porta-bebés

medieval babywearing

Livre d’astrologie, França, séc. XIV (pormenor) e S. Cristóvão, séc. XIII (proveniência desconhecida).

Desde que, com o nascimento da A., me tornei fã incondicional de slings, tenho passado horas a olhar para imagens das muitas formas tradicionais de transportar bebés junto ao corpo. Vêm da África subsariana (), da América Latina (), de todos os cantos da Ásia (), mas há-as de proveniências muito mais variadas do que à partida se espera. De uma região para outra variam sobretudo os materiais, que vão da simples tira de pano às mochilas/alcofas de tecido, verga ou cabedal ( ).

E na Europa? Longe das cidades e dos filhos dos operários atrelados às pernas das mesas (pormenor deste livro de que não me hei-de esquecer facilmente), na Europa pré-industrial, quando a família ia trabalhar, o que fazia aos bebés?


berço ao ombroberço à cabeça

Pormenores de iluminuras dos séculos XIII-XIV (clicar sobre as imagens).

Não querendo fazer grandes generalizações, parece-me que em muitos casos os bebés iam também. Sobretudo em berços ou alcofas mais ou menos rígidas (carregadas às costas como as dos índios da América do Norte, aos ombros ou à cabeça) e adaptadas aos seus corpos enfaixados, mas também (talvez os mais velhos) nos lenços, faixas e xailes dos pais. O S. Cristóvão gótico com o menino Jesus na imagem de cima (cuja proveniência não consegui descobrir) é um exemplo magnífico pelo pormenor do desenho, mas não é único. Com paciência vão-se encontrando outros.

medieval babywearing

Gipsies on the March. Pormenor do desenho de uma tapeçaria quatrocentista in Manners, Custom and Dress During the Middle Ages and During the Renaissance Period.

De Portugal ainda não consegui encontrar imagens de babywearing tradicional, mas acho que é uma questão de tempo. Na Suécia estão documentados pelo menos dois tipos de porta-bebés populares e no País de Gales ainda há quem saiba trazer um bebé no xaile, naquela que acho provável ter sido a forma mais generalizada desta prática na Europa (afinal os lenços e xailes eram parte do traje habitual de praticamente todas as mulheres) e que é sugerida por imagens como esta, do século XVI.

071009_baby_in_a_shawl.jpg

Mrs Gwyn carrying a baby in a shawl in Book of costume drawings by George Delamotte (séc. XIX).

071009_suecia.jpg

Fotografia de Erik Elias Westin (1868-1935) ilustrando a forma tradicional sueca de transportar um bebé.

cranças à cabeça

Mulher com crianças à cabeça. Portugal, finais do século XIX (imagem gentilmente enviada pela Mary).

34 comments » Write a comment

  1. Também gosto de olhar para esse processo evolutivo, e reparar que o que nasceu da solução mais simples e eficaz (protótipo do sling), desenvolveu-se em mecanismos mais high-tech da mesma função (ex: cangurus e outros acessórios), e agora volta novamente ao básico, e, acima de tudo ao mais eficaz.

    Resumida, num objecto, a evolução da história da humanidade :)

  2. Muito bom. No fundo, ao ligar o “sling” ao xaile, percebe-se bem que é na realidade uma peça do vestuário feminino, materno. E que existe em todo o mundo, com diferentes aspectos, texturas, formas de usar mas, que está sempre lá.

  3. Lembro-me de ver a minha avó com uma prima mais nova ao colo, tão bem embrulhada num xaile que ficava completamente junto ao corpo de quem a transportava. Era bastante prático… mas até agora nunca tinha associado ao babywearing! :)

  4. Tenho na memória a imagem das crianças da minha terra serem transportadas em gigas (cestas para carregar as hortaliças dos campos) e aí ficarem enquanto as mães andavam na “jorna”. Eram jornaleiras. Dos lenços, nunca os vi aqui a carregar os bebés…foi pena.

    Com este texto cresci hoje mais um bocadinho. Parabéns!

  5. An amazing journey. The American Indian stereoscope is amazing. I am going to need days to digest all of this information.

    A thank you is very much in order!

    Mary

  6. Gostei muito do teu trabalho, realmente uma pesquisa “com cabeça, tronco e membros”. Parabéns Rosa é sempre um prazer passar por aqui.

  7. O que começou como curiosidade revelou-se um “vício”, não é? Eu tive alguma dificuldade na utilização do meu sling inicialmente mas agora não passo sem ele.

  8. Excelente pesquisa, Rosa!

    Temos muito a aprender com os povos de outras culturas e com os nossos antepassados :)

  9. Olá Rosa,

    O post está muito interessante…

    Aproveito, para te um link para uma foto que tirei na Tailândia , de uma mãe com um bébé num sling… o olhar terno, doce e muito tranquilo , deixam-me a mim muito feliz pelo momento que captei!

    bichodecontas77.blogspot.com/2007/08/de-volta-parte-i-rostos.html

  10. Que post fabuloso, tão completo! Interesso-me especialmente pelas vivências femininas dos sécs. XVI e XVII e adorei ver a imagem da BNF de uma mulher do séc. XVI carregando o seu bebé! :)

  11. Isto do sling é engraçado porque é transversal aos diferentes povos. Em miúda (40/45 anos atràs)lembro-me que na beira litoral as mulheres (como a minha mãe) seguravam os bébés com auxílio do xaile. Cruzavam as pontas à frente da barriga e dobravam-nas por debaixo do bébé ou metiam-nas no cós da saia, acondicionando cuidadosamente a “cria” que ficava à “janela” feliz e contente. As mãos ficavam livres para segurar a mão do outro que já caminhava ou para segurar algum carrego à cabeça. Eu própria andei assim com alguns dos meus irmãos, só que as pontas do xaile eram amarradas atrás para aumentar a segurança.

  12. En Cantabria las mujeres pasiegas (de los montes del Pas) usaban unas cestas muy grandes que llevaban a hombros (como una mochila) para todo tipo de usos, incluido transportar a los bebés (o mejor dicho, cargar con ellos mientras realizaban sus tareas).

    Más que un portabebés, esas cestas, llamadas “cuévanos”, eran verdaderas cunas.

    Aquí hay una foto de un cuévano usado como cuna portátil:

    http://www.ayto-selaya.com/index.php?a=vvesti2

Leave a Reply

Required fields are marked *.