retalhos

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Continua a ser tão raro editarem-se por cá estudos sobre têxteis populares portugueses que quando sai um livro como este é ocasião para deitar foguetes (e mover mundos e fundos para o ter à venda na Retrosaria). Trata-se do catálogo da exposição Retalhos | uma abordagem ao Patchwork Açoriano realizada no Museu de Angra no início deste ano. A publicação, com mais de 300 páginas, inclui imagens de mais peças do que aquelas que foram expostas, bem como alguns textos introdutórios (interessantes mas pouco aprofundados). As legendas das fotografias são cuidadas e complementam a leitura das imagens, sendo estranha a opção gráfica de paginar as peças nas páginas par.

retalhos

Optei por fotografar algumas páginas do catálogo (à direita) junto às de dois outros livros sobre o tema (à esquerda). A de cima é de um quilt afroamericano e as outras são de mantas suecas. Como é costume quando se fala de patchwork açoriano, estes textos focam-se nas ligações entre os Açores e os EUA, associando os motivos e técnicas usadas no arquipélago à circulação de gente entre os dois pontos e, naturalmente, à abundância de matéria-prima providenciada pelos célebres barris da América (remessas de roupa usada que os emigrantes enviavam aos seus familiares). Faltam os paralelos com o que se fez e faz no Continente e no continente em geral, que as mantas açorianas não me parecem mais americanas do que portuguesas ou europeias. Mas para isso era preciso que alguém fizesse por cá um levantamento parecido.

retalhos

O livro é uma preciosidade para todos os interessados pelo tema, nem que não fosse só pela inexistência de outras publicações sobre ele, tirando o raríssimo catálogo da exposição de Ermelinda Cargaleiro de que a Rita falou aqui, há muitos anos. Bom mesmo era que a exposição viesse ao Museu de Arte Popular.

retalhos

Mais imagens aqui.

Sofia de Medeiros (coord.): Retalhos: uma abordagem ao patchwork açoriano. S.l., Ed. Vice Presidência do Governo e Competitividade Empresarial – Centro Regional de Apoio ao Artesanato, 2017.

Os outros livros são Accidentally on Purpose: the aesthetic management of irregularities in African textiles and African-American quilts e Lapptäcken. En kulturskatt.

a cose

a cose
a cose
A fantástica remessa de tecidos portugueses que consegui para a loja aliada à inevitável desaceleração de Agosto trouxeram-me de volta à costura, como acontece ciclicamente. Foi a oportunidade certa para a A., aos quase doze, aprender finalmente a usar a máquina. Na boa tradição da Retrosaria começou de manhã por fazer a almofada para os alfinetes. Às cinco e pouco da tarde terminou com distinção o seu primeiro saco. Fazer é poder.

esta camisa

camisa stefanel 1991
Saber que o projecto gráfico era do Jorge Silva foi razão suficiente para espreitar o número um da nova revista Prima. Mas honestamente o que mais me marcou e motivou este post bastante tonto foi visitar o site e deparar-me com esta imagem, tirada de uma revista Activa de 1991. Esta camisa. Não sei porquê tenho uma memória particularmente nítida desta camisa. Lembro-me de a ver a uso por várias pessoas (não sei se conhecidos, se desconhecidos), de reparar nela e de achar que era toda uma moda desse ano. Provavelmente até tive pena de não ser rapaz para usar uma, certamente não sabendo que era da Stefanel e que custava mais de treze contos (!), e não sei se combinaria com as calças elásticas pretas e botas Dr Martens que eram o meu uniforme de todos os dias. Agora olho para ela e vejo as semelhanças óbvias com os motivos das chitas ditas de Alcobaça, uma das minhas obsessões têxteis de sempre (mas não propriamente aos quinze anos) e dezasseis anos depois dou por mim com este velho vestido onde até as cores são quase as mesmas. Se conseguisse descobrir o álbum mental de referências gráficas da minha vida esta camisa tinha provavelmente, sabe-se lá porquê, direito a página inteira.

tipificar

sorting and grading fleece
sorting and grading wool
sorting and grading fleece

Primeyramente antes que as lans (…) sejam lavadas e tintas, se apartaraõ as sortes delas, para que as lans de cada sorte vão em seu lugar, & o vello de là se estenderá, & escolherá em hum caniço, ou mesa, & depois de escolhido se lhe cortaraõ as fraldas, as quais se deitaraõ em ourelos (…).
do Regimento da Fabrica dos Pannos de Portugal, 1573.

sorting and grading wool
sorting and grading fleece

A apartação chama-se hoje em dia tipificação e deixou se ser na maioria dos casos feita (cá em Portugal) com os cuidados de outros tempos. Aqui na ANCORME este trabalho é levado muito a sério, o que tem permitido não só que os meus fios que têm na sua composição lã de Merino Português sejam cada vez melhores como (e isto sim pode ser o ponto de partida para uma nova maneira de trabalhar a lã no nosso país) que os criadores de animais com melhor lã vendam melhor o seu produto.

sorting and grading fleece
sorting and grading fleece

Ailanthus altissima

Ailanthus altissima

Nesta altura do ano ainda não estão assim, carregados de sementes (que vistas de perto são lindas). São a invasora mais resistente e de crescimento mais fulgurante com que nos deparamos no quintal. Chamam-se Espanta Lobos (Ailanthus altissima) e vieram da China não se sabe quando. Impedem o crescimento de outras plantas, expandem-se por baixo da terra quando as cortamos, não se percebe onde acaba uma e começa a seguinte. Crescem nos baldios da cidade e percorrem as bermas da estrada do país inteiro. Ainda por cima cheiram mal. Todos os dias arrancamos as que germinaram da noite para o dia e de quando em vez chamamos amigos para ajudar a arrancar árvores adultas até ao último pedaço de raiz. Ramos cortados expostos a meses de sol ressuscitaram quando fizemos o disparate de os usar como estacas. Uma leitora enviou-me este vídeo com uma técnica interessante para quem tenha destas árvores a crescer por perto. Ainda não experimentámos mas estou curiosa:

fiar na roda

No início do ano passei mais de um mês de roda de um artigo que fui convidada a escrever. As viagens pelas ilhas e pelos livros resultaram em mais de vinte páginas que verão a luz do dia lá mais para a frente este ano. Não tenho muita facilidade em pôr ideias no papel. Adio o mais possível, desculpo-me com uma leitura por fazer, uma ideia por confirmar, prometo a mim mesma começar amanhã. Acabei por ter de pôr tudo o resto de lado e dedicar-me só à escrita, os dias que fosse preciso, sem interrupções até estar feito. Esta semana fiz a última revisão à bibliografia e juntei as imagens e agora resta-me esperar. Entretanto várias horas de recolhas guardadas em discos esperam também que as edite e partilhe, porque são muito mais do que um complemento ao texto. Este vídeo que publiquei hoje (já com quase quatro anos de atraso) é uma verdadeira aula de fiação na roda de tipo 1. Deixei-o assim longo de propósito, para que se vejam e revejam os vários momentos do processo: o estirar e torcer das fibras e o enrolamento no fuso, a correcção das irregularidades do fio, o pegar de uma pasta com a seguinte, o pôr do fio na roda quando ele se solta. Toda uma coreografia que se repete imutável há pelo menos oitocentos anos.