carimbos agatha – a lã

carimbos agatha - a lã

carimbos agatha - a lã

Não me lembro deles na minha, mas sei que existiam em muitas escolas primárias. Cheguei a estes graças à Rita Rodrigues, que me avisou que estavam à venda. São dez, organizados numa caixa dedicada aos processos da lã. Mostram o pastor, o tosquiador, o operário da indústria dos lanifícios, o tintureiro e a fiandeira, a tecedeira, a senhora da loja e a senhora a fazer malha. Um ciclo da lã bem mais sexista do que na realidade, mas ainda assim delicioso (a A. quis logo colorir as impressões). Também são curiosas as pequenas incongruências, como a estranha posição em que uma senhora carda a lã e a outra segura nas agulhas de tricot. Como diz tão bem o Benjamim Pereira, para saber explicar é preciso saber como se faz. Read more →

cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

Uma das prendas mais bonitas que tive nos últimos tempos foi esta Cartilha do Tosquiador de 1954, oferecida pela Rita Palma. Trata-se de um manual criado com o objectivo de instruir profissionalmente os manajeiros e tosquiadores de forma a valorizar o mais possível a lã através da observação de maiores cuidados com os animais, com o processo da tosquia e com a conservação dos velos, questões que a bibliografia portuguesa dedicada aos lanifícios desde há décadas aponta como principais motivos de não se produzirem industrialmente no país lãs de tão boa qualidade como no estrangeiro.
A Cartilha teve a sua primeira edição em 1948 e foi sendo sucessivamente actualizada. A versão de 1999 está disponível para download na mediateca da DGADR, mas como só funciona em computadores windows ainda não a consegui ver. É uma excelente introdução ao tema da lã em Portugal e útil mesmo para quem esteja só à procura de informação sobre como tirar o melhor partido de um velo que trouxe da aldeia (de que parte do corpo vem a melhor lã, como distinguir se se trata de uma lã de tipo merino, cruzado ou churro, etc.).
É sempre interessante ver como por cá este tema raramente saiu das publicações técnicas como esta enquanto noutros países ele se tornou muito mais mainstream. O The Wool Book, já aqui várias vezes citado, ou o mais recente The Knitter’s Book of Wool são apenas dois de muitos exemplos possíveis.
Para mim a passagem mais interessante do texto é a que refere a prática ainda corrente (em 1957) de bordar as ovelhas, como ouvimos descrever em Fernão Joanes: a tosquia (…) que fazem nos “cabrestos” e em animais para feira, cortando a lã a várias alturas e formando desenhos mais ou menos caprichosos, essa é uma tosquia condenável. Tem a finalidade de embelezar o animal, mas só serve para estragar e desperdiçar lã (p. 26). Ovelhas bordadas… espero vê-las este ano!

PS: Disponível na Mediateca da DGADR, no muito mais simpático formato pdf, estão também A Cultura do Linho, de J.C. Estevéns Lança e J. M. Fernandes Baptista e, sobre lã, o Glossário de Termos Ingleses da Tecnologia Lanar, de José Chabert e Luís Pinto de Andrade. Read more →

aprender para ensinar

aluna e mestra

aluna e mestra

Na semana passada estive uns dias em Bucos para aprender com a D. Teresa Simões os segredos das meias de grades. Estas meias eram até há duas gerações as que por aquelas paragens os homens usavam ao Domingo, por baixo de calças suficientemente curtas para deixar ver os desenhos e por dentro dos socos abertos, que eram o calçado habitual. Enquanto aprendia tirava notas e, para ver se as notas estavam bem tiradas, tricotei depois a partir delas. Tanto papel e caneta fez confusão à D. Teresa, habituada a ler as malhas como quem lê letras e a reproduzir à vista tudo o que vê e lhe agrada, seja uma toalha de renda num altar ou um casaquinho numa montra. À minha maneira primeiro, e depois obrigando-me a fazer à maneira dela, aprendi as grades dos corações e as outras necessárias, mais um mate que nunca tinha visto, e regressei a Lisboa de meias meias feitas para as refazer, pôr por escrito (porque nem toda a gente tem a sorte de ter uma D. Teresa por perto) e poder ensinar em breve.

Last week I spent a few days in Bucos, learning how to knit the local traditional lace socks. These socks were worn with wooden clogs by local men (women wore plain knee-high socks without feet) and reserved for sundays and other special occasions. They were and still are knitted from handspun yarn, worked tightly on five handmade point hook needles, tensioning the yarn behind the neck in the traditional portuguese style. The pattern will be published soon, in collaboration with the museum of Cabeceiras de Basto.

fernão joanes (3)

rebanho

enfeitar o rebanho

Quando falam das suas ovelhas, os pastores e pastoras de Fernão Joanes gabam sempre os grandes cuidados que lhes são (ou, na maioria dos casos, eram) prestados: contam como lhes faziam regularmente a cama com giestas frescas, como lhes moldavam os cornos com a ajuda de água a ferver para ficarem mais bonitos, como as bordavam durante a tosquia (havemos de voltar na altura certa para ver isto ao vivo), desenhando-lhes à tesoura motivos sobre todo o corpo. Trazer um rebanho bonito e bem tratado era e é motivo de orgulho por estas paragens. E pelo menos uma vez por ano, na festa que se celebra no segundo domingo de Maio, os animais eram lavados (sim, lavados) e vestidos a preceito para receberem a benção na capela de Nossa Senhora do Soito. Mesmo depois de ver as pêras e cabeçadas usadas pelos bodes do outro lado da serra, as ovelhas enfeitadas de Fernão Joanes não podem deixar ninguém indiferente.

The shepherds and shepherdesses of Fernão Joanes always took great care of their sheep: they shaped the sheep’s horns to perfection with the help of boiling water, and drew complex geometric motifs on their bodies during shearing (we will return in may to film this). Once a year, on the second Sunday of May, the animals were bathed and embellished to receive the priest’s blessing in the chapel of Our Lady of Soito.

d. carmen

d. ângela e a ovelha mocha

Fernão Joanes

fernão joanes (2)

Ti Aristides

Ti Aristides

Fernão Joanes, na Guarda, é uma aldeia pequenina a quase 1000m de altitude. Os rebanhos são poucos hoje em dia porque os pastores envelheceram, mas as histórias do que se passava há 30 ou 40 anos são muitas e fascinantes. Por ali pouco se vêem os casacos de raxa e capas de Burel do outro lado da Serra – quando sai com as ovelhas, o pastor leva o cajado e um cobertor de papa (Maçainhas é ali mesmo ao lado). O rebanho conhece as riscas da manta e segue-a, obediente, que o pastor a sério é o que anda à frente do rebanho e não atrás dele. E se o corpo se ausenta, a manta e o cajado trabalham sozinhos. Read more →

agosto galego (2)

Concha

Em Luneda

Os dias da Galiza foram passados na estrada, a gravar música tradicional para um projecto em curso. Mas também houve tempo para falar de lã. Foi em Luneda, muito perto de Melgaço, com a D. Concha:

Se tens … uma ovelha, ou duas ou três, rapa-lhe a lã, mira que a lã seja de boa raça, que seja completamente sedosa, que não seja brava, faz roupa, faz de tudo. Não é preciso ir às fábricas para viver.

Our week in Galicia was spent on the road, recording traditional music for one of Tiago‘s ongoing projects. But there was also time to talk about wool. We were in Luneda with D. Concha, near the portuguese border, and recorded her praise of wool:

If you have … a sheep or two or three, you shear the wool … but you must choose good sheep to have soft wool. You can make your own clothes, you can make many things. There is no need to go to the factories to live.

lã em movimento

bucos na estrela
Foto: Vânia Vargues

No passado Sábado as Mulheres de Bucos vieram a Lisboa mostrar o seu trabalho integradas, a meu convite, na iniciativa IKEA HOTTËL. Nesse dia eu estava muito mais a norte, mas a E e a A puderam relembrar o que têm aprendido noutros passeios.

Dia 1 inaugura em Guimarães a exposição/concurso Contextile. A Lã em Tempo Real estará lá e aqui fica o convite para quem quiser ir espreitar.

Last Saturday the Mulheres de Bucos (spinners and weavers from Bucos) were in Lisbon showing their work, as a part of a small project I have been developing for IKEA. I was in Galicia working on something else and couldn’t be there, but E and A were.

Contextile opens in a few days, in Guimarães, and Lã em Tempo Real will be there.

fiar na madeira

Na Madeira, subimos do Funchal por dentro de uma névoa cerrada em direcção a Ribeiro Frio. Íamos ao encontro (com ajuda dos amigos) da D. Maria Isabel, que faz barretes de vilão com a lã das suas ovelhas, que são – julgo eu – da raça churra madeirense (só vi a raça referida aqui e não vem mencionada no meu site de referência habitual). No vídeo de cima, a D. Isabel descreve a tosquia e a lavagem da lã.

Ver como se fia num sítio novo é quase sempre ocasião para surpresas. Já fora assim na ilha do Pico, onde vi fiar com um fuso leve e esguio apoiado numa cadeira, e assim foi também desta vez. O fuso da D. Maria Isabel, feito em urze, era longo e pesado, sem o sulco helicoidal (a rosca no topo da haste) habitual nos fusos portugueses. O fuso é apoiado no chão e a lã é preparada para a torção num movimento cuidado dos dedos da mão esquerda sobre o joelho (segundo vídeo). O vídeo abaixo mostra o processo de torcer dois fios juntos para criar o grosso fio retorcido que é usada nos barretes. Como diz a D. Isabel, não é que seja coisa reles de fazer, mas dá um pedaço de trabalho.

We left Funchal towards the mountains and through thick fog. We were going to Ribeiro Frio to meet D. Maria Isabel, spinner and maker of the traditional knitted hats stil worn by some farmers and shepherds. The first video above shows D. Isabel with her wool carders describing the process of shearing and scouring the local wool – two tasks which are still done entirely by hand.

Seeing how hand spinning is done in a place I have never visited before is always a time for surprises. In Pico island we saw a woman spinning on a supported spindle, something I had never witnessed in Portugal before. The spindle from Pico was short and made from a lightweight wood, very unlike the one used by D. Isabel: this one, made of heather wood, was long and heavy and rested directly on the ground. Unlike most portuguese spindles, it didn’t have the screw-shaped incision along the top section of the shaft. The carded wool is held in the left hand (as usual) and the drafting is carefully done on the knee, a detail which was also new to me (second video above). The video below shows the process of plying two strands of yarn together (rotating the same spindle counterclockwise) to create the thick 2ply used to knit the hats.

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