os meninos gordos

prato dos meninos gordos

Há muitos anos que tenho uma grande admiração pelo Jamie Oliver. Mais concretamente pelos seus esforços pela melhoria da qualidade da comida servida nas escolas britânicas e pela sua luta contra o açúcar. Julgo que muitas das ideias que defende conseguirão vencer o poder dos lobbies da indústria agro-alimentar e serão senso-comum daqui a alguns anos (poucos, espero): a rotulação explícita e obrigatória dos alimentos açucarados como prejudiciais à saúde, o controlo da publicidade a estes (não-)alimentos, etc. Numa altura em que os índices de obesidade infantil em Portugal são dos mais elevados da Europa, este post trouxe-me à memória os célebres Meninos Gordos, um menino e uma menina nascidos em Itália nos finais do século XIX que foram exibidos como fenómeno por toda a Europa e inspiraram a decoração de pratos e outras peças de cerâmica de várias fábricas do Norte de Portugal (vale a pena conhecer a sua história através do livro de Isabel Maria Fernandes). Hoje talvez passassem despercebidos.

Imagem retirada do site do Palácio do Correio Velho: Raro prato em faiança portuguesa, produção da Fábrida de Bandeira, Gaia, séc. XIX, cerca de 1842-43. Decoração em tons de azul, em parte estampilhada, tendo ao centro vista de jardim com figuras dos dois “meninos gordos”, Mateu e Anna, aba com decoração de aspas. Cabelo com gatos, ligeiro gasto no vidrado do bordo.
Diam.: 34 cm.

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  1. Obesidade infantil em Portugal? A minha alma está parva! Em Portugal a comida era saudável, pelo menos no meu tempo, mas a verdade é que a minha família é classe operária e nos anos 50, aquilo que me ‘safou’ a mim e aos meus irmãos e primos, foi vivermos perto do quartel de Sapadores na Graça, onde qualquer pessoa que se apresentasse com um tacho tinha direito às sobras do rancho… O Jamie Oliver até ficava maluco com aquela sopinha de couves, grão e massa! (com uma lagarta ou outra..) Chamava-se a ‘sopa da sopa’ ou a ‘sopa do Sidónio’.

  2. Continua-se sem perceber que o paradigma alimentar mudou e que hoje as pessoas sofrem de obesidade por comerem alimentos altamente calóricos mas que do ponto de vista nutritivo deixam muito a desejar.
    O comentário anterior ilustra bem essa situação. A alma da senhora fica parva porque a infância que ela conheceu de necessidade parece agora de tanta abundância que deixa as crianças obesas.
    O problema é que essa obesidade vem de comer produtos processados que quase só têm açúcar e este tem muitos nomes (glicose, glucose, dextrina, maltodextrina, xarope (de tanta coisa que já se perde a conta), fora todos os aditivos, corantes e conservantes). Este tipo de comida além de omnipresente é mais barata do que legumes, fruta, carne peixe, tem publicidade muito apelativa para as crianças e muitas vezes dá até direito a brinde ou brinquedo.
    As crianças alimentam-se muito mas muito mal e os problemas de saúde associados são sérios (veja-se o caso da epidemia de diabetes tipo II) e se calhar vão ter uma esperança e qualidade de vida menor do que a geração que passou necessidades ou mesmo fome nos anos 50.
    Há uns anos houve uma tentativa (na União Europeia) de rotular os alimentos com um código simples (igual aos semáforos luminosos, verde, amarelo e vermelho, sendo que um brócolo seria verde e um gelado vermelho), mas nada avançou porque o lóbi da indústria agro-alimentar não deixou.
    Tal como a Rosa admiro o Jamie Oliver por ter a coragem de mexer nesse vespeiro e depois de ver na praia crianças de 4 anos com barriga pendente e celulite acho que os meninos gordos seriam apenas mais duas crianças como tantas outras. Isto é que devia deixar as almas de todos nós parvas.

    • Concordo, mas passar fome não é uma opção muito saudável. Aliás, raramente se passa fome por escolha. A má dieta que leva os meninos portugueses a serem obesos, não estará ligada ao mesmo motivo porque se passava fome nos anos 50? Ou seja, a pobreza? Os pobres não têm muita escolha, por isso vão para o mais barato, que curiosamente engorda mais. Também há o problema da falta de treino na cozinha: as nossas mães e avós eram capazes de transformar umas cabeças de peixe-espada num risotto que o Jamie apresentaria num dos restaurantes de que é dono, já para não falar das sopas, peixinhos da horta etc, tudo feito com ingredientes relativamente baratos ou cultivados em pequenos quintais. Hoje em dia talvez se tenham perdido essas habilidades, tal como o saber fazer malha e coser roupa… Não sei bem como é a situação em Portugal porque já não vivo aí há muitos anos. Em Londres, as pessoas que têm feito a diferença tanto ou mais que o Jamie Oliver, são os professores que chegam à escola às 7 da manhã para ajudarem no ‘breakfast club’, e os que organizam clubes para os pais e os filhos aprenderem a fazer comer juntos. Muitas crianças chegam à escola na segunda feira completamente esfomeadas. Dá para pensar que numa cidade em que há tanto dinheiro, haja tanta gente a passar fome ou a subsistir com a ajuda dos bancos de comida. Têm também surgido várias campanhas para que os supermercados deixem de deitar for a montes de comida boa e entreguem-na aos bancos alimentares. De momento está a decorrer uma, que parece ter bastante sucesso. Voltando à obesidade: parece-me que a educação aqui é vital. As pessoas têm que re-aprender a comer e isso passa por desligarem a televisão e sentarem-se à mesa juntos, que era uma coisa que as pessoas faziam mesmo quando só havia um bocado de pão e uma sopa, doada pelo Quartel de Sapadores na Graça…

  3. Também espero que daqui a alguns anos (poucos) se encare o açucar com o justo espaço que ele tinha na época pré-industrial, ou seja, de maravilha dos dias de festa. Sobre açucar e alimentação em geral um autor bastante interessante e cheio de humor é Michael Polan. Ver por ex.: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/esta-a-comer-comida-verdadeira-1663742.
    Quanto à rotulagem, talvez fosse útil a explicitação da taxa de açucar presente mas não concordo que os rótulos devam explícita e obrigatoriamente indicar os produtos açucarados como alimentos perigosos. Tal como nos maços de tabaco, entra-se, na mentira e no excesso de zelo (para não dizer fanatismo) que – só serve para atender a defesa de que quem os produz e vende – se torna infantilizante, moralizador, intrusivo e desrespeitador da escolha individual e ‘explícitamente chocante’.

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