os pompons

pompom

pompom

Este ano a Câmara de Seia tomou a iniciativa de integrar a transumância que fiz em 2011 na recém-nascida Grande Rota da Transumância. Todos os que quiseram puderam acompanhar uma parte do caminho, entre Seia e o Sabugueiro. A A. e a E. também vieram e aguentaram o calor e os quilómetros pelo meio da serra como gente grande. Depois de tanto ouvirem falar de pêras e cabeçadas e depois da estadia em Fernão Joanes, onde as ovelhas em Maio parecem árvores de Natal, quiseram ir a rigor. Passámos a manhã dos preparativos a fazer grandes pompons coloridos, com beiroa de muitas cores e estes engenhos deliciosos. Read more →

pêras e cabeçadas

o bode enfeitado

o bode enfeitado

o bode enfeitado

Os últimos adereços do bode são a cabeçada e o chocalho. As cabeçadas são feitas a partir de fitas ou tecido vermelho e decoradas a gosto do autor com aplicação de mais fitas, bordados ou borlas. Encaixam no focinho e atam-se no alto da cabeça com dois pares de atilhos. Os chocalhos dos bodes são o orgulho do pastor. Chamam-lhes a loiça grande e são usados apenas nos dias de festa e durante a transumância. São objectos valiosos e muito estimados, alguns com várias gerações de uso e outros acabados de trazer de Alcáçovas, onde a Chocalhos Pardalinho continua a fazê-los um a um, à mão, com os desenhos e iniciais que cada pastor encomenda.

o bode enfeitado

pêras e cabeçadas: os furos

preparar o bode

preparar o bode

Sair de Lisboa Domingo de manhã rumo ao Fundão, para a meio da tarde irmos ao encontro dos pastores com quem há dois anos subi à serra. Fomos vê-los preparar os últimos bodes e cabras para a romaria dos animais em honra de São João, na Folgosa da Madalena, porque este ano o rebanho foi a rigor.
Para segurarem firmemente uma fileira de borlas (ou pêras) gigantes, os cornos têm de ser furados. O processo é rápido e indolor, mas segurar um bode vigoroso e fazer-lhe quatro pares de furos simétricos com um berbequim não é para qualquer um. Read more →

fernão joanes (4)

joaquim vendeiro

ti zé camilo

tosquiada

Em Agosto prometemos voltar a Fernão Joanes para assistir à festa da Senhora do Soito e filmar uma tosquia feita pelos especialistas sobreviventes na arte de bordar ou enramar as ovelhas, o Ti Zé Camilo e o Ti Aristides. No tempo em que era pastor e tosquiador, o Ti Zé Camilo não via enfeitar as ovelhas nem assistia à festa. No segundo Domingo de Maio, data em que esta se realiza, estava ele no Alentejo. Era lá, pelas bandas de Portalegre, que começavam os seus dois meses de trabalho a tosquiar ovelhas, avançando para norte de rebanho em rebanho até chegar novamente a casa. Sempre à tesoura, a maioria era tosquiada rapidamente, de um lado ao outro. Mas pelo menos o carneiro tinha um tratamento especial: era enramado, como os cajados e tantas outras peças de arte pastoril, com motivos geométricos cuidadosamente bordados com a ponta da tesoura. O tosquiador fazia-o por brio, em competição com os restantes, às vezes contrariando o patrão que queria um serviço rápido, outras vezes recebendo da dona da casa uma compensação especial pela obra criada.

bordaleira

ti aristides

ti aristides

Não resisti à pergunta óbvia da origem dos motivos usados e o Ti Zé Camilo não se atrapalhou: vêm das cuecas das raparigas. Depois da risota geral corrigiu: dos saiotes que as raparigas da sua juventude usavam, com as suas barras de rendas e biquinhos. Já se sabe que os bordados e as rendas emprestam desenhos uns aos outros, e este não é excepção.

A prática de bordar as ovelhas raramente foi referida na bibliografia que conheço. Aliás a principal referência é a que aparece na Cartilha do Tosquiador, onde é considerada uma prática condenável. Mais recentemente, há imagens (sem texto) de uma tosquia semelhante à que vimos ontem no livro A Transumância e Fernão Joanes. Sonhos Transumantes (Guarda, Câmara Municipal da Guarda e Junta de Freguesia de Fernão Joanes, 2004).

ti zé camilo

ti zé camilo

beiroa

beiroa

beiroa

Primeiro veio a branca, com o seu veio castanho pelo meio. Tricotei-a, tingi-a, fi-la andar por aí. Juntou-se-lhe depois a preta. Há pouco menos de um ano chegaram as primeiras cores, quase todas tranquilas, como se tivessem saído de um tapete de Arraiolos.
Este ano a paleta é outra, com quatro cores cores muito vivas e três mais tranquilas, todas pensadas para serem usadas juntas e com uma piscadela de olho aos pantones da temporada. E não, a Beiroa não é o fio mais macio de todos os tempos, nem veio do outro lado do mundo de ovelhas criadas para darem a maior quantidade de lã possível, nem foi quimicamente esfoliada na fábrica para parecer o que não é. Veio aqui mesmo da Serra da Estrela, das ovelhas Bordaleiras que levam boa vida junto aos seus pastores.

Beiroa
Beiroa 2 Ply

fernão joanes (2)

Ti Aristides

Ti Aristides

Fernão Joanes, na Guarda, é uma aldeia pequenina a quase 1000m de altitude. Os rebanhos são poucos hoje em dia porque os pastores envelheceram, mas as histórias do que se passava há 30 ou 40 anos são muitas e fascinantes. Por ali pouco se vêem os casacos de raxa e capas de Burel do outro lado da Serra – quando sai com as ovelhas, o pastor leva o cajado e um cobertor de papa (Maçainhas é ali mesmo ao lado). O rebanho conhece as riscas da manta e segue-a, obediente, que o pastor a sério é o que anda à frente do rebanho e não atrás dele. E se o corpo se ausenta, a manta e o cajado trabalham sozinhos. Read more →

são joão das ovelhas

são joão das ovelhas

a loiça

Ontem de madrugada o rebanho que acompanhei há um ano serra acima na companhia da Diane voltou a partir na rota da transumância. Dias antes tínhamos estado na Folgosa da Madalena para assistirmos e filmarmos a romaria do São João das Ovelhas. É uma festa de pastores para pastores, sem turistas à vista, em que os rebanhos, em passo de corrida e acompanhados pelos donos, desfilam à vez em volta da capela da aldeia, três voltas num sentido e três no outro (para os animais não ficarem tontos). Vêm a pé de várias aldeias, e repousam tarde fora nos campos vizinhos até o calor abrandar. É nessa altura que chegam à Folgosa, onde as famílias os esperam, e a festa acontece. Quase todos trazem os bodes enfeitados com a loiça grande, os chocalhos maiores e mais valiosos, e alguns mantêm o hábito (que vi finalmente ao vivo depois de um ano de espera) de os decorar com as pêras e cabeçadas sobre as quais escrevi antes. Não sei se há por cá outros pastores tão orgulhosos como os da Serra da Estrela, sempre aprumados nos seus casacos de raxa e de cajado na mão. Eu emociono-me sempre que os vejo. Read more →

o chocalho

o chocalho

Foi em boa parte graças a este homem que no Verão tive, com a Diane, uma das experiências mais marcantes da minha vida. Se fosse antropóloga teria de lhe chamar informante, assim digo com orgulho que é um amigo. Quis oferecer-lhe uma prenda que lembrasse este Verão. Foi feita de encomenda pelos Chocalhos Pardalinho, que um chocalho para oferecer a um pastor da Serra da Estrela não é igual ao que se daria a um pastor de outro lado: são diferentes os tamanhos consoante os animais e alturas do ano, são diferentes os feitios, é diferente a coleira com os seus atilhos de couro em vez de fivela. Todos nos emocionámos no momento da oferta.
É uma prenda importante, disse o António, com os olhos mansos que traz sempre a espelhar o céu.

pêras e cabeçadas

a caminho do montemuro

o tempo dos bodes

Em véspera de partida para férias, o trabalho não permitiu que acompanhasse a descida da Serra, adiantada pelo mau tempo em relação ao previsto, mas cheguei a tempo da última caminhada e do convívio. Com as férias regressaram à terra vários ex-pastores e ex-futuros pastores que a vida levou a outros países. Também eles desceram a serra com o rebanho, fundindo-se no grupo como se nunca tivessem deixado a Serra. Com um deles aprendi mais sobre a tradição de enfeitar os bodes durante a transumância. Zé, há muitos anos emigrado no Luxemburgo, fez várias vezes a transumância para a Serra de Montemuro, uma caminhada de cinco dias que hoje dizem já nem ser possível por as novas estradas não terem preservado os acessos necessários à passagem dos rebanhos. Nesse tempo o isolamento a que os da Serra da Estrela ficavam confinados, tão longe de casa, implicava por exemplo que levassem um homem só para cozinhar para os outros. Os pastores tinham brio: competiam entre si pelo aspecto dos rebanhos, exibiam a obediência do gado, enfeitavam os focinhos dos bodes para a caminhada com as cabeçadas ou cabrestos e os chifres com uma enorme quantidade de pêras (borlas) ou pompons e campainhas (chegavam a ter 10 campainhas por chifre, para além de um enorme chocalho ao pescoço). O nosso interesse pelo tema fez sair das gavetas fotografias de há dez e há vinte anos e um saco de pêras por estrear, feitas pelo Zé nos tempos livres. O enfeite dos bodes é uma arte exclusivamente masculina. São os homens que cosem e bordam as cabeçadas e que fazem as pêras coloridas, numa terra em que toda a lã é vendida a intermediários e as mulheres não a fiam nem fazem meia. Comoveu-me a imagem do Zé no Luxemburgo a fazer estas lindas pêras de lã colorida presas com atilhos plásticos para sacos. Prometeu-me que no ano que vem, quer estejamos lá para ver ou não, o rebanho do maioral Miguel voltará a subir a serra enfeitado como dantes. Read more →

convívio

a família de visita

a foto

Ao Domingo a família sobe a serra e junta-se aos pastores. Trazem-se mantimentos, trocam-se as roupas, convive-se e conversa-se tarde fora. Há cobertores e velhas capas no chão para sentar e para tapar as crianças mais pequenas, que fazem a sesta abrigadas pelas pedras. Entregamos fotografias da subida, que nos ganham a estima das mulheres. Come-se um bolinho, melhor ainda com uma fatia de queijo da serra do ano passado, já rijo (para mim ainda melhor que o amanteigado), bebe-se um copo de tinto do garrafão. A hora da partida é dada pelas cabras, que sentem chegado o tempo da refeição do fim da tarde. O rebanho põe-se em marcha sozinho, os pastores acompanham. Read more →