lavores femininos

lavores femininos

lavores femininos

Memória de um ensino muitas vezes tirânico e sempre sexista, em que as raparigas (e só elas) aprendiam na escola a coser, cerzir, bordar e fazer meia. É o álbum de pontos de costura da artista plástica portuguesa Alice Jorge, que a própria conservou cuidadosamente ao longo de toda a vida, apesar de, enquanto opositora ao regime, ter provavelmente aplaudido a extinção dos Lavores Femininos. Trata-se de uma das contradições que o país não soube digerir: a luta pela igualdade de direitos entre os sexos arredou as mulheres das agulhas. Deixaram-nas em casa, com as panelas e o tanque de lavar a roupa, como atributo de uma forma de viver que já não lhes servia. A escola da Democracia fez o mesmo e os chamados Trabalhos Manuais vieram morrer ao tempo em que eu andava no liceu. Em vez de se actualizar e estender este ensino também aos rapazes (como acontece noutros países), apagou-se a prática dos têxteis dos currículos do ensino oficial, como se conhecimento pudesse ser sinónimo da ignorância disciplinada promovida pelo regime de que saíramos. Passados 38 anos, quantas e quantos se envergonham ainda de fazer malha em público, quantos acham que gostar de coser não fica bem a um intelectual, quão fundo ficou gravado o estigma? Read more →

o ciclo da lã ao vivo

o ciclo da lã

Há vários anos que os meus posts sobre cultura popular e história têxtil suscitam comentários a sugerir que organize workshops fora de Lisboa ou simplesmente a dizer quem me dera ir contigo. A estreia vai ser daqui a poucas semanas, no início de Maio, e no melhor sítio do país para perceber que ainda há quem fie e teça como sempre se fez e sem ser só em recriações folclóricas ou para turista ver: Duas Igrejas, junto a Miranda do Douro. A Ti Paula vai ser uma das várias mestras e eu vou sobretudo contextualizar e ajudar com base na minha experiência do assunto acumulada um pouco por todo o país, do Alentejo aos Açores. A iniciativa é da Associação Aldeia e o programa é excepcional não só pelo local mas também por ser tão completo. As inscrições já estão abertas. Read more →

lã dos açores

ovelha

lã do faial

A lã é assim, parte dela ou vai para o lixo, ou largá-la ao lume, ou assim, que isto aqui na ilha não tem consumo nenhum, está a ver? (…) Eu não vejo utilidade nenhuma nisto… Antigamente parece que fiavam isto para fazer meias, fazer sueras, para fazer isto, para fazer aquilo, e cheguei a dar a uma senhora (…), ela disse que ia fazer meias disto, não sei se chegou a fazer ou não chegou a fazer… ainda levou uma saca ou duas daquilo, para levar e desfiar e amanhar para poder fazer as coisas…

Este excerto da nossa conversa com o sr. Eduardo de Flamengos (Faial) é semelhante ao que se ouve à grande maioria dos pequenos produtores de ovelhas do país, seja no continente ou nos Açores. Tem-se ovelhas para comer um borrego de vez em quando, ou para adubar a terra, ou para fazer companhia, ou para receber os subsídios da Comunidade Europeia, mas não pela lã que produzem, que essa não só não tem aproveitamento como dá trabalho por ter de ser tosquiada pelo menos uma vez por ano. No entanto a lã das ovelhas do Faial e do Pico é macia e limpa, por os animais serem em geral criados em pastos cobertos de erva fresca, e longa, frisada e muito fina, as melhores características que pode ter para ser fiada facilmente e vestida junto à pele. Falta quem dê por isso e ponha novamente a trabalhar os fiandeiros (rodas de fiar) e fusos esquecidos de casa da avó.

O tempo que tivemos não chegou para perceber que raças autóctones existem (se existem ainda) nos Açores, até porque as que se vão vendo nos pastos são diferentes umas das outras (a da fotografia de cima parece uma romney marsh), e porque os criadores com quem falámos, por não as criarem para vender, desconheciam a raça das suas próprias ovelhas. Ainda assim, fiquei a saber que os rebanhos andavam até há poucas gerações soltos nos baldios das terras altas, e que em Setembro as comunidades se juntavam para fazer a apanha e tosquia dos animais, num dia que era também de festa e por isso certamente encerrado com balhos de chamarritas noite dentro. Read more →