lavores femininos

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Memória de um ensino muitas vezes tirânico e sempre sexista, em que as raparigas (e só elas) aprendiam na escola a coser, cerzir, bordar e fazer meia. É o álbum de pontos de costura da artista plástica portuguesa Alice Jorge, que a própria conservou cuidadosamente ao longo de toda a vida, apesar de, enquanto opositora ao regime, ter provavelmente aplaudido a extinção dos Lavores Femininos. Trata-se de uma das contradições que o país não soube digerir: a luta pela igualdade de direitos entre os sexos arredou as mulheres das agulhas. Deixaram-nas em casa, com as panelas e o tanque de lavar a roupa, como atributo de uma forma de viver que já não lhes servia. A escola da Democracia fez o mesmo e os chamados Trabalhos Manuais vieram morrer ao tempo em que eu andava no liceu. Em vez de se actualizar e estender este ensino também aos rapazes (como acontece noutros países), apagou-se a prática dos têxteis dos currículos do ensino oficial, como se conhecimento pudesse ser sinónimo da ignorância disciplinada promovida pelo regime de que saíramos. Passados 38 anos, quantas e quantos se envergonham ainda de fazer malha em público, quantos acham que gostar de coser não fica bem a um intelectual, quão fundo ficou gravado o estigma?

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25 comments » Write a comment

  1. muito graças a ti e ao teu trabalho dos últimos anos (e como formadora desde que existe a loja física da retrosaria) há já umas largas centenas de pessoas que se orgulham hoje em dia de, onde quer que estejam, saber fazer. e bem!
    eu nasci no ano da revolução e não me envergonho nem de fazer crochet nem tricot em público.
    se bem que isso suscite sempre olhares que oscilam entre o curioso e o reprovador, por muito provavelmente as pessoas ainda terem profundamente inculcada a tal carga sexista que os lavores femininos tinham no tempo da ditadura e da qual se quiseram demarcar.
    mas há sempre alguém que ganha coragem e pergunta o que é que eu estou a fazer. e aposto que algumas pessoas vão para casa procurar as agulhas e pôr mãos à obra.

  2. Que texto maravilhoso, Rosa. O mesmo se deu aqui no Brasil. Minha mãe, por exemplo, chegou a ter aulas de trabalhos manuais na escola, mas eu, não. Minha filha de 9 anos nos pergunta por que foi abolido, pois ela gostaria muito de bordar na escola. E vamos que vamos resgatando o amor pelas manualidades!

  3. Nossa, Rosa! Você traduziu completamente o que sinto. Sempre me senti “reprimida” ao demosntrar as minhas habilidades. Hoje não, claro. O mundo mundo ou esta mudando. O “craft” caiu na rede e acabou liberando as mulheres para isto, por incrível que possa parecer. Mas que bom que estamos recuperando uma coisa tão prazerosa.

    Beijos

  4. Há quem insista em não querer perceber que o “lugar” onde a mulher (e o homem) realmente deve estar… é aquele onde quer e escolheu estar. em casa, com ou sem filhos, a trabalhar fora de casa, a trabalhar em casa, a fazer tudo ao mesmo tempo o melhor que pode e sabe,…

    e quanto aos hobbies vale a mesma lógica.

    viva a liberdade de escolha. viva fazer lisboa-porto no alfa alternando entre os bordados e o trabalho no portátil. e quem quiser olhar, pode ser que aprenda alguma coisa :)

  5. O problema é que as pessoas criam estereótipos, ainda me lembro nos anos 90 quando me perguntavam assombradas “Mas tu bordas?!!” só porque tinha piercings, vestia de preto e ouvia “metal”, não concebiam o conceito de eu bordar, coisa que aprendi de menina, nunca deixei e nunca me envergonhei. Agora que sou mãe e tive que mudar de vestuário por situação profissional acham normal bordar, fazer crochet, malha, arraiolos, mas perguntam “Mas tu ouves essa música?! Lês esse livro?!” etc… preconceito e estereótipos… e, atenção que sou feminista desde que me lembro!, mas esta questão do feminismo foi mal conduzida, conseguimos sair de casa, mas não conseguimos mete-los em casa! é bem visto uma mulher que arranje o carro, mas não é igualmente bem visto um homem que borde, já sabemos o comentário sexista que vem de seguida se um homem fizer essa afirmação… Tomou-se o padrão de querer ser como eles, quando não somos, perdoe-me a Simone de Beauvoir, mas nascemos mulheres…

  6. Existe preconceito quanto a que gosta destes assuntos. Por me verem vestida com roupa executiva, já estranharam que eu estivesse a comprar tecidos para eu própria costurar. “É a senhora que vai fazer?!”
    Eu tenho um menino e tenciono ensiná-lo a costurar, a cozinhar e a fazer tudo o que eu achar importante

  7. Sempre fiz tricot ou croché, nunca tive vergonha de dar isso a conhecer, talvez porque as minhas avós faziam-no em qualquer lugar também, porque viviam num bairro e sentavam-se num banco à entrada de casa a fazer com as outras vizinhas. Há muitos anos ouvia com frequência «é coisa de velhas» hoje respeitam e valorizam bastante, mas porque o trabalho também é reconhecido por outros e eu não estou só.
    Infelizmente ainda há quem desvalorize a pessoa, principalmente uma mulher, quando faz croché ou tricot, consideram isso uma atividade menor e que não deve ter uma vida lá muito interessante. Mas em relação aos homens também existe algum preconceito por algumas atividades, por essa razão há menos alfaiates, sapateiros, carpinteiros… talvez se deva à falta dos trabalhos manuais no ensino, pequenas experiências que apenas nos abrem os horizontes.

  8. Fundissimo!
    Embora as aulas de trabalhos manuais fossem das minhas preferidas e tivesse tias bordadeiras e costureiras nunca me atrevi sequer a imaginar que gostaria de ter formação na área!!! A hipótese nem sequer me ocorreu! Trabalhos manuais era hobby, ponto. Formação eram as aulas de português, inglês, matemática, etc!
    E concordo com a Isabel Silva: conseguimos sair de casa mas não conseguimos metê-los em casa! Ainda não chegamos à igualdade ou pior, estamos cada vez mais desiguais, porque além de todas as responsabilidades e trabalhos e stresses que já tinhamos, acrescentamos as deles e não conseguimos delegar nada das que eram nossas! :P

  9. eu estou com a tua mãe” e viva a geração 100 idées”;
    Mas não queiras saber as ameaças que tive, pós 25 de abril, na faculdade por tricotar no bar da faculdade.

  10. Texto muito profundo… bem como os comentários.

    Trabalho com desenvolvimento de sistemas, e poucos são os que não se admiram por ser também artesã, estudante de teatro, e contadora de histórias.

    Sempre me pergunto: porque precisamos estar de acordo com as caixinhas que as pessoas imaginam que são os ‘padrões’!

    Aaaaafffeeee

  11. Olá Rosa

    Gosto muito do seu blog e de vez em quando passo por aqui. Senti uma espécie de alivio quando li as mensagem e o seu post. Eu, quando quis aprender alguma coisa sobre bordados tive que procurar em várias livrarias de Braga e apenas numa consegui arranjar um livro com uma edição já muito antiga.
    Felicidades

  12. Rosa,
    Só a coragem abre caminhos. Ainda não há muito tempo era de bom tom dizer-se que se cozinhava o mínimo imprescindível. E agora é todos os ‘chefs’ que nascem como cogumelos.
    Eu acredito que ainda há-de ser assim com as artes manuais.
    Um abraço,
    Teresa

  13. Fico sempre espantada com o espanto das outras pessoas quando me vêm com uma maquina de costura.
    Realmente existe, na nossa geração, a ideia de que “gostar de coser não fica bem a um intelectual”.
    Temos que modar essa forma de pensar.

  14. As ideias pré concebidas em relação aos lavores e afins vai deixando de ser um estigma. É quase com a mesma união que as mulheres tiveram para ser livres de escolha e opinião que nos devemos juntar e passar a homens e a mulheres que este tipo de trabalho faz bem e é uma forma de estar bem. Um dos meus melhores amigos é inglês adora crochet é muito bem casado (resolvido digo) logo tem de se acabar com o estigma e deixar de pensar que lá fora é que é bom (é realmente), mas que cá também pode vir a ser assim e ainda melhor.

  15. Olá Rosa
    É uma pena que tenhamos perdido a oportunidade de dar continuidade ao saberes dos nossos antepassados!
    Eu ainda novinha aprendi com a minha avó costura, tricot e bordados, ainda hoje são os meus hobbies preferidos e raramente não tenho um projecto em mãos. Tenho uma filha de 5 anos que já tem o bichinho e já faz tricot!
    Nunca tive vergonha destes meus gostos e posso dizer que durante o liceu ( com 16/17 anos ) em plena Lisboa, fazia camisolas de tricot para as minhas colegas e ganhava uns cobres. Sempre tive muita pena de não o poder fazer nos transportes publicos pelo facto de enjoar.
    Hoje, graças a si, muita gente redescobre os seus talentos e surpreendem-se com o que conseguem fazer!
    Um beijinho e continue a mostrar-nos quem somos afinal!

  16. Apesar de uma licenciatura que me abriu portas no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, me deu asas para voar e pensamento para viajar, aprendi sozinha os lavores femininos e não é raro ouvir o comentário de que sou ” muito prendada”, frase que tresanda a preconceito.
    Sou com muito orgulho e só lamento que os meus conhecimentos sejam rudimentares.
    Beijo
    Nina

  17. Perdó però no sé escriure portugués, sí l’entenc. Jo escriuré en català i espere que també em comprendreu.
    Completament d’acord amb el teu text. L’enhorabona per dir el que moltes dones pensem. Un error restar i no sumar, no haver incorporat els xics en lloc d’abandonar els treballs manuals les xiques.
    Moltes gràcies pel teu blog

  18. Não poderia estar mais de acordo…
    Com uma formação em criança em lavores (e a gostar), sempre me interessei pelas linhas, lãs e tecidos. Com os estudos e formação profissional, isso foi ficando tão só e apenas para uns apontamentos de lazer.
    Agora, com dois filhos, tempo não é algo que abunde. No entanto, foi com o nascimento da minha filha que me vi outra vez impelida, e como, a começar a costurar qualquer coisa para ela… e com isso veio tudo o resto.
    Agora vejo-me regressar aos tempos das aulas de texteis no secundário e quem me dera ter aprendido ainda mais nessa altura…
    Um bem haja pelo blog

  19. Lembranças longinquas… esse caderninho de pontos, me levou aos tempos
    de colégio, onde havia aulas de bordado e costura: aprendemos a costurar
    roupas de bebê a mão, toalhas e todas as meninas tinham seu “Pano de Amostra” com os pontos e lições aprendidas.
    Havia nota para o capricho !!
    Mil beijos, agradeço o presente que nos deu com essa postagem!

  20. Concordo plenamente! Sou professora da variante de EVT acho um crime reduzirem cada vez mais a carga horária das artes no ensino. Os nossos “especialistas em educação” desconhecem completamente o ensino através da arte!

  21. Olá, caí aqui hoje por acaso, não conhecia o teu blog, mas de certeza que vou voltar.
    Escrevi há pouco tempo sobre o meu crochet portátil, aquele que vou fazendo nas esperas das aulas de natação e ginástica da filhota, e da sensação de muitas vezes achar que tenho uma verruga muito feia no nariz.
    Tb já aconteceu, estar agradavelmente instalada na bancada da piscina e vir de lá uma das monitoras direita a mim e dizer-me que “hoje tive que vir espreitar!!”
    Um beijo
    Maria

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