lã dos açores

ovelha

lã do faial

A lã é assim, parte dela ou vai para o lixo, ou largá-la ao lume, ou assim, que isto aqui na ilha não tem consumo nenhum, está a ver? (…) Eu não vejo utilidade nenhuma nisto… Antigamente parece que fiavam isto para fazer meias, fazer sueras, para fazer isto, para fazer aquilo, e cheguei a dar a uma senhora (…), ela disse que ia fazer meias disto, não sei se chegou a fazer ou não chegou a fazer… ainda levou uma saca ou duas daquilo, para levar e desfiar e amanhar para poder fazer as coisas…

Este excerto da nossa conversa com o sr. Eduardo de Flamengos (Faial) é semelhante ao que se ouve à grande maioria dos pequenos produtores de ovelhas do país, seja no continente ou nos Açores. Tem-se ovelhas para comer um borrego de vez em quando, ou para adubar a terra, ou para fazer companhia, ou para receber os subsídios da Comunidade Europeia, mas não pela lã que produzem, que essa não só não tem aproveitamento como dá trabalho por ter de ser tosquiada pelo menos uma vez por ano. No entanto a lã das ovelhas do Faial e do Pico é macia e limpa, por os animais serem em geral criados em pastos cobertos de erva fresca, e longa, frisada e muito fina, as melhores características que pode ter para ser fiada facilmente e vestida junto à pele. Falta quem dê por isso e ponha novamente a trabalhar os fiandeiros (rodas de fiar) e fusos esquecidos de casa da avó.

O tempo que tivemos não chegou para perceber que raças autóctones existem (se existem ainda) nos Açores, até porque as que se vão vendo nos pastos são diferentes umas das outras (a da fotografia de cima parece uma romney marsh), e porque os criadores com quem falámos, por não as criarem para vender, desconheciam a raça das suas próprias ovelhas. Ainda assim, fiquei a saber que os rebanhos andavam até há poucas gerações soltos nos baldios das terras altas, e que em Setembro as comunidades se juntavam para fazer a apanha e tosquia dos animais, num dia que era também de festa e por isso certamente encerrado com balhos de chamarritas noite dentro. Read more →

fiar na ilha do Pico

fiar na ilha do Pico

Já não é fácil encontrar teares na ilha do Pico. Na escola de artesanato de Santo Amaro o último foi desmantelado há já vários anos e pouco mais se faz hoje em dia senão peças decorativas em escama de peixe e miolo de figueira. Também deixou de se fiar: as meias de lã para os ranchos folclóricos (que as usam com as tradicionais albarcas) vêm em geral de outras ilhas e a suera (da sweater norte-americana, a camisola de lã usada pelos pescadores) é só peça de museu. Em São João, no sul da ilha, encontrámos a D. Avelina e o seu fuso. Aqui fia(va)-se com o fuso apoiado, técnica que nunca vi usar no continente mas é comum por exemplo no Tibete e no Peru. A lã não é lavada antes de ser cardada (sobre a lã dos Açores escreverei depois), nem se usa roca (tal como na Serra de Montemuro). O fuso é semelhante aos que se usam em Trás-os-Montes (de tipo 1 na tabela estabelecida por Benjamim Pereira), mas aqui a roda (volante) tem um diâmetro maior e é mais fina. O fuso da D. Avelina tinha ainda a particularidade de ter incisos dois sulcos helicoidais, um para fiar e outro para torcer o fio (outro vídeo que fica para depois).

feedback

polainitos

No Verão conheci a D. Teresa Simões, exímia fiandeira e fazedora de meias de Bucos. Vim aprender as grades de sete e de nove malhas, os corações e a espinha de peixe das meias que os homens daqui (e não as mulheres) traziam dentro dos socos. Trazia comigo umas meias meias feitas à maneira da Serra de Montemuro que a intrigaram. Ensinei-lhe o misterioso ponto da concha, ficámos amigas. Agora, no meu regresso a Bucos, ofereceu-me uns polainitos nesse ponto, feitos na lã por ela fiada das ovelhas mais meirinhas. Assim circularam desde sempre os pontos e as técnicas, entre segredos e amizades de mulheres de sítios diferentes. Assim se constrói a tradição.

casa de trabalho de nordeste

nordeste

nordeste

Em Nordeste, S. Miguel, ainda se trabalha lã local para fazer mantas, algumas malhas e trajes para os grupos folclóricos (em que a lã é agora muitas vezes substituída por fibras sintéticas). Na Casa de Trabalho e Protecção à Juventude Feminina do Nordeste o fio é criado pelos processos manuais de cardar, fiar e torcer, e foi lá que, com a gentil D. Filomena, aprendi a fiar na roda. Read more →

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