boro

boro
boro

De todas as maneiras que os panos têm de falar por nós, esta é a que me atira ao tapete. Remendos, camadas, o azul dos azuis, o equilíbrio dos fios sem brilho e das costuras sem régua, a eterna constatação de que a perfeição nasce do ter de fazer, da necessidade absoluta de tapar e aconchegar com o que há, com quase nada.

Boro, no MuDE até 8 de Fevereiro.

boro
boro

tween

E
E

O melhor de fazer fios de lã é poder trabalhá-los e vesti-los. As primeiras experiências a trabalhar a beiroa dobrada (dois fios juntos) correram tão bem que avancei para uma peça maior. A E. (a quem já não dá para vestir todas as cores que me apetecer) pediu uma túnica parecida com a minha mas em azul escuro. Peguei num dos meus livros preferidos com motivos de Fair Isle e no caderno para os motivos, tirei medidas e desenhei toda a zona dos ombros com carreiras incompletas para que assentasse melhor do que a minha. Et voilà.

No Ravelry.

fair isle

cowspiracy

cuchila

Por volta dos dezanove anos deixei de comer carne e peixe. Durante vários anos não lhes toquei de todo e nunca voltei a ser verdadeiramente omnívora. Hoje em dia como bacalhau no Natal e pouco mais. Não é um sacrifício, é um hábito que se instalou há muitos anos e que sempre achei fazer sentido. Nunca pensei em prescindir dos lacticínios nem dos ovos, apesar de ser cada vez mais atenta à origem e qualidade dos que compro. Também nunca fui fã de soja nem deixei de usar sapatos em couro, e uma matança do porco faz-me – por várias razões – muito menos impressão do que a secção da carne do supermercado. Sou uma vegetariana atípica, porque se tivesse de escolher entre a galinha do galinheiro de um amigo e uma embalagem de salsichas vegetarianas fabricadas num país longínquo preferia comer a galinha: pelo menos era de mais perto, não tinha sido fabricada com muitos ingredientes estranhos (entre os quais soja plantada sabe-se lá onde) nem vinha numa embalagem de plástico.
Todos os dias fazemos escolhas e uma coisa em que insisto cada vez mais é que é ao gastarmos dinheiro que tomamos as decisões com efeito mais imediato sobre o mundo à nossa volta.
Há muitas áreas em que continuo à procura de soluções – quando não sei o que comprar (por exemplo, porque é que não há uma marca em Portugal a fazer calças de ganga decentes?) sei que ser frugal e comprar o mínimo também faz parte das minhas opções.
Isto para dizer que Sábado passado fui ver o documentário Cowspiracy e que o recomendo vivamente. Não acredito que o mundo caminhe para o veganismo (aliás sabe-se que caminha no sentido contrário), mas acho que ainda no nosso tempo de vida (tal como aprendemos a separar o lixo ou a fechar a torneira enquanto lavamos os dentes) vai ser do senso comum consumir bichos com muita, muita moderação.

2014

export

Demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo (ou apenas falta de jeito) fizeram com que não viesse aqui celebrar o facto de 2014 ter sido o ano em que os fios de lã da Retrosaria passaram a estar à venda também em lojas no estrangeiro (a primeira foi a Stephen+Penelope em Amsterdão). Esta aventura de produzir fios com lã de ovelhas portuguesas tem sido cheia de descobertas, desafios e também muitas frustrações, mas a verdade é que aquilo que há quatro anos era apenas um sonho tem vindo a ganhar forma. E continua…

2014

driving test

Com vinte anos de atraso, tirei a carta de condução em 2014. Saí de uma espécie de clube secreto de nerds do qual fazem parte algumas das pessoas mais activas e interessantes que conheço, pessoas que vão na mesma e fazem na mesma (a pé, de transportes e com os amigos ao volante). Quem se fez gente a andar a pé vive o espaço público de outra maneira, conhece as pedras do passeio de cada rua em vez de saber o sentido do trânsito que lá passa, faz malha, lê e olha pela janela dos comboios e autocarros (e à espera deles) e tem filhos que sabem de cor a rede do metro e o número de tampas até casa da avó, que enjoam de carro mas atravessam a cidade a pé sem se cansarem. Não é melhor nem pior, mas é sem dúvida muito diferente.

Pela frente está um novo mundo…

Merioneth Show in Corwen
a car that would fit her pet sheep

Imagens:
Charles H. Hewitt, Woman During Advanced Driving Test. 1956.
Geoff Charles, Sioe Meirionnydd yng Nghorwen, 1950.
My friend works at a Subaru dealership and a lady came in looking for a car that would fit her pet sheep. 2014.

beiroa beanie

gorrinho

I’ve just finished a new version of Bruno’s beanie, this time using a simple Fair Isle motif and one of my favourite shades of Beiroa.

There is now a downloadable pdf with the pattern in English (charted and written down), for those who asked for it – remember I knit Portuguese style, which means all circular work is purled (not knitted).

Download pattern

PS: as instruções em Português estão aqui.

receita de natal

lord mantraste
patinho mantraste

A Feira de Natal da Retrosaria já vai no seu terceiro dia (os convidados deste ano são: Jubela, Zélia Évora, DoSemente, Lord Mantraste e By Stro). Entre visitas, meadas e muita conversa, uma amostra que tinha de fazer transformou-se de um dia para o outro num gorro à marinheiro (o Bruno chama-lhe tapa-carecas). A receita é esta:

Uma meada de Beiroa cor 685
20g de Beiroa cor 409
Um pedacinho de beiroa cor 573

Umas agulhas circulares de 5mm x 40cm (ou conjunto de 5 agulhas de 5mm x 20cm)
Umas agulhas circulares de 6mm x 40cm (facultativas)
Um conjunto de 5 agulhas de 6mm x 20cm
Uma agulha para rematar

Notas: o fio é trabalhado dobrado.

Montar 80 malhas com a cor 685 nas agulhas mais finas.
Trabalhar circularmente 26 voltas em canelado *2 malhas de liga, duas malhas de meia*.
Com as agulhas de 6mm, trabalhar 4 voltas em liga.

Motivo: este motivo foi retirado do livro 150 Scandinavian Knitting Designs de Mary Jane Mucklestone e tem 9 malhas de largura por 8 carreiras de altura.

Para trabalhar este motivo ou outro motivo com 9 malhas de largura:
Aumentar uma malha no início da volta (81 malhas) e trabalhar em liga as 8 voltas do motivo em jacquard. Matar uma malha no final da 8ª volta (80 malhas).

Para trabalhar um motivo com 4, 8 ou 10 malhas de largura não é necessário fazer quaisquer ajustes.

Uma volta em liga.

Diminuições:
*6 malhas de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*5 malhas de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*4 malhas de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*3 malhas de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*2 malhas de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*1 malha de liga, um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.
*Um mate simples*. Repetir de * a * até ao fim da volta.
Uma volta em liga.

Cortar o fio, deixando uma ponta com cerca de 20cm de comprimento. Com a agulha de rematar, passar o fio por dentro das 8 malhas remanescentes. Rematar as pontas de fio pelo avesso do gorro.

gouveia

tecer em gouveia
tecer em gouveia
tecer em gouveia

Não sabendo, passa-se por Gouveia sem conhecer o tecelão residente. A sua oficina não está no roteiro urbano da cidade porque esta como muitas outras cidades tem uma noção de património perigosamente ultrapassada. A visita vale a pena mesmo que não se seja particularmente ligado ao tema. O Sr. João tece as suas toalhas de pé, sem o habitual assento ou apoio para as costas, numa espécie de dança sobre os pedais ritmada pelo trabalho do chicote e o bater da queixa. Obrigada Ana Rita por me teres levado até lá.

Contactos:
C. Comercial Outeiro – Loja 7
Gouveia

fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

ovelhas daqui

sheep

Nos inícios dos século XX, de todas as ilhas dos Açores era em São Miguel que havia mais ovelhas. Actualmente são tão poucas que só se encontram com esforço. A sua criação não constitui uma actividade económica, a sua carne desapareceu das ementas e memórias e a sua lã acaba frequentemente no lixo. Aqui não há rebanhos: as ovelhas existem sobretudo porque ajudam no maneio dos terrenos comendo plantas que as vacas, por serem mais selectivas, deixam para trás. Umas e outras, diga-se, acabam o dia a ruminar a dieta de pasto cheio de fertilizantes complementada com rações importadas de milho transgénico, que esse é um retrato das ilhas ao qual é cada vez mais difícil fechar os olhos…

#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

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