post. Obrigada desde ja

  7. O meu nome é Ricardo Sousa e sou jornalista numa Revista de Cultura e Arte. Coincidência das coincidências sou vianense, e como todos os minhotos, um “dedicado” à sua terra. Quanto a este infeliz post, apenas lanço uma pergunta para o ar: qual é a legitimidade que alguém, que vem dois a três dias ao Minho, para dizer que o artesanato contemporâneo minhoto tem “pouco gosto e menos qualidade”?

    Acho sinceramente que desconhece de forma profunda os produtos artesanais que estão a surgir por aqui. Se conhecesse devidamente, sabia que a Casa Águeda não é, nem nunca foi, uma referência no artesanato(tradicional/urbano), mas no entanto faz questão de lá ter as suas coisas que passam completamente despercebidas em Viana. A acrescentar a isso, ainda se acha na legitimidade de recomendar lojas de artesanato em Viana do Castelo.

    Por último, acho que é uma falta de consideração imensa, pôr tudo o que se faz no mesmo “pacote” e criticar, por desconhecimento, o que cá é elaborado. Acrescento que é uma falta de respeito para as suas colegas de profissão, que infelizmente não têm a sorte de ter um avô famoso.

    Para repor a verdade, deixo aqui algumas provas:

    http://www.ateliervianacabral.com/

    http://afectosemtrapos.blogspot.com

    http://sweetsandsugar.blogspot.com/

    http://porto-galo.blogspot.com/

    http://lengalenga.blogs.sapo.pt/

    Cara Rosa, acho que deve respeitar mais o que se tem vindo a fazer ao nivel de artesanato urbano. E acho que sinceramente devia deixar de pensar que todo o mundo gira à sua volta. Obrigado.

  8. Caro Ricardo Sousa,

    Se é verdade que é jornalista, não percebo o tom abespinhado do seu comentário, que roça o insultuoso. Não é normal respeitar opiniões divergentes? Quanto ao teor do meu texto, se o ler com mais atenção verá que não é dedicado ao chamado “artesanato urbano”, mas sobre este, no geral, também não tenho grandes elogios a fazer.

  9. este post, parece-me, pouco fala de artesanato urbano. fala de preferências, todos as temos, de gostos, cada um manifesta os seus. não me parece que queira eleger para o mundo a melhor ou pior loja de artesanato. e, de facto também lamento que as lojas mais “tradicionais” vendam mais produtos de fibras sintéticas do que seria de esperar e produtos com padrões “colados” e industrializados sem grande investimento processual. a meu ver claro.

  10. Vá se lá saber porque é que as pessoas por vezes acordam azedas…

    Eu adorei ver os bonecos da Rosa na Casa Águeda :) lindos! E a D. Gracinha, apresentou-os com todo o carinho quando viu que estavamos de olho neles. Até nos ofereceu um dos Postais de Natal que guardo com todo o carinho.

    Acho que são perigosos comentários tão pouco simpáticos vindos de um vianense! Nós não somos assim… somos mais humildes e coloridos como um bom fato de trabalho e simpáticos, sempre, como mordomas em dias de festa e muitos bombos!

  11. Gerou-se polémica, e isso depende da interpretação do post, era previsível. Penso que ninguém ofendeu ou faltou ao respeito ao trabalho artesanal. Aqui não foi dito que o artesanato vianense não tinha qualidade, apenas o que há de qualidade se pode confundir com o que já não tem, deixou de haver tanta exigência nos critérios de selecção por parte de quem pretende comercializar artesanato original português (tanto nas lojas de artesanato mais tradicional como nas lojas dedicadas só ao «novo artesanato») e isso acontece no país todo. Considerei este post construtivo, e achei oportuno deixar o meu comentário relativo ao artesanato (eu sim falei do artesanato urbano), que pode não ser o mais agradável, mas achei necessário aos tempos que correm.

    Há muitos temas portugueses que podem ser desenvolvidos num contexto actual, penso que o objectivo deste post era dar esta sugestão.

  12. I want more “souvenir” shops that smell like “campo e bafio”, that have bonecas de Montemuro, lenços chache-nez, “mantas de retalhos” made by Rita and the ones weaved in Mértola….. more shops with contemporary pottery like Poeira da Estrada or filigrana pieces from Tea&Oatcakes and Liliana Guereiro. I want shops like Cavalo de Pau, Santos & Oficios and Uma Vida Portuguesa to come to Sintra because that is where I live and in general the souvenir shops are confusing, industrial and do not represent fully our Art & Craft…

    Sou apenas uma leiga de Cultura e Arte.

  13. Olá Rosa, como está?

    Fui este Verão pela primeira vez a Viana e dormi numa pousada de juventude que é um antigo bacalhoeiro :) É impressionante como a nova Viana está tão bem integrada na antiga arquitectura.

    Trabalho agora muito mais sobre a tradição portuguesa e fiquei fascinada…acho que me mudo para o norte um dia para fazer um qualquer projecto de escultura que continue as minhas tentativas de olaria :)

  14. : ))))))))))))))))))) eu também adoro as cores, especialmente os lenços de viana!

    tenho comprado cá por baixo (para fazer os meus “portuguese PIN-up girls” : ) mas espero, em breve, comprá-los na origem. Agora no Outono. de há uns anos para cá, gosto também muito do Outono para viajar.

    bjs e bom regresso!

    A.

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