direito e avesso

Ao falar de avessos de camisolas por ali (porque este ano as lojas estão cheias de camisolas com o avesso para fora), a Woolcano (a Russian lost in Transylvania cujos posts sigo atentamente) remeteu-me para um retrato de Truman Capote em 1959 envergando uma camisola particularmente curiosa.

Truman Capote a patinar no gelo. 1959. Arquivos da revista Life.

Primeiro pensei que a camisola de Capote estava mesmo vestida do avesso mas, depois de ver com atenção a série de imagens partilhadas neste post, fiquei ainda mais intrigada. Aceito ideias e sugestões.

A minha camisola, que está de facto vestida do avesso, é uma Ghost Horses desenhada por Caitlin Hunter e foi tricotada no nosso fio novo que ainda não está à venda e se chama Pegulhal.

do azeite

Não vou escrever sobre os malefícios da cultura intensiva e super intensiva da oliveira porque não sei suficiente sobre o assunto (recomendo por exemplo a leitura deste relatório de 2009 sobre a Andalusia) mas não podia deixar de trazer para aqui um apelo que faço respeitante a uma consequência muito concreta desse tipo de exploração e que foi motivado por estas notícias:
Recolha mecânica de azeitonas mata milhões de pássaros na Andaluzia. E no Alentejo? (Público, 22 de Dezembro de 2018).
Como milhares de aves estão a morrer no Alentejo (Expresso, 24 de Fevereiro de 2019).
Informe sobre el impacto generado por la explotación del olivar en superintensivo sobre las especies protegidas en Andalucía (Junta de Andalucía).
Exijamos aos produtores do azeite que compramos que nos garantam que pelo menos por isto não são responsáveis enviando-lhes esta mensagem (personalizada a gosto) por email ou através das redes sociais:

Ex.mos Srs.,
Face às notícias referentes à morte de inúmeros pássaros durante as apanhas de azeitona realizadas durante a noite, venho pedir à vossa marca que tranquilize os consumidores garantindo publicamente que os vossos azeites são produzidos SEM recurso a apanhas nocturnas ou outras práticas que tenham estes trágicos resultados.
Pessoalmente, não voltarei a adquirir azeite da vossa marca antes de ter essa garantia.
Com os meus melhores cumprimentos,

Algumas marcas por onde começar: Azeite Gallo, Pingo Doce, Oliveira da Serra.

vizinhas novas

a abelha-mestra

Começámos há três anos com um jasmim oferecido pela Páscoa e dois pés de alecrim trazidos de mão amiga no Alentejo. Um ano depois tínhamos feito acontecer uma horta e comíamos os primeiros ovos caseiros. Mas nunca me ocorreu que poderíamos vir – no centro de Lisboa – a ser adoptados por um enxame de abelhas. Quem sabe se nos escolheram porque lhes cheirou a alecrim e a terra sem venenos nem adubos ou se o enxame estava só tão cansado (de onde teria vindo?) que calhou pousar na “nossa” figueira?

enxame de abelhas

Enquanto as batedoras, baralhadas, entravam pelas janelas do prédio e assustavam os vizinhos, começámos a dar voltas à cabeça para encontrar alguma coisa que pudesse ser rapidamente transformada numa colmeia apetecível. Depois de algumas pesquisas rápidas no telefone (de que tamanho tem de ser a caixa? o que pôr lá dentro para as convencer a ficar? é perigoso fazer isto sem perceber de abelhas?) e um telefonema para a pessoa que conhecemos que mais sabe do assunto, arriscámos. Escolhemos uma caixa de madeira grande e cilíndrica na qual abrimos uma entrada estreitinha e pusemos uma vela de cera pura de abelha, vestimos só porque sim umas gabardinas e ao fim de uns minutos tínhamos uma colmeia algo ridícula com um enxame aparentemente instalado lá dentro.

colmeia improvisada

Depois de cair a noite levámos com cuidado as nossas novas vizinhas para o fundo do quintal e virámos a entrada da sua nova casa para nascente, como é suposto. Na manhã seguinte, mal os primeiros raios de sol começaram a aquecê-la, deram início à sua rotina de abelhas. Pergunto-me se vão procurar flores ao Jardim Botânico ou a Monsanto e se vão manter-se por aqui muito tempo ou procurar instalações de melhor qualidade. Para já parecem satisfeitas.

Ilustração de A Abelha Mestra, de Esther Lemos e Iliane Roels. Lisboa, Verbo (colecção Animais em Família), s. d.

colmeia

cavalgante

É a terceira camisola que desenho. Desta vez para o nosso fio Mondim mas na sua versão tingida em Paris pela La Bien Aimée que vai ser lançada este fim-de-semana no famoso Edinburgh Yarn Festival. Para garantir que as contas batiam certo, que isto de imaginar uma camisola em seis tamanhos diferentes para mim ainda não é coisa pouca, experimentei usar uma folha de cálculo. Foi um processo moroso mas muito interessante, que permitiu por exemplo perceber a priori com alguma exactidão quantos metros de fio seriam necessários para tricotar cada uma das medidas. O processo não estaria completo sem a colaboração de um grupo de test knitters que despistaram (espera-se que todas) as minhas distracções e gralhas. As instruções já estão disponíveis online, em Português e em Inglês, através do Ravelry.

arbusto

Saiu em Setembro, no número 6 da revista finlandesa Laine. Foi a segunda vez que desenhei uma camisola (a primeira foi esta) e a primeira que tive de planear em todos os tamanhos. Nasceu de um convite das editoras e foi a oportunidade perfeita para trabalhar o fio que lançáramos pouco tempo antes, a Brusca, feita de lã de três raças portuguesas: merino branco, merino preto e saloia (uma das minhas preferidas). Não acertei à primeira nos pormenores do desenho, que começou por ser mais complicado, mas sabia que queria incluir estes borbotos. Lembravam-me pequenos frutos silvestres mas também me faziam pensar na misteriosa Diana de Éfeso. Ao longo destes meses tem sido delicioso vê-la interpretada de tantas maneiras. Esgotada a revista, publiquei as instruções no Ravelry (a versão em Português e à portuguesa vem já a seguir).

ovelhas portuguesas

ovelhas portuguesas

Há tantos anos desejado, viu a luz do dia no Fundão, onde fui falar* sobre o que ando já há quase dez anos a fazer com lã e à portuguesa. Um mapa das nossas raças de ovelhas, ou de ovinos como dizem as instituições, ou de gado lanar (lanar, atenção), como se dizia há não assim tanto tempo. Nasceu inspirado pelo outro, editado nos anos 80 pela então Direcção Geral de Pecuária (hoje DGAV), raridade que muita curiosidade desperta na parede da Retrosaria. E também nasceu porque numa fábrica de (e no museu dos) lanifícios encontrei (só) o cartaz das raças britânicas, porque numa boa queijaria alentejana vi (só) o das francesas e porque não faz mal a ninguém aprender o nome destes dezasseis bichos para os reconhecer da janela do carro no próximo passeio. Está aqui.

O desenho é da Joana Estrela.

*nas Jornadas de Inovação e Valorização das Raças Autóctones.