amor de lã

amor de lã

amor de lã

De casa da tecedeira segui para casa da D. Isabel, escrinheira e fiandeira. Na noite anterior percorrêramos a aldeia a pé. Vimos as estrelas, as vacas a dormir, ouvimos os mochos e as cigarras, admirámos as casas de pedra silenciosas. Nem com muito optimismo conseguiria ter imaginado o estendal de lã que vi pela manhã. Aqui os teares emudecem (mas houvesse encomendas e acredito que voltassem a tecer) mas ainda se fia. A nossa sala de estar é aqui, disse a D. Maria da Cruz apontando para um banco de pedra no largo. E de Inverno estamos aqui, num outro mais abrigado. Se tivesse vindo ontem já nos conhecia todas, dantes fiava-se aqui muito. Hoje temos uma missa e um convívio, mas venha amanhã que lhe mostro o que quer ver. Read more →

tecer

tapete

manta

Nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) e tapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro), mas aqui toda a superfície é coberta de puxados, que são no fim do trabalho abertos com uma tesoura. O resultado é uma manta com muitos quilos de lã (julgo que entre dez e vinte) e tão densa e espessa que aos nossos olhos parece um tapete de luxo. Uma manta larga é composta por três peças tecidas individualmente (os teares domésticos são estreitos) e cosidas no fim umas às outras, por vezes rodeadas ainda de uma franja feita também em casa (o tear de franjas vê-se à direita na imagem de cima) e na mesma lã. Read more →

o burro e os pentes

pente

pentear

Depois de ver a Ti Paula fiar a lã aberta e preparada apenas à mão fiquei a conhecer o burro e os pentes. O burro é uma peça em madeira à qual se podem prender cardas ou pentes, as duas ferramentas mais importantes no preparo da lã. Com as cardas obtêm-se porções (panadas ou pastas, consoante a região) de lã com as quais se produz um fio cardado (woolen) – as fibras de lã ficam orientadas perpendicularmente ao fio que se vai criar. Com os pentes prepara-se o penteado ou estambre (worsted): apenas as fibras mais longas são seleccionadas e consegue-se que fiquem muito paralelas umas às outras, permitindo a criação de um fio mais fino e resistente, que nesta região era usado para tecer os cobertores (matéria para outro post). Read more →

as meias das pernas

fusos e meias das pernas

as meias das pernas

Alguns dias, muitas curvas e outras tantas histórias depois, chegámos a Montalegre, onde tinha estado há três anos. Uma das razões deste passeio foi conhecer pessoalmente a Daniela Araújo, antropóloga e autora de um dos meus blogs preferidos, Uma Ovelha no Quintal. Juntas visitámos um dos muitos protagonistas do seu levantamento de saberes e tradições da região do Barroso, o Sr. Manuel Chaves. Como sempre acontece nestas ocasiões, a conversa levou-nos a muito mais temas do que as agulhas de fazer meia, que eram o pretexto inicial. Graças a ele fiquei a conhecer as meias das pernas, que nunca vi em museu nenhum nem me lembro que estejam referidas nas recolhas que conheço. Trata-se de um agasalho em malha de lã que no tempo mais frio os homens ali usavam sobre as calças e por baixo da croça e da capa. Do seu remate sai uma trança que é presa ao cinto ou às presilhas das calças e abaixo do joelho é presa (uma em cada perna, claro) com um cordão também de lã. O Sr. Manuel não as vestiu, mas mostrou-nos como era, e exemplificou também a feitura do cordão. Entre muitas outras coisas vi os fusos que fez para a mulher, os de fiar (com o característico sulco helicoidal) e os de torcer, todos em madeira (como parece ser norma em Trás-os-Montes) mas sem o volante que caracteriza os da região de Miranda do Douro. E a seguir vimos os fantásticos e coloridos xales, que ficam para outro dia… Read more →

pêras e cabeçadas

a caminho do montemuro

o tempo dos bodes

Em véspera de partida para férias, o trabalho não permitiu que acompanhasse a descida da Serra, adiantada pelo mau tempo em relação ao previsto, mas cheguei a tempo da última caminhada e do convívio. Com as férias regressaram à terra vários ex-pastores e ex-futuros pastores que a vida levou a outros países. Também eles desceram a serra com o rebanho, fundindo-se no grupo como se nunca tivessem deixado a Serra. Com um deles aprendi mais sobre a tradição de enfeitar os bodes durante a transumância. Zé, há muitos anos emigrado no Luxemburgo, fez várias vezes a transumância para a Serra de Montemuro, uma caminhada de cinco dias que hoje dizem já nem ser possível por as novas estradas não terem preservado os acessos necessários à passagem dos rebanhos. Nesse tempo o isolamento a que os da Serra da Estrela ficavam confinados, tão longe de casa, implicava por exemplo que levassem um homem só para cozinhar para os outros. Os pastores tinham brio: competiam entre si pelo aspecto dos rebanhos, exibiam a obediência do gado, enfeitavam os focinhos dos bodes para a caminhada com as cabeçadas ou cabrestos e os chifres com uma enorme quantidade de pêras (borlas) ou pompons e campainhas (chegavam a ter 10 campainhas por chifre, para além de um enorme chocalho ao pescoço). O nosso interesse pelo tema fez sair das gavetas fotografias de há dez e há vinte anos e um saco de pêras por estrear, feitas pelo Zé nos tempos livres. O enfeite dos bodes é uma arte exclusivamente masculina. São os homens que cosem e bordam as cabeçadas e que fazem as pêras coloridas, numa terra em que toda a lã é vendida a intermediários e as mulheres não a fiam nem fazem meia. Comoveu-me a imagem do Zé no Luxemburgo a fazer estas lindas pêras de lã colorida presas com atilhos plásticos para sacos. Prometeu-me que no ano que vem, quer estejamos lá para ver ou não, o rebanho do maioral Miguel voltará a subir a serra enfeitado como dantes. Read more →

arrancar. moda em tricot

arrancar

Para si, Leitora
Pela primeira vez no nosso País, uma revista de malha e moda totalmente nacional. A Mulher Portuguesa é, sem sombra de dúvida, das melhores do mundo em aptidão manual. As pequenas maravilhas de trabalho artesanal que nascem (por vezes, tão discretamente) das suas mãos habilidosas merecem mais encorajamento, mais elogio e renome.

Em 1985 nascia assim a primeira revista de tricot feita (e não apenas traduzida ou adaptada) em Portugal, por iniciativa da então jovem empresa Arrancada – Fiação da Arrancar (entretanto falida?), especializada em fios de fantasia e da Fisipe, produtora de fibras sintéticas. Foi certamente uma publicação bastante cara, envolvendo concepção de figurinos, instruções por escrito e sessões fotográficas com modelos também portugueses. Com uma tiragem de 25000 exemplares, a qualidade dos conteúdos vai aumentando de número para número até ao último que pude consultar (Outono/Inverno 1988-1989), em que as peças apresentadas não ficam atrás do que se via nas revistas de moda da altura. Read more →

dos bodes

dos bodes

dos bodes

Há vários meses, ao ler sobre a Serra de Montemuro, aprendi que os bodes vindos na transumância da Serra da Estrela traziam nessa ocasião os chifres enfeitados com fitas e pompons. Os que acompanhámos não levavam os enfeites, mas pelo menos um tinha os chifres cheios dos furinhos necessários para os segurar, e disse-me o João que na casa do seu pai ainda estariam uns, feitos no tempo da sua avó ou antes disso. Lá os fomos ver, claro.
Em conversa com uma senhora da Serra de Montemuro, uns dias depois, fiquei a saber que era hábito irem os das aldeias dessa região esperar a Castro Daire pelos rebanhos da Serra da Estrela, e receber os pastores com pão e vinho. A chegada dos animais, com estes enfeites e com os grandes chocalhos, devia ser um momento impressionante. Read more →

a transumância iv

miguel e américo

descanso

Iam vestidos a preceito, e não era por nossa causa. Só o maioral e o Pedro levavam o colete e a camisola de xadrês debruado a burel recortado, mas quase todos nos impressionaram pelo inesperado aprumo. Colete de lã feito no alfaiate (tema para outro post), chapéu de feltro (de coelho para os mais velhos, de lã para os mais novos) de aba curta e revirada e copa baixa moldada pelos dedos para formar um bico nos dias de chuva por onde a água escorre mais facilmente (só as maneiras de o pôr mais para a frente ou para trás dariam matéria para umas páginas…) e o indispensável cajado, de pau de marmeleiro ou de outra madeira que não apontei (Diane, lembras-te?), uma melhor para o tempo seco e outra para o inverno, bordado no topo à navalha por quem sabe. O cajado apoia a marcha, afasta o mato, manda parar e mudar de sentido, caleja a palma do pastor e às vezes voa para chamar o bicho que saiu do caminho. Read more →

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