minha lã, meu amor

fiar

fiar

É a mais suave das lãs portuguesas. Vem das ovelhas Merino do Alentejo e fiá-la à mão é um desafio para quem aprendeu e treinou sobretudo com lãs cruzadas, de raças mais a norte. O fio nasce devagarinho, poucos centímetros de cada vez, e depois tem de ser torcido para ser trabalhado. Mas o toque é maravilhoso. Vem por aí uma camisola.

fiar

ovibeja 2013

Merino preto na ovibeja

Campaniça na ovibeja
Carneiro merino preto e ovelhas campaniças, duas raças autóctones alentejanas.

O fim-de-semana foi passado entre a Ovibeja e o Encontro de Violas de Arame em Castro Verde. No Sábado estive todo o dia na feira, com a Ancorme como anfitriã, a mostrar com a ajuda da E. como se vai dos velos de lã às agulhas de fazer malha. Pelo olhar de quem parava para ver ou conversar era fácil perceber quem conhecia aqueles gestos desde pequeno. Conheci antigos cardadores, uma fiandeira algarvia, a filha de uma tecedeira e várias alentejanas que se lembravam dos longos serões a cramear a lã para encher colchões. As cardas passaram pela mão de um monte de crianças curiosas e persistentes, que foram fazendo pastas de todos os tons de castanho que conseguiram tirar da mistura de lã preta e lã branca do suave merino alentejano. A E. ajudou-me a cardar e explicou com o à-vontade de quem sabe todos os passos da preparação da lã aos visitantes mais pequenos. Enquanto isso, a A. percorria incansavelmente o pavilhão para fazer festinhas e fotografar cada uma das ovelhas. Com tantos visitantes, foi-me impossível parar para tirar fotografias ou passear, mas espero que a experiência tenha sido positiva também para quem passou por nós ou parou para ver os vídeos da lã em tempo real.

sol baixo

Retidos um dia a mais nas ilhas pela greve na Sata, passámo-lo sob a chuva de São Miguel, entre muitas violas da terra e mais um museu cuja colecção etnográfica está escondida até data incerta (mas vi finalmente ao vivo Os Emigrantes e os seus lindos taleigos). Aterrámos pela meia noite, o grande velo de que vou falar depois chegou são e salvo e às dez da manhã deste dia da Liberdade já estava na Retrosaria e ensinar mates e aumentos. De tarde lavei um monte de lã merino alentejana com um novo método: escaldei-a como deve ser no tacho gigante que uso para a tinturaria e depois enxaguei no programa das lãs da máquina (sucesso!). Ainda fiei e torci uma pequena meada para ver se os meus fusos da Beira Alta se entendiam com a macieza encarrapetada do merino e para me preparar para ir até à Ovibeja no Sábado mostrar um pouco do caminho que vai das ovelhas aos novelos.

gola minderica

gola minderica

gola minderica

A gola minderica, não sendo directamente inspirada numa peça de malha, foi escolhida para o livro por ter nascido do meu fascínio pelas mantas artesanais portuguesas. Neste caso baseei-me nos padrões das mantas de Minde que, apesar de fazerem parte do repertório mental de quase todos os portugueses, poucos associam ao seu local de fabrico. Fazem-nos pensar no Ribatejo ou chamamos-lhes alentejanas, sem saber que vêm de uma terra pequenina, mais a norte, com uma longa história de teares caseiros e comerciantes orgulhosos que as espalharam por todo o sul de Portugal. Os mindericos distiguem bem as suas mantas janotas (as mais coloridas) das do alentejo. As cores não são as mesmas, nem é igual a dispersão dos motivos pela superfície do tecido. Mas um leigo pode facilmente confundir-se. O que é inequívoco é que os padrões de Minde constituem um manancial gráfico que apetece tricotar, respeitando as paletas ou inventando outras. A sua estrutura composta por motivos pequenos, muitos dos quais se repetem sempre ao mesmo ritmo (3, 2, 1, 2), torna o trabalho a duas cores bastante fácil de memorizar e rápido de fazer.

Para encontrar uma manta de Minde verdadeira, das que são feitas em tear manual com fios de lã, é preciso ir ao CAORG e fazer figas para que haja stock, porque elas desaparecem mal saem das mãos do tecelão Elias.

Estas duas golas foram feitas em Beiroa. Uma é a do livro, com a sua bainha de bicos, e a outra foi feita numa paleta mais quente, com o castanho natural por fundo, e com as orlas em canelado (três serões chegaram para a terminar).

This cowl from the book was inspired by the handwoven blankets from Minde. Minde is a small town with a strong tradition in weaving and trading. The blankets were woven at home and then sold by the men, who travelled in the Summer to sell them in the big farmers markets of the south. They feature small and repetitive motifs, which translate perfectly into knitting. And their bold palettes are an endless source of inspiration.

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caneleiras poveiras

caneleiras poveiras

a sara no pico

As caneleiras poveiras do livro foram inspiradas num par de meias que, em 1967, Sebastião Pessanha trouxe da Póvoa de Varzim. Tinha 75 anos e felizmente continuava a reparar em coisas a que não muitos outros deram importância. Descendentes delas, as versões para turista das meias dos pescadores do Norte ainda se encontram por aí. E também há quem saiba fazê-las bonitas. À falta de imagens antigas que mostrem as meias a uso com os motivos à vista, suponho que as estrelas, espinhas e pássaros às cores ficassem escondidos por baixo das calças, alegrando não os olhos mas o coração.

As minhas caneleiras, que têm os motivos bem à vista para que não fiquem esquecidos nas reservas do museu, foram feitas com estas lãs e foram usadas pela Sara, na Ilha do Pico, ao som da Chamarrita.

These legwarmers from my book were inspired by a pair of fisherman socks from the collection of Sebastião Pessanha (b. 1892), a portuguese ethnographer who (unlike many others) paid attention to knitted artifacts and knitting tools throughout his life. Coarse touristic versions of this type of socks are still handmade and sold today, some of them bearing interesting stranded patterns.

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