a transumância iv

miguel e américo

descanso

Iam vestidos a preceito, e não era por nossa causa. Só o maioral e o Pedro levavam o colete e a camisola de xadrês debruado a burel recortado, mas quase todos nos impressionaram pelo inesperado aprumo. Colete de lã feito no alfaiate (tema para outro post), chapéu de feltro (de coelho para os mais velhos, de lã para os mais novos) de aba curta e revirada e copa baixa moldada pelos dedos para formar um bico nos dias de chuva por onde a água escorre mais facilmente (só as maneiras de o pôr mais para a frente ou para trás dariam matéria para umas páginas…) e o indispensável cajado, de pau de marmeleiro ou de outra madeira que não apontei (Diane, lembras-te?), uma melhor para o tempo seco e outra para o inverno, bordado no topo à navalha por quem sabe. O cajado apoia a marcha, afasta o mato, manda parar e mudar de sentido, caleja a palma do pastor e às vezes voa para chamar o bicho que saiu do caminho. Read more →

a transumância iii

ovelha

bode

São elas as grandes protagonistas da viagem. Sobe-se a montanha porque as pastagens das zonas mais baixas já não têm alimento que chegue, e porque estes animais continuam a comer pasto e não ração. Se alguns pastores (que aqui quer dizer proprietários de ovelhas) alugam no verão pastagens próximas para as duas chegadelas (refeições) diárias do seu rebanho, outros mantêm o hábito ancestral de o levar para outras paragens, ou de o entregar a quem o leve, pagando uma quantia certa por cabeça. O rebanho que acompanhámos era composto por vários rebanhos de média dimensão pertencentes a outros tantos pastores. Na liderança seguia o maioral (pastor responsável por toda a operação), acompanhado pelos pastores mais velhos, e atrás os mais novos e os empregados (pastores sem rebanho). Cada animal traz nas costas a marca do seu dono, o que permitirá apartá-lo depois do regresso e, ao pescoço, a sonora loiça que nesta ocasião especial é maior do que a usada habitualmente. Os chocalhos maiores, mesmo novos, valem várias centenas de euros e vêm actualmente do Alentejo, onde continuam a ser feitos individualmente, à mão. Read more →

a transumância ii

américo

miguel

É outro estar, em que o silêncio não cansa, viver de homens em que fomos intrusas. O convívio e a amizade que elegem como valores não traduzem o afecto entre pastores que choraram juntos de medo quando numa noite de trovoada viram os raios estilhaçar os penedos à sua volta, que salvaram por pouco o rebanho de um incêndio ou que partilharam semanas quase isolados no cume da montanha. Estranho e fascinante mundo em que as mulheres parecem o sólido fio de terra, portadoras da bucha, da roupa e dos filhos, mas não das estrelas. Read more →

a transumância I

madrugada

Uma mole de homens e animais subiu a montanha em busca de alimento, como todos os anos há milhares de anos. Ovelhas, cabras, homens, cães, duas mulheres. Do nascer do sol ao meio dia, do ar imagino que parecêssemos um organismo vivo, cor de terra, esticando e engrossando consoante a largura dos caminhos, acordando o povo ao som de quase mil chocalhos… Read more →

santo antónio em outeiro de espinho

cão
a caminho

Ao cair da tarde, quando começa a refrescar e o rebanho consente, começa a caminhada em direcção à capela. Paramos num pasto verde, onde as ovelhas procuram o trevo escondido pela erva brava. Dizem que hoje em dia são mais mimosas, que já não comem tudo como há trinta ou quarenta anos quando não tinham outra alternativa. Paramos mais à frente para beberem, não há pressa.

cão pastor
outeiro de espinho

Conversa-se na beira da estrada. A Francisca este ano quis ficar com o pai, ir à frente das ovelhas. Come pipocas cor de rosa e pergunta-me se também sou pastora.

chegada
chegada

Olhe que estou aqui só para o ver!
O Pula é saudado à entrada da aldeia. Traz o rebanho maior, o que mais gente espera ver correr em volta da capela. No Domingo que vem irá cumprir a romaria à Folgosa da Madalena. E no seguinte é dia de subir à Serra.

outeiro de espinho
romaria
romaria

amor de pastor

pompom
pompom

Quem por aqui vai passando já se deve ter cruzado com algum de muitos posts sobre o hábito que sobrevive em algumas aldeias da Serra da Estrela de enfeitar os rebanhos com pompons (lá são bolras, ou pêras, ou medronhos) em ocasiões especiais (normalmente romarias associadas aos ritmos da transumância). Ora no ano passado eu e as meninas decidimos que para subir a serra a preceito com os pastores e o gado também tínhamos de fazer alguns pompons e de oferecer um como lembrança ao maioral. Sem querer fomos promovidas a fazedoras de pompons de grande categoria e este ano vejo-me a braços com uma encomenda: quarenta pompons para enfeitar um rebanho que há-de ir a preceito nas romarias que aí vêm (é agora, entre Maio e Junho, que acontecem estas festas quase desconhecidas de todos os que não são pastores). Lembrei-me que podia pedir ajuda: não somos só nós que gostamos de fazer pompons e há de certeza mais quem tenha restos de lã colorida em casa e vontade de contribuir para que esta tradição continue viva. As regras são poucas e simples: os pompons têm de ser grandes (os nossos têm 85mm de diâmetro) e densos, coloridos e, sobretudo, muito resistentes. O meu conselho é atá-los não com lã mas com fio de norte, deixando umas pontas de fio bem compridas para que possam depois ser colocados nos bodes. Podem ser feitos à mão como os fazem os pastores, com cartão ou com máquina, o que interessa é que cheguem à Retrosaria antes do fim de Maio. Alguém alinha?

PS: convém fazer os pompons aos pares, para se usarem um de cada lado como se vê na foto de baixo.

pêras e cabeçadas

a subida à serra

transumância

transumância

Pedro,
Este ano não tirei tantas fotografias da subida à Serra como da outra vez. Metade do tempo porque fui com o cordeiro do Sr. António ao colo, depois porque quando já está muita luz e calor é mais difícil fazer boas imagens e também, claro, porque os caminhos antigos são mais bonitos do que a estrada que tomámos este ano. Mas foi na mesma um dia inesquecível. Foi bom ver as mulheres e filhas dos pastores a fazer a caminhada e perceber que a Grande Rota da Transumância despertou nelas e em muitos outros a vontade de conhecer mais de perto o vosso trabalho. A E. e a A. também não se vão esquecer deste dia. Até porque levaram muito a sério os seus elogios às borlas (elas chamam-lhes pompons) e continuam a fazê-las umas atrás das outras – quando o Pula precisar de mais, é só dizer! O Tiago ainda não teve tempo de editar as filmagens desse dia, mas eu aviso quando estiverem online. Entretanto, também há muitas imagens aqui e aqui, não sei se já viu.
Até breve (espero) e um grande abraço para si e para o Pula.

transumância

transumância

transumância

Colaborações e parcerias

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No âmbito do meu trabalho de investigação na área das artes e ofícios tradicionais, dedicado sobretudo ao ciclo artesanal da , tenho vindo a colaborar com diversas entidades em eventos e projectos de levantamento, estudo e sensibilização. Entre elas:

Festa da Transumância

Associação Transumância e Natureza
Figueira de Castelo Rodrigo
Setembro 2013

Festa da Transumância
Apresentação do projecto Lã em Tempo Real e workshop de fiação manual de lã no âmbito da Festa da Transumância, evento realizado anualmente pela Associação Transumância e Natureza em Figueira de Castelo Rodrigo. Mais imagens deste evento.
eu desguedelho, eles desguedelham

Do Pastoreio ao Tear

Associação ALDEIA
Duas Igrejas | Malhadas
Maio 2012

fiar
Participação no evento Actividades Rurais em Extinção | O Ciclo da Lã – Do Pastoreio ao Tear, promovido em Maio de 2012 pela Associação ALDEIA. Sessão teorico-prática sobre o ciclo artesanal da lã nas diferentes regiões do país e oficina de tinturaria natural. Ver mais imagens desta iniciativa.
lã em tempo real

Lavores da Transumância

A Moagem | Chocalhos
Fernão Joanes | Fundão | Alpedrinha
Agosto > Setembro 2012

rebanho
Residência na aldeia de Fernão Joanes (Guarda) para recolha e registo da prática de enfeitar os rebanhos para a romaria anual à capela de Nossa Senhora do Soito. Aprendizagem de técnicas e documentação de objectos e histórias de vida.
d. ângela e a ovelha mocha
Realização de workshops de artes têxteis na Moagem, Cidade do Engenho e das Artes, subordinadas ao tema Lavores da Transumância. Instalação têxtil em Alpedrinha, no âmbito do festival Chocalhos – Caminhos da Transumância, realizada com a participação dos pastores de Fernão Joanes.
lavores da transumância
lavores da transumância

Mulheres de Bucos

MPAGDP | Museu das Terras de Basto
Bucos | Lisboa
Outubro 2012

mulheres de Bucos
Em colaboração com a associação MPAGDP, as mulheres que dão vida à Casa da Lã de Bucos (Cabeceiras de Basto) foram convidadas a vir a Lisboa, enquadradas nas Festas do Chiado, cantar e demonstrar as etapas do trabalho artesanal da lã.
festa no chiado

Meias de Grades de Bucos

Museu das Terras de Basto
Bucos
Novembro 2012 > Junho 2013

bucos
Residência em Bucos (Cabeceiras de Basto) para documentação e aprendizagem das técnicas de confecção das meias dos corações, uma das tipologias das meias tradicionais da localidade.
bucos
Redacção e publicação, em parceria com o Museu das Terras de Basto, de uma brochura dedicada às meias dos corações, com instruções para a sua realização de acordo com as técnicas locais.
meias de grades de bucos
meias de grades de bucos

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