fazer a liga para o cuco

No Ribatejo, no mesmo fim-de-semana em que encontrámos um grande campo de tulipas e um mini tocador de cana rachada, conhecemos a D. Lurdes Santiago, fazedora de meias nascida em Almofala, mesmo junto a Espanha. Entre outras coisas contou-nos como por lá se aprendia a fazer malha nos seus tempos de menina:

Pegavam em duas agulhas e num novelo de linha e davam às crianças para fazer, quando eram pequenitas. E então diziam assim: “vais fazer a liga para o cuco, que senão o cuco tira-te os olhos!”. (…) Compravam logo uma cestinha pequenina (…), metiam as duas agulhas, novelo e as avós ensinavam. Faziam, chamavam elas, a liga: era só a malha de liga por dentro e por fora, às vezes com quatro, cinco malhas, às vezes as malhas eram desta altura, mas faziam. E assim aprendíamos.

Um dos momentos da conversa de que gostei mais foi a descrição do jogo que as raparigas faziam para ver quem fazia malha mais depressa. Vale a pena ouvir.

Two weeks ago we’ve met Mrs. Lurdes Santiago, born in Almofala, a village very close to the spanish border. She told us how in her time little girls were given a small basket to carry on their arm, a ball of cotton yarn and a pair of hooked needles. Their grandmothers would say, half joking: “You’re going to knit a garter for the cuckoo, or the cuckoo will come and take away your eyes”. So they started by knitting a simple garter, purling all stitches (the purl stitch is the first and easiest stitch using the portuguese method).

a pleasing array of facts

campo grande

meia

ribatejo

By putting these questions to friend and foe, rich and poor, high and low, the city-bred and the country-bred, and by writing innumerable letters to dwellers in the mountains and lowlands I have collected a pleasing array of facts, names and patterns; but what are these by the side of the facts, names, and patterns that might still be collected?

Em 1912, Eliza Calvert Hall colocava a si própria esta questão na introdução ao seu A Book of Handwoven Coverlets (quem conhecer as mantas de puxados açorianas encontrará aqui muitos padrões familiares), fruto de um pioneiro trabalho pessoal de recolha em vários estados dos EUA. Hoje, a bordo da camioneta que me levou ao Ribatejo para um dia de revelações, revi-me novamente nestas palavras. Porque o livro não é um fim mas sim um início, um pé na porta que diz isto é assunto, isto merece ser olhado, estudado e exposto.

a boina do corvo

boina do corvo

É uma das minhas páginas preferidas do livro. Uma fotografia dos inícios do século XX, desencantada nos arquivos do New Bedford Whaling Museum, de um Corvino. Na cabeça leva a boina do Corvo, uma das pérolas das malhas açorianas cujas origens se perdem no tempo e resistem quase que por milagre até aos nossos dias. Em 1924 Leite de Vasconcelos deu por elas e trouxe para o Continente uma que espero poder um dia ver ao vivo (o retrato que lhe tiraram ao lado dos homens do Corvo e suas boinas está umas páginas mais à frente). No último capítulo está a receita.
Gonçalo Tocha, o realizador de É na Terra não é na Lua, pôs a boina nas capas dos jornais. Adoptou a versão com pala (que ainda não experimentei fazer) e até publicou sobre ela o vídeo que partilho aqui em baixo.
Mais recentemente, a marca portuense de roupa La Paz (que merece um post só para ela) fez da boina peça chave da sua colecção de Inverno. E criou uma nova, por ela inspirada, para o próximo ano.
Finalmente, quem quiser comprar uma boina do Corvo mesmo feita no Corvo (mas em poliéster) pode ir directamente à fonte.

This is one of my favorite pages in the book. A portrait of a young man from Corvo Island dating from the beginning of the 20th century, found in the archives of the New Bedford Whaling Museum. He is wearing the traditional knitted beret from Corvo, which local men have worn since at least the 19th century (the Ravelry page for the pattern is here). The making of one of these berets is the main narrative element in the documentary É na Terra não é na Lua by Gonçalo Tocha. And last year the portuguese fashion label La Paz made it part of their beautiful winter collection. Read more →

quase

rever rever rever

E agora está mesmo quase. As últimas revisões foram feitas e a capa foi fechada. Os sites das grandes livrarias começaram a anunciar o livro e na Retrosaria também já se aceitam encomendas (e que bom foi vê-las chegar, como um voto amável de confiança de quem acredita que vai gostar de o ler). Amanhã parto para o norte e, se o céu não nos cair entretanto em cima da cabeça, depois de uma ida à RTPI na manhã de terça-feira assisto à impressão das páginas na tarde do mesmo dia. Se for mesmo assim regresso a Lisboa feliz.