passarinho do quintal

passarinho
passarinho

É assim quando se tem um quintal. Calha-nos de vez em quando o episódio do passarinho que caiu do ninho, que ainda não sabe comer sozinho e não voa lá muito bem. É toda uma experiência filosófica para as crianças da casa, que não pensam em mais nada o resto do dia. – Tem fome? tem saudades da mãe? devíamos tê-lo deixado na boca do gato que o trouxe? e se ficássemos com ele para sempre? devemos salvar o passarinho que não soube não ser apanhado? vamos fazer-lhe um ninho. está certo prendê-lo na gaiola? está certo roubar ao gato o brinquedo novo? vamos dar-lhe um nome. vai morrer? …

amor de pastor

pompom
pompom

Quem por aqui vai passando já se deve ter cruzado com algum de muitos posts sobre o hábito que sobrevive em algumas aldeias da Serra da Estrela de enfeitar os rebanhos com pompons (lá são bolras, ou pêras, ou medronhos) em ocasiões especiais (normalmente romarias associadas aos ritmos da transumância). Ora no ano passado eu e as meninas decidimos que para subir a serra a preceito com os pastores e o gado também tínhamos de fazer alguns pompons e de oferecer um como lembrança ao maioral. Sem querer fomos promovidas a fazedoras de pompons de grande categoria e este ano vejo-me a braços com uma encomenda: quarenta pompons para enfeitar um rebanho que há-de ir a preceito nas romarias que aí vêm (é agora, entre Maio e Junho, que acontecem estas festas quase desconhecidas de todos os que não são pastores). Lembrei-me que podia pedir ajuda: não somos só nós que gostamos de fazer pompons e há de certeza mais quem tenha restos de lã colorida em casa e vontade de contribuir para que esta tradição continue viva. As regras são poucas e simples: os pompons têm de ser grandes (os nossos têm 85mm de diâmetro) e densos, coloridos e, sobretudo, muito resistentes. O meu conselho é atá-los não com lã mas com fio de norte, deixando umas pontas de fio bem compridas para que possam depois ser colocados nos bodes. Podem ser feitos à mão como os fazem os pastores, com cartão ou com máquina, o que interessa é que cheguem à Retrosaria antes do fim de Maio. Alguém alinha?

PS: convém fazer os pompons aos pares, para se usarem um de cada lado como se vê na foto de baixo.

pêras e cabeçadas

ela

E
E

Estava absorvida na leitura, mas ouvi vagamente falar de construir um tamagotchi verdadeiro. Uns minutos depois, posso usar esta caixa? Vou buscar a fita-cola. É assim desde sempre e a culpa não é minha. Acho que só talvez a militância anti A4 e os materiais em sistema de bar aberto tenham alguma coisa a ver. Ou não. Desenha com a tesoura e com a máquina de costura, organiza bailes, constrói, vai pelo papel fora, a galope, sem horário e sem mestre.

E
E

d’ornellas

d'ornellas
d'ornellas

Uma marca, umas botas. Um modelo concebido e apurado em cada um dos seus pormenores (o fecho impecável na traseira, a pala presa pelo atacador, a cor e textura da pele) para servir como uma luva. E para durar, porque o que se quer numas botas assim é que durem muito tempo. São obra do criador de cavalos Lusitanos Gonçalo d’Ornellas e não sendo já um segredo é como se fossem porque ainda não estão nas lojas. Encomendam-se directamente por email ou via facebook (digam que vão da minha parte) e depois já não se tiram dos pés.

d'ornellas
d'ornellas

mantas alentejanas
ost

Três velhas mantas alentejanas encontradas de surpresa numa perfeita manhã de sábado, resgatadas entre sorrisos cúmplices, re-destinadas a aquecer-nos à noite, que por muito que digam que picam, que pesam, ninguém me convence que haja coisa mais bonita e mais quente para ter na cama.

Duas mulheres, duas vozes que tenho trazido comigo. Dantes comprávamos discos para os ouvir. Agora é tão fácil ouvi-los que demasiadas vezes não os compramos. Estes trouxe-os comigo como quem contribui para uma campanha de crowdfunding, para dizer à Gisela João e à Capicua obrigada, gosto tanto do que fazem.

les plus beaux jacquards du monde

100 idées
100 idées

Des cristaux de neige deviennent les fleurs d’un kaléidoscope fantasque. Des animaux hiératiques marchent à l’étoile. Un oiseau-dieu échappe au piège des mailles et prend son vol de feu sur la cordillère des andes. La géométrie se colore, délire et s’en va dériver loin des mornes sentiers euclidiens. Tout cela par la magie de la laine, des aiguilles, de l’imagination réunies. Tout cela grâce au jacquard, qui existait bien avant qu’un tisserand ne lui donne son nom, vers 1800, par le biais curieux d’une machine à tisser.

Em Outubro de 1975, começava assim um artigo do número 24 da revista 100 idées sobre as malhas a cores de todo o mundo (por coincidência são o dia, mês e ano em que nasci).
Trinta e oito anos depois as camisolas em jacquard, sem nunca terem desaparecido, voltaram em força às montras e as imagens deste artigo parecem tiradas de um dos mais recentes livros japoneses de tricot. Os países do norte da Europa usam-nas (sempre as usaram?) com mais orgulho, reinventam-nas, fazem delas património, identificam-se com e por elas.
Um exemplo da Islândia, de onde vêm as camisolas Lopi da segunda fotografia:

The Icelandic financial crisis and recovery could be seen as the most expensive group therapy of all time. The Icelanders had five years to come together and ask themselves: Who are we, and what is our place in the world? (…) Since 2008, she says, “suddenly everyone started to knit Icelandic sweaters like crazy.” Indeed, young Icelanders do seem to walk around less frequently in cheap labels like Zara and H&M than they do in patterned hand-knit sweaters. “They are warm, they are beautiful, they are very Icelandic. There is something comforting about them,” Ragga says. She also sees them as the antithesis of suits, the globalized uniform of bankers.

de Out of the Abyss: Looking for Lessons in Iceland’s Recovery.

Na Dinamarca, a série de televisão The Killing criou um verdadeiro fenómeno em torno da camisola usada pela protagonista, uma camisola feita à mão em lã e com motivos tradicionais das ilhas Faroe (sim, lã daquela que pica mas isso não fez diferença nenhuma), que se tornou quase mais popular do que a própria série.

The knitwear also has personal memories for the actor, who was brought up in the 70s in a very hippy-like environment in Copenhagen. “I wore this sweater and so did my parents. That sweater was a sign of believing in togetherness. There’s a nice tension between those soft, human values and Lund being a very tough closed person – because to me it says that she’s wanting to sit around a fire with a guitar; it gives a great opposite to her line of work and behaviour.”

The Killing: Sarah Lund’s jumper explained

O sucesso foi tal maneira que a designer que a concebeu gere agora uma marca de sucesso, a Gudrun & Gudrun e que a camisola é mencionada no site oficial do turismo da Dinamarca. É o poder do jacquard, a fascinar desde há mais de quinhentos anos.

keito dama
lopi sweater

Imagens:
1. Camisolas de inspiração dinamarquesa na revista 100 Idées n.º 24, de Outubro de 1975.
2. Camisolas de inspiração islandesa na revista 100 Idées n.º 24, de Outubro de 1975. Sobre a história das camisolas Lopi, ver Nation in a sheep‘s coat: The Icelandic sweater.
3. Anúncio de uma marca norueguesa de lã (1956) no número 160 da revista japonesa Keito Dama (Inverno 2013/2014).
4. Camisola de inspiração islandesa no livro japonês Traditional Knits of the World 1: Iceland Lopi (2013).

coser

coser
coser

A minha melhor amiga está quase a ter um bebé. É o melhor pretexto para voltar a fazer roupa pequenina, daquela que um pedaço de uma tarde chega para levar do início ao fim. A roupa feita por nós tem todos os poderes mágicos do amor que investimos nela. Mas também tem outra coisa: consegue usar-se durante muito mais tempo, mesmo numa criaturinha em crescimento acelerado. O molde destas calças reversíveis, que estreei há quase seis anos, deve andar perto da perfeição. Usando elástico caseado na cintura e dobras nas pernas, as da A. duraram um ano.

Molde do livro 歩きはじめた子どものために.
Tecidos: bombazine Denyse Schmidt e algodão estampado.

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pêras e cabeçadas: lavores masculinos

o bode enfeitado

o bode enfeitado

Depois de feitos os furos, as pêras ou bolras (borlas) já podem ser seguras aos cornos dos bodes. As mais antigas eram presas com tiras em couro e as mais recentes são-no com abraçadeiras de plástico. Na colecção do Miguel há de umas e de outras, feitas por várias gerações de pastores. Depois de as borlas estarem postas, os cornos são enfaixados com fitas de cetim. No fim é preciso coser as pontas das fitas para que não se soltem.

(Deve ter sido há muito, muito tempo que um pastor se lembrou pela primeira vez de enfeitar os animais com pompons…)

o bode enfeitado

o bode enfeitado

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

lavores masculinos

lavores masculinos

Os prédios em obras não se vestem sozinhos.
Alfaiates dos andaimes ou anónimos Christos ou pescadores de piropos, são homens de capacete que cosem a roupa aos andaimes, ponto por ponto. Uns despacham a tarefa, outros fazem-no como quem borda, com paciência e esmero. Adoro apanhá-los em flagrante.