volta à terra

Uz
tosquia na Uz
pastor na Uz

Decidi vê-lo por causa da imagem da tosquia, como na véspera tinha ido ver outro por causa dos teares. Gosto de ir para os filmes antes de ler sobre eles. Este apanhou-me de surpresa, apaixonou-me. Nem me lembrava onde era a Uz, mas poucos minutos chegaram para perceber que só podia ser ali onde Trás-os-Montes começam a ser Minho, entre Salto e Bucos, na terra onde as barrosãs ainda são donas dos caminhos. Não é um filme saudosista nem paternalista nem caricatural nem todas as outras coisas que acontecem quase sempre que se tenta falar de outras maneiras de viver. É uma história de amor, um fio de terra.
Volta à Terra, de João Pedro Plácido, no DocLisboa. Volta a passar no sábado, dia 25.

mondegueira

churra mondegueira
churra mondegueira
mondegueira

Muita da nossa lã vale menos do que a mão de obra necessária para a tosquiar (a lã da maioria das nossas raças churras vale em geral menos de €0.25/kg). A sua progressiva desvalorização ao longo dos últimos cinquenta anos criou uma espécie de ciclo vicioso difícil de quebrar: quanto menos vale a lã menos o pastor se preocupa com ela -> não vale a pena escolher e cruzar os exemplares com lã de melhor qualidade -> a lã do rebanho piora de geração em geração -> a falta de qualidade da lã fá-la valer cada vez menos -> …
A história das raças também me parece muitas vezes mal contada, com os estudos a dizer umas coisas e os pastores outras e o cruzamento entre a investigação das ciências duras e os dados etnográficos eternamente por fazer.
Em Figueira de Castelo Rodrigo voltei a cruzar-me com a raça Churra Mondegueira, que conhecia de perto do Museu dos Lanifícios da Covilhã. Apesar de não ter chegado a escrever sobre esses dias, no ano passado fiz uma valiosa residência no museu onde, entre muitas outras coisas, trabalhei com a lã das duas ovelhas mondegueiras que lá moram. A sua característica mais interessante é ser, de todas as que conheço de perto, a única raça double coated (lamentavelmente não sei como se diz em português), ou seja com um velo composto por dois tipos diferentes de fibras: uma camada exterior extremamente grosseira e uma outra, junto à pele, muito fina e macia, a lembrar as fibras de alpaca. Hoje em dia a lã da maioria das ovelhas mondegueiras faz pensar em tapetes resistentes (oxalá houvera quem os fizesse) e pouco mais. Mas como seria há três gerações atrás? E como poderia voltar a ser?