o colete das pipocas

popcorn vest
press

O pequeno A ainda não me deixa chegar com frequência às agulhas de tricot, mas consegui finalmente no fim-de-semana completar o Popcorn Vest em Beiroa que tinha começado alguns dias antes de ele nascer. É um modelo da Misha and Puff, uma pequena marca de peças para bebé tricotadas à mão no Peru (na Europa encontra-se por exemplo nesta loja, que é a minha preferida por estes dias para comprar roupa de bebé) que também comercializa alguns modelos para tricotar. Este colete é de execução bastante simples e acho que vai ter muito uso.
Ao lado está uma prenda muito especial vinda daqui: uma revista de tricot de 1965 com 25 modelos de High Fashion Sweaters inspirados (ou nem por isso) por outros tantos países, dos quais um é uma curiosa variação sobre a nossa camisola poveira.

…e este mês estou na revista Saber Viver.

multitasking

A

A fotografia tem tem mais de um mês e o colete foi das últimas peças que fiz ainda grávida. Usei uma meada de um fio de lã que nunca tinha experimentado, o Fur Wool da Erika Knight, que cria um tecido peludo em que as malhas não são perceptíveis. A autora tem um padrão publicado com tamanhos de criança mas como queria um colete de recém-nascido (que ainda serve aos quase dois meses) tive de improvisar. Deixo aqui as instruções, num esquema que não passei a limpo e numa fotografia tirada à pressa, porque quando se tem um bebé pequenino é assim mesmo (ver aqui em grande).

multitasking

As instruções são simples de entender para quem está habituado aos livros japoneses de tricot:

Materiais:

Umas agulhas circulares de 10mm
Uma meada de fio Erika Knight Fur Wool na cor 02 Storm
Um caderno especial de corrida para quem faz tricot

Execução:

Montar 35 malhas e seguir o esquema. O colete é trabalhado em ponto de jarreteira/mousse/manta de gato (todas as carreiras em liga).

knitting for baby

As outras peças da fotografia são uma mini-camisola em João e um colete em Beiroa cheio de pipocas que ainda está por acabar.

35 semanas

knits

A um mês das 40 semanas, a tricotar:
Mais umas calças pequeninas, desta vez com lã João. O modelo, muito simples e gratuito, é o mesmo destas, mas em João ficaram mais pequeninas.
Uma touca feita num fio de lã da Brooklyn Tweed guardado há mais de quatro anos para uma peça especial. O modelo, Djevellue, também é gratuito.
Umas meias minúsculas em Malabrigo Sock improvisadas com 32 malhas e trabalhadas em canelado 2*2.
À direita, umas pantufas que andava há anos para experimentar, com receita do Temple of Knit. São um tipo de aconchego para os pés que se usa um pouco por toda a europa: em Espanha e França usam-se por dentro dos tamancos, em burel ou tricotados, como estes de Lugo e estes chaussons pour les sabots, com receita da 100 idées).

Madreñas
Madreñas, por César Poyatos

Mais para o centro e norte, e até à Turquia, há-os de muitas cores e feitios.
A propósito, um artigo sobre um interessante projecto de integração de migrantes baseado precisamente nestas pantufas: Balkan Slippers.

balkan slippers
Balkan Slippers

…e outro modelo a experimentar em breve (numa casa em que os sapatos ficam à porta dá sempre jeito mais um par): Fair Isle Slippers.

malhas da pesca

malhas da pesca
malhas da pesca

A primeira edição do workshop Malhas da Pesca no Museu Nacional de Etnologia foi ontem e à hora de ir embora ninguém queria parar de tricotar. Para mim foi um prazer poder ensinar naquele espaço e um privilégio ser responsável por algumas peças muito especiais terem saído das reservas para estarem temporariamente à vista de todos numa mini-exposição a que o museu chamou Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim.
A 16 de Janeiro repetimos a iniciativa e, até lá, há tricot para ver no átrio do Museu.

A muitos quilómetros de distância, inaugurou há pouco tempo uma exposição inteiramente dedicada ao tricot na Holanda que adorava ver. É no Fries Museum, em Leeuwarden. Já esteve de certeza mais longe o dia em que por cá se fará uma coisa semelhante.

Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim. Átrio do Museu Nacional de Etnologia. A partir de 5 de Dezembro.

malhas da pesca
malhas da pesca
Mais imagens do workshop.

malhas da pesca

malhas da pesca
Malhas da Pesca • Workshop no Museu Nacional de Etnologia • 5 de Dezembro de 2015

Forma de relaxamento, hobby da moda, pretexto para conviver. Técnica têxtil. Provocação. Integração. Ligação aos avós e aos avoengos. História, memória, cultura material e património imaterial. Podemos fazer tricot por cada uma destas razões, por todas elas ou sem razão nenhuma.
Olho para a malha como uma língua das mãos, uma língua franca que tanto se fala nas aldeias com quem também faz como se lê nos museus das peças de quem fez, décadas ou séculos antes.
No próximo dia 5 de Dezembro entro no Museu de Etnologia para fazer uma coisa que, atrevo-me a dizê-lo, nunca antes se fez por cá: ensinar tricot num dos nossos museus nacionais a pretexto de e, ainda melhor, na presença de várias peças da colecção escolhidas de propósito para o evento. É um precedente que se abre e que nos coloca um belo passo mais perto dos países (sobretudo do norte da Europa), onde se sabe melhor ouvir o que as mãos têm para contar. Vemo-nos por lá!

um gorrinho

gorrinho


Era para ter sido mais um par de mini calças mas só depois de um serão a fazer o canelado reparei que tinha montado 20 malhas a menos, de maneira que acabei por fazer um gorro. O modelo foi improvisado mas ficou com umas proporções simpáticas, de modo que partilho aqui as instruções. Trabalhado com um fio mais grosso e agulhas de 5mm, a mesma receita produz um gorro de adulto:

Tamanho: até aos 3 meses

Materiais:
Cerca de 35g de João na cor 911
Cerca de 15g de João na cor 401
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 2.5mm
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 3.5mm
Marcas para tricot
Agulha de ponta redonda para rematar

Execução:
Montar 88 malhas com o fio azul nas agulhas de 2.5mm e trabalhar 32 voltas (7.5cm) em canelado (1 malha de liga, uma malha de meia).
A partir deste ponto todas as malhas são trabalhadas em liga.
*Com as agulhas de 3.5mm e o fio branco, trabalhar 2 voltas, passando o fio azul pelo avesso.
Com o fio azul, trabalhar 2 voltas, passando o fio branco pelo avesso.
Repetir a partir de * até ter trabalhado um total de 11 riscas (6 brancas e 5 azuis).
Com o fio branco, trabalhar 1 volta, colocando uma marca na agulha a cada 8 malhas.
*Volta seguinte: trabalhar até 2 malhas antes da marca, 2 malhas de liga juntas. Repetir esta instrução até ao fim da volta.
Volta seguinte: trocar de cor e trabalhar uma volta inteira sem diminuições.
Repetir desde * até restarem apenas 11 malhas nas agulhas. Retirar as marcas.
Cortar o fio do trabalho, deixando uma ponta com cerca de um palmo de comprimento. Com a ajuda da agulha de ponta redonda, passar o fio por dentro das 11 malhas restantes, puxar suavemente para fechar o gorro e rematar pelo avesso.

gorro

o ciclo da lã

ciclo da lã
ciclo da lã

di·dác·ti·co |át|
(grego didaktikós, -ê, -ón, apto para ensinar)
adjectivo
1. Próprio da didáctica.
2. Que tem por fim instruir (ex.: unidade didáctica).
3. Que facilita o ensino ou a aprendizagem; que serve para ensinar ou aprender (ex.: jogos didácticos).
4. Que procura educar ou ensinar (ex.: discurso didáctico).

“didáctico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013.

Antes de mais, a lã não tem um ciclo. É verdade que muitas vezes por comodismo hoje em dia se fala em ciclo da lã, mas a expressão não faz grande sentido a não ser que estejamos a pensar na biodegradabilidade da dita e na sua eventual transformação em nutrientes que fazem crescer o pasto que as ovelhas vão ingerir para depois darem mais lã, mas parece-me rebuscado. De qualquer forma, se se quer ser didáctico convirá pensar no assunto.
A lã tem origem, histórias, caminhos, processos e variadíssimos usos e, de há alguns anos a esta parte, tem felizmente muitas pessoas interessadas na cultura que a rodeia. Sobre a lã em Portugal podem entre outros percorrer-se os posts deste blog, os do da Diane, o Saber Fazer da Alice Bernardo, o meu Lã em Tempo Real, pode-se visitar o The Flying Fleece ou mesmo ler a tese da Joana Sequeira. E, antes de escrever um livro didáctico sobre o assunto, pode-se ir ver como outras pessoas o fizeram noutros tempos, ler este livro infantil de 1976 ou procurar inspiração nos carimbos Agatha dedicados à lã (sem ciclo) há uns 30 anos.
Mas também se pode, pelos vistos, não ir ver nada disso e publicar na mesma um livro didáctico sobre o ciclo da lã. Foi o que fizeram Cristina Quental, Mariana Magalhães e Sandra Serra, que por exemplo confundem e ensinam a confundir uma roca com uma roda, não olharam certamente com atenção para nenhuma delas e também não sabem bem onde é que a Bela Adormecida afinal se picou. É pena.

Page 4 of 306« First...23456...102030...Last »

#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

Read more →