f. vive num prédio antigo

f. vive num prédio antigo de um bairro antigo de lisboa. f. é velha e mais velha ficou depois de um achaque violento há coisa de dois anos. f. ouve mal, vê pior e tem um gato que morre de medo dela. f. sai de casa quase todos os dias mas já não dá conta do recado.

r. vive num prédio antigo de um bairro antigo de lisboa. r. é nova (ainda), e agora que é mãe não se importa de fazer ondas.

r. vive por cima de f. e reparou há muito que na corda de f. nunca há roupa a secar. f. já não dá conta do recado. r. tem medo do sujo. o sujo vem por aí acima.

r. puxa pela cabeça (quem toma conta de quem já não dá conta do recado?).

r. abre a lista telefónica, encontra um número de apoio ao idoso. liga e conta a sua história. é uma história muito contada, em muitos prédios antigos de muitos bairros antigos. dizem-lhe que tem de ir ao centro de saúde falar com o delegado de saúde da área. r. liga para o centro de saúde e diz que quer marcar um encontro com o delegado de saúde. dizem-lhe que escreva antes uma carta. r. insiste. dizem-lhe que escreva. r. pergunta em que dia da semana está o dito delegado no centro. insiste.

r. aparece no centro de saúde e descobre a custo o caminho para o gabinete do delegado que é uma delegada. a delegada ouve a história e não reage, como quem acha que nos prédios antigos dos bairros antigos é mesmo assim. a delegada, por detrás do seu rímel, diz que não lhe compete resolver o assunto. r. que escreva para a câmara municipal de lisboa.

r. regressa a casa e lê no jornal que a câmara municipal demorou anos a resolver o problema idêntico de x que vivia num prédio antigo de um bairro antigo de lisboa.

r. liga para a câmara. ninguém atende. insiste. ninguém atende.

r. resolve ligar para a junta de freguesia. dizem-lhe que não vale a pena ligar para a câmara. dão-lhe os números de dois centros sociais da misericórdia e os nomes das respectivas directoras.

r. liga para o primeiro. chega à fala com m. que lhe diz que deve dirigir-se à delegada de saúde. r. conta-lhe que a delegada delegou a responsabilidade na câmara. m. revela que a delegada delega sistematicamente todas as responsabilidades. r. insiste, mas agora humilde. invoca a sua condição de mãe. m., solidária, resolve mais uma vez assumir deveres que não são seus e compromete-se a ajudar.

m. telefona a r. e vai a sua casa acompanhada de duas agentes da psp. m. inteira-se dos pormenores e explica que vai conversar com f. para lhe propor o chamado apoio domiciliário (que é tomar conta de quem já não dá conta do recado). m. e companhia descem a escada e batem à porta de f. falam com ela a língua dos velhos que ouvem pouco e vêem menos. conversam com f. sem medo do sujo que já quer sair porta fora.

r. admira-se. m. está a resolver o problema.

eu assinei

“what follows is a petition that will be forwarded to president bush, and other world leaders, urging them to avoid war as a response to the terrorist attacks against the world trade center and the pentagon this week. please read it, sign below, and forward the link to as many people as possible, as quickly as possible. we must circulate this quickly if it is to have any effect at all, as the congress of the united states has already passed a resolution supporting any military action president bush deems appropriate.”

isto complica-se

estou aqui, estou a ligar para a apav. em vez do manoel de oliveira, passei mais um serão na esquadra. a realidade supera sempre a ficção. começo a ter medo de andar a pé.

mugged

got mugged for the first time in my life last night.

ainda bem que tinha amigos por perto – o pedro, o filipe – para me darem um abraço e uma chávena de chá…

…e ainda bem que também há amigos lá longe – o daniel, o bruno [“i cant believe you got mugged! im glad to hear youre ok though… what the hell is going on on this stupid planet?”], o phil* [“Wow! Are you ok? Mugged? What the hell is the world coming to?”].

…que mundo estranho.

eu emigro

foi preciso viver quase 26 anos em lisboa (tirando quase dois por outras também lusas mas mais sossegadas paragens) e foi preciso viver dois meses no primeiro mundo (sim, em ny, onde milhares de pessoas acabam de morrer num atentado, mas onde o passaporte que perdi algures na east village me veio parar novamente às mãos e onde andei sozinha nos transportes suburbanos às duas da madrugada sem me sentir minimamente insegura), foi preciso voltar e ir calmamente ao cinema numa noite de domigo para ser assaltada pela primeira vez na vida. e não, o pior não foi o assalto nem ficar sem telemóvel. o pior não foi sequer a sub-chefe santana, da esquadra do bairro alto, a dactilografar a uma palavra por minuto a queixa que não consegui ainda apresentar (por causa de um cadáver entretanto aparecido dois quarteirões adiante). é possível acreditar que não há formulários, que não há ‘procedures’, que cada queixa é redigida num documento em branco, em texto corrido, de uma forma totalmente medieval (and believe me, i know what i’m talking about)? é possível acreditar que morreu uma pessoa dentro de um carro enquanto eu e o pedro éramos assaltados, e que uma hora depois a polícia, entre telemóveis e walkie-talkies sem bateria, ainda não sabia o que fazer? e mais: não, a psp não tem site oficial, e a única coisa semelhante que descobri é provavelmente o pior exemplo de lixo electrónico que vi nos últimos tempos e que não, parece que o ministério da admnistração interna (será que existe) também não tem site nenhum?