#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

@aly_john_denim #notsponsored

Aproveitei uma viagem de trabalho ao Minho para riscar um item da minha longa lista de sítios-fora-de-lisboa-onde-tenho-mesmo-de-ir: conhecer a marca e as pessoas por detrás da marca Aly John porque há anos que procuro uns bons (ênfase no bons) jeans feitos em Portugal. É verdade que com muita vontade podia fazer eu própria um arremedo de calças de ganga (até tenho o denim certo), mas há pormenores impossíveis de conseguir com máquinas domésticas e que prefiro deixar com os especialistas. Também é verdade que há outras marcas portuguesas de calças de ganga mas lamentavelmente produzem-nas com mão de obra barata do outro lado do mundo.

Apesar de só ter conseguido avisar de véspera e de ter ido já a más horas fui (super bem) recebida pelo João e pela Gabriela, que me apresentaram desde os protótipos de vários modelos às máquinas de costura onde nasce cada par.

A história da jovem Aly John tem para mim um elemento (entre outros) que me faz torcer para que tenha sucesso: o João é já da segunda geração de uma família de fazedores de calças de ganga e voltou a casa para usar o conhecimento e experiência da família – que pena não ter tirado um retrato à elegante matriarca – para desenvolver a sua própria marca. Contraria assim duas tendências por cá muito comuns: a de termos produção de altíssima qualidade mas apenas ao serviço de marcas estrangeiras e a de os filhos e netos não terem em geral interesse em dedicar-se ao negócio/ofício da família.

Curiosamente, ao partilhar uma primeira fotografia nas redes sociais, choveu um coro de protestos contra o preço das calças de que não estava minimamente à espera. Que são só para quem pode, que não são sustentáveis nem um negócio justo, etc. Apeteceu-me por isso vir aqui escrever uma ou duas coisas: antes de mais, acho que quem faz tem o direito de pedir pelo que faz o que lhe der na real gana e ninguém tem nada a ver com isso – se o negócio é viável é outro assunto. Ganhei esse calo nas poucas feiras que fiz, há mais de dez anos, quando pedia (e sempre continuei a pedir) pelos meus bonecos um valor que me valeu todo o género de olhares e comentários escandalizados.

Actualmente no mundo ocidental a roupa (tal como a comida) é demasiado barata, não reflectindo no preço de venda o seu verdadeiro custo (calças de ganga a vinte euros são só para quem pode fechar os olhos às condições em que são feitas). Isto faz com que cada vez se compre mais peças de roupa e que elas sejam encaradas como um bem praticamente descartável:

(…) os preços de vestuário não estão a acompanhar o ritmo de outros bens, o que significa que, em termos relativos, as roupas estão a ficar mais baratas. O número de peças de vestuário que o consumidor médio compra anualmente aumentou 60% entre 2000 e 2014, nota a McKinsey, e a vida útil dos itens de vestuário foi reduzida para metade, comparativamente com o que acontecia há 15 anos.

À procura de fechar o ciclo, Portugal Têxtil, 5 de Setembro de 2016.

Dizem as estatísticas que em 2014 os portugueses gastaram mais de sete mil milhões de euros em vestuário e calçado, o que quer dizer que nesse ano, em média, cada pessoa gastou €700 em roupa e sapatos. Era interessante saber quantas peças de roupa compraram com esse dinheiro e quais as motivações para a compra de cada uma (este gráfico é elucidativo).

Acredito que comprar menos quantidade e melhor qualidade com menor pegada ecológica é o único caminho sustentável, que é bom usar as mesmas calças durante vários anos e remendá-las para durarem mais alguns. Não me faz confusão que se peça €300 por um par de calças excepcionalmente bem feitas, localmente e por pessoas decentemente remuneradas que o fazem num bom ambiente de trabalho, da mesma forma que não me faz confusão ter estado desde meados do ano passado até Outubro deste sem ter comprado uma única peça de roupa para mim além de soutiens de amamentação.

Voltando à Aly John, falta dizer o essencial: nunca tinha experimentado calças tão confortáveis e bem construídas – recomendo vivamente. Se as quiserem ver espero que o possam fazer em breve na Retrosaria.

Further reading:
If Your Jeans Are Cheaper Than This, You’ve Got A Problem
Fast fashion is creating an environmental crisis
Waste not want not: Sweden to give tax breaks for repairs