caneleiras poveiras

caneleiras poveiras

a sara no pico

As caneleiras poveiras do livro foram inspiradas num par de meias que, em 1967, Sebastião Pessanha trouxe da Póvoa de Varzim. Tinha 75 anos e felizmente continuava a reparar em coisas a que não muitos outros deram importância. Descendentes delas, as versões para turista das meias dos pescadores do Norte ainda se encontram por aí. E também há quem saiba fazê-las bonitas. À falta de imagens antigas que mostrem as meias a uso com os motivos à vista, suponho que as estrelas, espinhas e pássaros às cores ficassem escondidos por baixo das calças, alegrando não os olhos mas o coração.

As minhas caneleiras, que têm os motivos bem à vista para que não fiquem esquecidos nas reservas do museu, foram feitas com estas lãs e foram usadas pela Sara, na Ilha do Pico, ao som da Chamarrita.

These legwarmers from my book were inspired by a pair of fisherman socks from the collection of Sebastião Pessanha (b. 1892), a portuguese ethnographer who (unlike many others) paid attention to knitted artifacts and knitting tools throughout his life. Coarse touristic versions of this type of socks are still handmade and sold today, some of them bearing interesting stranded patterns.

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fazer a liga para o cuco

No Ribatejo, no mesmo fim-de-semana em que encontrámos um grande campo de tulipas e um mini tocador de cana rachada, conhecemos a D. Lurdes Santiago, fazedora de meias nascida em Almofala, mesmo junto a Espanha. Entre outras coisas contou-nos como por lá se aprendia a fazer malha nos seus tempos de menina:

Pegavam em duas agulhas e num novelo de linha e davam às crianças para fazer, quando eram pequenitas. E então diziam assim: “vais fazer a liga para o cuco, que senão o cuco tira-te os olhos!”. (…) Compravam logo uma cestinha pequenina (…), metiam as duas agulhas, novelo e as avós ensinavam. Faziam, chamavam elas, a liga: era só a malha de liga por dentro e por fora, às vezes com quatro, cinco malhas, às vezes as malhas eram desta altura, mas faziam. E assim aprendíamos.

Um dos momentos da conversa de que gostei mais foi a descrição do jogo que as raparigas faziam para ver quem fazia malha mais depressa. Vale a pena ouvir.

Two weeks ago we’ve met Mrs. Lurdes Santiago, born in Almofala, a village very close to the spanish border. She told us how in her time little girls were given a small basket to carry on their arm, a ball of cotton yarn and a pair of hooked needles. Their grandmothers would say, half joking: “You’re going to knit a garter for the cuckoo, or the cuckoo will come and take away your eyes”. So they started by knitting a simple garter, purling all stitches (the purl stitch is the first and easiest stitch using the portuguese method).

a pleasing array of facts

campo grande

meia

ribatejo

By putting these questions to friend and foe, rich and poor, high and low, the city-bred and the country-bred, and by writing innumerable letters to dwellers in the mountains and lowlands I have collected a pleasing array of facts, names and patterns; but what are these by the side of the facts, names, and patterns that might still be collected?

Em 1912, Eliza Calvert Hall colocava a si própria esta questão na introdução ao seu A Book of Handwoven Coverlets (quem conhecer as mantas de puxados açorianas encontrará aqui muitos padrões familiares), fruto de um pioneiro trabalho pessoal de recolha em vários estados dos EUA. Hoje, a bordo da camioneta que me levou ao Ribatejo para um dia de revelações, revi-me novamente nestas palavras. Porque o livro não é um fim mas sim um início, um pé na porta que diz isto é assunto, isto merece ser olhado, estudado e exposto.

a boina do corvo

boina do corvo

É uma das minhas páginas preferidas do livro. Uma fotografia dos inícios do século XX, desencantada nos arquivos do New Bedford Whaling Museum, de um Corvino. Na cabeça leva a boina do Corvo, uma das pérolas das malhas açorianas cujas origens se perdem no tempo e resistem quase que por milagre até aos nossos dias. Em 1924 Leite de Vasconcelos deu por elas e trouxe para o Continente uma que espero poder um dia ver ao vivo (o retrato que lhe tiraram ao lado dos homens do Corvo e suas boinas está umas páginas mais à frente). No último capítulo está a receita.
Gonçalo Tocha, o realizador de É na Terra não é na Lua, pôs a boina nas capas dos jornais. Adoptou a versão com pala (que ainda não experimentei fazer) e até publicou sobre ela o vídeo que partilho aqui em baixo.
Mais recentemente, a marca portuense de roupa La Paz (que merece um post só para ela) fez da boina peça chave da sua colecção de Inverno. E criou uma nova, por ela inspirada, para o próximo ano.
Finalmente, quem quiser comprar uma boina do Corvo mesmo feita no Corvo (mas em poliéster) pode ir directamente à fonte.

This is one of my favorite pages in the book. A portrait of a young man from Corvo Island dating from the beginning of the 20th century, found in the archives of the New Bedford Whaling Museum. He is wearing the traditional knitted beret from Corvo, which local men have worn since at least the 19th century (the Ravelry page for the pattern is here). The making of one of these berets is the main narrative element in the documentary É na Terra não é na Lua by Gonçalo Tocha. And last year the portuguese fashion label La Paz made it part of their beautiful winter collection. Read more →

quase

rever rever rever

E agora está mesmo quase. As últimas revisões foram feitas e a capa foi fechada. Os sites das grandes livrarias começaram a anunciar o livro e na Retrosaria também já se aceitam encomendas (e que bom foi vê-las chegar, como um voto amável de confiança de quem acredita que vai gostar de o ler). Amanhã parto para o norte e, se o céu não nos cair entretanto em cima da cabeça, depois de uma ida à RTPI na manhã de terça-feira assisto à impressão das páginas na tarde do mesmo dia. Se for mesmo assim regresso a Lisboa feliz.

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#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

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