fernão joanes (3)

rebanho

enfeitar o rebanho

Quando falam das suas ovelhas, os pastores e pastoras de Fernão Joanes gabam sempre os grandes cuidados que lhes são (ou, na maioria dos casos, eram) prestados: contam como lhes faziam regularmente a cama com giestas frescas, como lhes moldavam os cornos com a ajuda de água a ferver para ficarem mais bonitos, como as bordavam durante a tosquia (havemos de voltar na altura certa para ver isto ao vivo), desenhando-lhes à tesoura motivos sobre todo o corpo. Trazer um rebanho bonito e bem tratado era e é motivo de orgulho por estas paragens. E pelo menos uma vez por ano, na festa que se celebra no segundo domingo de Maio, os animais eram lavados (sim, lavados) e vestidos a preceito para receberem a benção na capela de Nossa Senhora do Soito. Mesmo depois de ver as pêras e cabeçadas usadas pelos bodes do outro lado da serra, as ovelhas enfeitadas de Fernão Joanes não podem deixar ninguém indiferente.

The shepherds and shepherdesses of Fernão Joanes always took great care of their sheep: they shaped the sheep’s horns to perfection with the help of boiling water, and drew complex geometric motifs on their bodies during shearing (we will return in may to film this). Once a year, on the second Sunday of May, the animals were bathed and embellished to receive the priest’s blessing in the chapel of Our Lady of Soito.

d. carmen

d. ângela e a ovelha mocha

Fernão Joanes

fernão joanes (2)

Ti Aristides

Ti Aristides

Fernão Joanes, na Guarda, é uma aldeia pequenina a quase 1000m de altitude. Os rebanhos são poucos hoje em dia porque os pastores envelheceram, mas as histórias do que se passava há 30 ou 40 anos são muitas e fascinantes. Por ali pouco se vêem os casacos de raxa e capas de Burel do outro lado da Serra – quando sai com as ovelhas, o pastor leva o cajado e um cobertor de papa (Maçainhas é ali mesmo ao lado). O rebanho conhece as riscas da manta e segue-a, obediente, que o pastor a sério é o que anda à frente do rebanho e não atrás dele. E se o corpo se ausenta, a manta e o cajado trabalham sozinhos. Read more →

agosto galego (2)

Concha

Em Luneda

Os dias da Galiza foram passados na estrada, a gravar música tradicional para um projecto em curso. Mas também houve tempo para falar de lã. Foi em Luneda, muito perto de Melgaço, com a D. Concha:

Se tens … uma ovelha, ou duas ou três, rapa-lhe a lã, mira que a lã seja de boa raça, que seja completamente sedosa, que não seja brava, faz roupa, faz de tudo. Não é preciso ir às fábricas para viver.

Our week in Galicia was spent on the road, recording traditional music for one of Tiago‘s ongoing projects. But there was also time to talk about wool. We were in Luneda with D. Concha, near the portuguese border, and recorded her praise of wool:

If you have … a sheep or two or three, you shear the wool … but you must choose good sheep to have soft wool. You can make your own clothes, you can make many things. There is no need to go to the factories to live.

lã em movimento

bucos na estrela
Foto: Vânia Vargues

No passado Sábado as Mulheres de Bucos vieram a Lisboa mostrar o seu trabalho integradas, a meu convite, na iniciativa IKEA HOTTËL. Nesse dia eu estava muito mais a norte, mas a E e a A puderam relembrar o que têm aprendido noutros passeios.

Dia 1 inaugura em Guimarães a exposição/concurso Contextile. A Lã em Tempo Real estará lá e aqui fica o convite para quem quiser ir espreitar.

Last Saturday the Mulheres de Bucos (spinners and weavers from Bucos) were in Lisbon showing their work, as a part of a small project I have been developing for IKEA. I was in Galicia working on something else and couldn’t be there, but E and A were.

Contextile opens in a few days, in Guimarães, and Lã em Tempo Real will be there.

fiar na madeira

Na Madeira, subimos do Funchal por dentro de uma névoa cerrada em direcção a Ribeiro Frio. Íamos ao encontro (com ajuda dos amigos) da D. Maria Isabel, que faz barretes de vilão com a lã das suas ovelhas, que são – julgo eu – da raça churra madeirense (só vi a raça referida aqui e não vem mencionada no meu site de referência habitual). No vídeo de cima, a D. Isabel descreve a tosquia e a lavagem da lã.

Ver como se fia num sítio novo é quase sempre ocasião para surpresas. Já fora assim na ilha do Pico, onde vi fiar com um fuso leve e esguio apoiado numa cadeira, e assim foi também desta vez. O fuso da D. Maria Isabel, feito em urze, era longo e pesado, sem o sulco helicoidal (a rosca no topo da haste) habitual nos fusos portugueses. O fuso é apoiado no chão e a lã é preparada para a torção num movimento cuidado dos dedos da mão esquerda sobre o joelho (segundo vídeo). O vídeo abaixo mostra o processo de torcer dois fios juntos para criar o grosso fio retorcido que é usada nos barretes. Como diz a D. Isabel, não é que seja coisa reles de fazer, mas dá um pedaço de trabalho.

We left Funchal towards the mountains and through thick fog. We were going to Ribeiro Frio to meet D. Maria Isabel, spinner and maker of the traditional knitted hats stil worn by some farmers and shepherds. The first video above shows D. Isabel with her wool carders describing the process of shearing and scouring the local wool – two tasks which are still done entirely by hand.

Seeing how hand spinning is done in a place I have never visited before is always a time for surprises. In Pico island we saw a woman spinning on a supported spindle, something I had never witnessed in Portugal before. The spindle from Pico was short and made from a lightweight wood, very unlike the one used by D. Isabel: this one, made of heather wood, was long and heavy and rested directly on the ground. Unlike most portuguese spindles, it didn’t have the screw-shaped incision along the top section of the shaft. The carded wool is held in the left hand (as usual) and the drafting is carefully done on the knee, a detail which was also new to me (second video above). The video below shows the process of plying two strands of yarn together (rotating the same spindle counterclockwise) to create the thick 2ply used to knit the hats.

são joão das ovelhas

são joão das ovelhas

a loiça

Ontem de madrugada o rebanho que acompanhei há um ano serra acima na companhia da Diane voltou a partir na rota da transumância. Dias antes tínhamos estado na Folgosa da Madalena para assistirmos e filmarmos a romaria do São João das Ovelhas. É uma festa de pastores para pastores, sem turistas à vista, em que os rebanhos, em passo de corrida e acompanhados pelos donos, desfilam à vez em volta da capela da aldeia, três voltas num sentido e três no outro (para os animais não ficarem tontos). Vêm a pé de várias aldeias, e repousam tarde fora nos campos vizinhos até o calor abrandar. É nessa altura que chegam à Folgosa, onde as famílias os esperam, e a festa acontece. Quase todos trazem os bodes enfeitados com a loiça grande, os chocalhos maiores e mais valiosos, e alguns mantêm o hábito (que vi finalmente ao vivo depois de um ano de espera) de os decorar com as pêras e cabeçadas sobre as quais escrevi antes. Não sei se há por cá outros pastores tão orgulhosos como os da Serra da Estrela, sempre aprumados nos seus casacos de raxa e de cajado na mão. Eu emociono-me sempre que os vejo. Read more →

ensinar a lã

ensinar a lã

Depois da experiência transmontana, resolvi fazer na Retrosaria um workshop sobre o ciclo tradicional da lã em Portugal. Com frascos de lã de várias raças e fusos de alguns dos sítios por onde tenho passado tentei contar como se fez (e faz ainda) o caminho da ovelha ao novelo e ensinar os primeiros passos na criação de um fio de lã. Pelo meio vimos e comentámos alguns dos vídeos do projecto Lã em Tempo Real que tenho vindo a desenvolver com o Tiago Pereira.

o ciclo da lã ao vivo

o ciclo da lã

Há vários anos que os meus posts sobre cultura popular e história têxtil suscitam comentários a sugerir que organize workshops fora de Lisboa ou simplesmente a dizer quem me dera ir contigo. A estreia vai ser daqui a poucas semanas, no início de Maio, e no melhor sítio do país para perceber que ainda há quem fie e teça como sempre se fez e sem ser só em recriações folclóricas ou para turista ver: Duas Igrejas, junto a Miranda do Douro. A Ti Paula vai ser uma das várias mestras e eu vou sobretudo contextualizar e ajudar com base na minha experiência do assunto acumulada um pouco por todo o país, do Alentejo aos Açores. A iniciativa é da Associação Aldeia e o programa é excepcional não só pelo local mas também por ser tão completo. As inscrições já estão abertas. Read more →

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