Benjamim Pereira

Benjamim Pereira

Antes de voltar aos posts sobre Trás-os-Montes e o que lá fizemos na semana que passou, uma inadiável referência à privilegiada conversa que tivemos anteontem no Minho com Benjamim Pereira (já aqui por várias vezes referido), um dos grandes protagonistas da etnografia portuguesa do século XX e um apaixonado pelas tecnologias tradicionais que conheceu por dentro e soube por isso descrever como ninguém antes pudera.

Para ler: Entrevista a Benjamim Pereira: “Uma aventura prodigiosa”. Read more →

o fuso de tipo 4

fiandeira

Benjamim Pereira classificou os fusos portugueses em três tipos:
O tipo 1, com haste em madeira e volante (também chamado cossoiro, aquele disco em baixo que lhe dá equilíbrio e o ajuda a girar mais depressa), que ainda se vê no nordeste transmontano e, residualmente, nos Açores.
O tipo 2 compreende os fusos em que a haste de madeira é o elemento principal ou único. Podem ser bastante rudes ou muitíssimo delicados, podem ser pouco mais do que um pau ou ser elegantemente bojudos em baixo para girarem melhor, podem ser mesmo só em madeira ou ter o topo da haste em metal para fiarem mais fino.
O tipo 3 corresponde aos fusos do Baixo Alentejo e Algarve (como estes que estão na Retrosaria), que consta serem os mais directos descendentes dos fusos romanos. A haste é em metal e o volante ou é também em metal e forma uma peça única com a haste ou é um disco em cortiça. São muitíssimo mais pesados do que os outros dois tipos de fusos e usam-se (hoje em dia muito pouco) sobretudo para fiar o linho.
Mas e se houvesse outro tipo de fuso em Portugal, um fuso diferente que chegue para justificar dizer que pertence a outro tipo? Um fuso cujo parente mais próximo vive no país basco, no outro extremo da Península? Em Monchique, no Algarve, o linho da Sra. Maria Nunes é torcido num objecto chamado fiandeira. O da fotografia foi feito pelo marido mas a partir de um igual vindo de gerações anteriores. Por todo o país há fusos usados só para torcer (torcer é juntar dois fios e dar-lhes uma torção extra no sentido oposto ao da fiação para que fiquem mais equilibrados e resistentes), a que se chama frequentemente parafuso ou parafusa. Ora a fiandeira de Monchique é idêntica ao txoatile ou txabalie do país Basco e diferente de todos os outros fusos portugueses: tem uma haste em madeira que forma no seu topo um gancho (aproveitando nos exemplos tradicionais a forma da própria madeira) e um volante em cortiça que serve de bobine para o fio já fiado ou torcido. Para mim foi a descoberta do ano.

Txoatile
Txoatile, el huso vasco. Imagem ©Mundo Lanar.

carimbos agatha – a lã

carimbos agatha - a lã

carimbos agatha - a lã

Não me lembro deles na minha, mas sei que existiam em muitas escolas primárias. Cheguei a estes graças à Rita Rodrigues, que me avisou que estavam à venda. São dez, organizados numa caixa dedicada aos processos da lã. Mostram o pastor, o tosquiador, o operário da indústria dos lanifícios, o tintureiro e a fiandeira, a tecedeira, a senhora da loja e a senhora a fazer malha. Um ciclo da lã bem mais sexista do que na realidade, mas ainda assim delicioso (a A. quis logo colorir as impressões). Também são curiosas as pequenas incongruências, como a estranha posição em que uma senhora carda a lã e a outra segura nas agulhas de tricot. Como diz tão bem o Benjamim Pereira, para saber explicar é preciso saber como se faz. Read more →

fiar na ilha do Pico

fiar na ilha do Pico

Já não é fácil encontrar teares na ilha do Pico. Na escola de artesanato de Santo Amaro o último foi desmantelado há já vários anos e pouco mais se faz hoje em dia senão peças decorativas em escama de peixe e miolo de figueira. Também deixou de se fiar: as meias de lã para os ranchos folclóricos (que as usam com as tradicionais albarcas) vêm em geral de outras ilhas e a suera (da sweater norte-americana, a camisola de lã usada pelos pescadores) é só peça de museu. Em São João, no sul da ilha, encontrámos a D. Avelina e o seu fuso. Aqui fia(va)-se com o fuso apoiado, técnica que nunca vi usar no continente mas é comum por exemplo no Tibete e no Peru. A lã não é lavada antes de ser cardada (sobre a lã dos Açores escreverei depois), nem se usa roca (tal como na Serra de Montemuro). O fuso é semelhante aos que se usam em Trás-os-Montes (de tipo 1 na tabela estabelecida por Benjamim Pereira), mas aqui a roda (volante) tem um diâmetro maior e é mais fina. O fuso da D. Avelina tinha ainda a particularidade de ter incisos dois sulcos helicoidais, um para fiar e outro para torcer o fio (outro vídeo que fica para depois).

traje à vianesa

traje à vianesa

traje à vianesa

No ano passado deixei aqui este apelo do Museu do Traje de Viana do Castelo. Quando, há umas semanas, fui finalmente visitar o museu encontrei o recém-publicado Uma Imagem da Nação – Traje à Vianesa. Foi a minha leitura de férias, e foi com imenso prazer que encontrei o meu nome na lista de agradecimentos (juntamente, entre muitos outros, com o da Mary). O livro é um estudo alargado e profusamente ilustrado do chamado traje à vianesa. Contextualiza historicamente a formação do traje (António Medeiros), descreve cada um dos seus elementos, a sua construção e matérias-primas (Benjamim Pereira) e organiza cronologicamente o seu uso e representações (João Alpuim Botelho). Por serem temas a que tenho dado particular atenção, soube-me a pouco a página dedicada ao lenço e às meias, sobre os quais muito mais haveria que dizer. Ficam para outras publicações, que espero que o Museu venha a editar.

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alforge

alforge artesanal

Não é que estivesse na minha lista de compras, mas apanhou-me desprevenida e não lhe resisti. É um alforge e namorou-me da montra da Loja do Mundo Rural, um dos melhores sítios de Lisboa para conhecer algum bom artesanato Português (à mistura com peças que não se percebe o que lá estão a fazer). Voltando ao alforge, acho que foi feito no Algarve (depois confirmo) e é lindíssimo (em Mértola fazem-se uns diferentes e igualmente bonitos). Para o usar é preciso prática, porque transportar peso num ombro só sem ele escorregar braço abaixo não é assim tão fácil. Pensei em pôr-lhe uma mola de forma a poder trazê-lo a tiracolo (até porque dá um bom agasalho), mas também fica óptimo sossegado em casa, no braço do sofá, nas costas de uma cadeira ou por cima de uma das portas que nunca se fecham. A E. e a A. adoram esconderijos para os livros e brinquedos…

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