vida na cidade

vida na cidade

Têm sido uns dias invulgarmente domésticos, a limar as últimas arestas do livro*. Estas semanas custam a passar. Em vez de o processo ser como o de um bolo, que se põe no forno e se vai lá buscar algum tempo depois, já pronto, é mais como o de um gelado: bate-se bem, põe-se no frio, vai-se buscar e bate-se outra vez e volta-se a pôr no congelador e repete-se o processo vezes sem conta para ele ficar macio e sem cristais de gelo por dentro. A minha paisagem boa parte do dia é esta. Tem A Vida no Campo, o disco do Tiago que também está quase a sair, as etiquetas da Mirandesa e da Bucos, uma alpaca e um pastor, uma menina do Barroso ou lá perto…

*O livro já aparece em pré-venda nalguns sites, mas vou esperar até poder mostrar a capa para fazer o mesmo na Retrosaria.

cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

Uma das prendas mais bonitas que tive nos últimos tempos foi esta Cartilha do Tosquiador de 1954, oferecida pela Rita Palma. Trata-se de um manual criado com o objectivo de instruir profissionalmente os manajeiros e tosquiadores de forma a valorizar o mais possível a lã através da observação de maiores cuidados com os animais, com o processo da tosquia e com a conservação dos velos, questões que a bibliografia portuguesa dedicada aos lanifícios desde há décadas aponta como principais motivos de não se produzirem industrialmente no país lãs de tão boa qualidade como no estrangeiro.
A Cartilha teve a sua primeira edição em 1948 e foi sendo sucessivamente actualizada. A versão de 1999 está disponível para download na mediateca da DGADR, mas como só funciona em computadores windows ainda não a consegui ver. É uma excelente introdução ao tema da lã em Portugal e útil mesmo para quem esteja só à procura de informação sobre como tirar o melhor partido de um velo que trouxe da aldeia (de que parte do corpo vem a melhor lã, como distinguir se se trata de uma lã de tipo merino, cruzado ou churro, etc.).
É sempre interessante ver como por cá este tema raramente saiu das publicações técnicas como esta enquanto noutros países ele se tornou muito mais mainstream. O The Wool Book, já aqui várias vezes citado, ou o mais recente The Knitter’s Book of Wool são apenas dois de muitos exemplos possíveis.
Para mim a passagem mais interessante do texto é a que refere a prática ainda corrente (em 1957) de bordar as ovelhas, como ouvimos descrever em Fernão Joanes: a tosquia (…) que fazem nos “cabrestos” e em animais para feira, cortando a lã a várias alturas e formando desenhos mais ou menos caprichosos, essa é uma tosquia condenável. Tem a finalidade de embelezar o animal, mas só serve para estragar e desperdiçar lã (p. 26). Ovelhas bordadas… espero vê-las este ano!

PS: Disponível na Mediateca da DGADR, no muito mais simpático formato pdf, estão também A Cultura do Linho, de J.C. Estevéns Lança e J. M. Fernandes Baptista e, sobre lã, o Glossário de Termos Ingleses da Tecnologia Lanar, de José Chabert e Luís Pinto de Andrade. Read more →

fazer

#knitting

#raglanify in progress #knitting

Já estava prometido a várias pessoas: um workshop para aprender a tricotar camisolas sem costuras. Pareceu-me que a melhor maneira de o fazer seria aplicando a técnica numa peça tão pequenina que pudesse ser terminada em poucas horas. Aposto que vai ser divertido.
Entretanto a camisola da E. avança (tenho uma ajudante).

#knitting

raglanify kureyon

raglanify kureyon

raglanify kureyon

Em 2004 fiz uma camisola para a E. com Kureyon. Ela usou-a muito, depois a irmã e agora é a prima pequenina que anda com ela. Está a ser um Inverno de camisolas – vou na terceira de quatro planeadas. Voltei à Kureyon (diz-se curei-ón, que o nome japonês vem da palavra inglesa crayon), e é mais uma feita com ajuda do Raglanify. Como a E. gosta de usar a outra do avesso, nesta deixei de propósito o avesso do lado de fora. No Ravelry está aqui. Read more →

saber mostrar

giacometti

Três fotografias de Michel Giacometti no catálogo de uma exposição de 2010 no Museu da Música Portuguesa (80 Anos 80 Imagens). Pertencem a um espólio com mais de 3100 registos fotográficos, na sua maioria incorporados em muito más condições de conservação e que foram felizmente objecto de restauro. As legendas das duas de baixo são exemplo do pouco que se sabe sobre os têxteis portugueses:

giacometti
157/01 Fiando o Linho (Ifanes, Miranda do Douro, 1975). Mas, vendo de perto, a senhora está muito obviamente a fiar lã e não linho, e o texto que acompanha a legenda só desajuda, com uma descrição aberrante do processo de fiação.

giacometti
477/01 Tecendo a manta (Vila Boa – Buços [sic], Cabeceiras de Basto, 1975). Da descrição: A fiação podia ser feita num fuso ou noutro engenho, como a caneleira que a senhora utiliza. Na verdade a senhora está apenas a encher uma canela, e não vejo como possa ser possível fiar nesta caneleira. O local é Bucos, claro (as gralhas acontecem).

…mas vem aí uma exposição de têxteis que vai dar que falar aqui em Lisboa. É ir seguindo as pistas da Daniela Araújo.

knitting in the nordic tradition

knitting in the nordic tradition

knitting in the nordic tradition

Uma das prateleiras cá de casa em que os livros já não cabem é a dos de malhas tradicionais de várias partes do mundo. Por aqui têm aparecido alguns, como este ou este, mas nos próximos tempos vou mostrar outros dos meus preferidos. O de hoje acaba de chegar. Comprei-o num impulso, depois de ver esta imagem no Pinterest, e já é um dos meus preferidos. A edição original, dinamarquesa, é de 1981 mas a paginação cuidada, misturando a informação histórica com a componente prática, sobreviveu muito bem à passagem do tempo. Vai ser a minha leitura de hoje. Read more →

remenda o teu pano…

remenda o teu pano

remenda o teu pano

…durará para o ano.

As minhas calças do inverno passado eram ruças de origem. Este ano precisaram de um conserto, que fiz com entretela fina de algodão e linhas de bordar. Cortei a entretela em rectângulos suficientemente grandes para protegerem um pouco mais do que as áreas mais frágeis e apliquei-a com o ferro pelo avesso. Depois reforcei os remendos com a linha, como se estivesse a acolchoar uma manta.

Outros remendos por aqui (1 2 3 4) e por ali. Read more →

fazer meia

fazer malha

fazer malha

Cinco meninas todas iguais
Uma anda nua a despir as mais

As cinco agulhas assustam quem se inicia no tricot. Lembro-me do fascínio que exerciam sobre mim quando morava em Reguengos, onde algumas mulheres ainda faziam meias de linha (que nós calçávamos). Mas trabalhar assim, sempre à roda, sempre em liga, foi na verdade a técnica mais usada em todas as nossas aldeias até há pouco tempo e foi com cinco agulhas que se estrearem na malha, tão cedo que raramente se lembram da idade, todas as mulheres mais velhas com quem tenho falado.
A complexidade aparente desvanece-se mal se percebe que quando se trabalha com cinco agulhas trabalha-se na mesma apenas com duas de cada vez. E se nas primeiras voltas as outras nos atrapalham e parece que vão cair, num instante o trabalho começa a fluir e dizemos de vez adeus às costuras em tudo o que são gorros, golas, mangas e, claro está, meias.

(as fotografias são da Ilustração Portuguesa, dos primeiros anos do século XX. Na de baixo, uma menina pequena e sorridente a fazer meia)

bucos

bucos yarn

bucos yarn

Lãs especiais merecem etiquetas à altura. Foi assim com a Mirandesa, desenhada pelo João Maio Pinto, e é finalmente assim também com a Bucos, desenhada pela Min. Conhecemos a Min como membro do colectivo Monster Jinx durante o Pensar Fora da Caixa, em Abril do ano passado. Ficámos fãs da atitude de fixe genuíno do grupo. Uns meses mais tarde o Stray gravava para a MPAGDP e a Min desenhava ovelhas…

processo

rosa

revisão de provas

Há três anos criei a rotina de dedicar um dia por semana a um projecto que ainda não tinha forma mas que chamava por mim desde nem sei bem quando. Renovei os cartões das bibliotecas, fui de livro em livro, de nota de rodapé em nota de rodapé a coligir notas e referências. Enquanto isso começava a percorrer o mapa à procura, a fazer viagens, a aprender junto de pessoas que sabiam o que não estava escrito. E fazia malha, e mais malha, de lápis e papel por perto.

E agora estou em revisão de provas.

#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

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