cavalgante

É a terceira camisola que desenho. Desta vez para o nosso fio Mondim mas na sua versão tingida em Paris pela La Bien Aimée que vai ser lançada este fim-de-semana no famoso Edinburgh Yarn Festival. Para garantir que as contas batiam certo, que isto de imaginar uma camisola em seis tamanhos diferentes para mim ainda não é coisa pouca, experimentei usar uma folha de cálculo. Foi um processo moroso mas muito interessante, que permitiu por exemplo perceber a priori com alguma exactidão quantos metros de fio seriam necessários para tricotar cada uma das medidas. O processo não estaria completo sem a colaboração de um grupo de test knitters que despistaram (espera-se que todas) as minhas distracções e gralhas. As instruções já estão disponíveis online, em Português e em Inglês, através do Ravelry.

ovelhas portuguesas

ovelhas portuguesas

Há tantos anos desejado, viu a luz do dia no Fundão, onde fui falar* sobre o que ando já há quase dez anos a fazer com lã e à portuguesa. Um mapa das nossas raças de ovelhas, ou de ovinos como dizem as instituições, ou de gado lanar (lanar, atenção), como se dizia há não assim tanto tempo. Nasceu inspirado pelo outro, editado nos anos 80 pela então Direcção Geral de Pecuária (hoje DGAV), raridade que muita curiosidade desperta na parede da Retrosaria. E também nasceu porque numa fábrica de (e no museu dos) lanifícios encontrei (só) o cartaz das raças britânicas, porque numa boa queijaria alentejana vi (só) o das francesas e porque não faz mal a ninguém aprender o nome destes dezasseis bichos para os reconhecer da janela do carro no próximo passeio. Está aqui.

O desenho é da Joana Estrela.

*nas Jornadas de Inovação e Valorização das Raças Autóctones.

tipificar

sorting and grading fleece
sorting and grading wool
sorting and grading fleece

Primeyramente antes que as lans (…) sejam lavadas e tintas, se apartaraõ as sortes delas, para que as lans de cada sorte vão em seu lugar, & o vello de là se estenderá, & escolherá em hum caniço, ou mesa, & depois de escolhido se lhe cortaraõ as fraldas, as quais se deitaraõ em ourelos (…).
do Regimento da Fabrica dos Pannos de Portugal, 1573.

sorting and grading wool
sorting and grading fleece

A apartação chama-se hoje em dia tipificação e deixou se ser na maioria dos casos feita (cá em Portugal) com os cuidados de outros tempos. Aqui na ANCORME este trabalho é levado muito a sério, o que tem permitido não só que os meus fios que têm na sua composição lã de Merino Português sejam cada vez melhores como (e isto sim pode ser o ponto de partida para uma nova maneira de trabalhar a lã no nosso país) que os criadores de animais com melhor lã vendam melhor o seu produto.

sorting and grading fleece
sorting and grading fleece

fiar na roda

No início do ano passei mais de um mês de roda de um artigo que fui convidada a escrever. As viagens pelas ilhas e pelos livros resultaram em mais de vinte páginas que verão a luz do dia lá mais para a frente este ano. Não tenho muita facilidade em pôr ideias no papel. Adio o mais possível, desculpo-me com uma leitura por fazer, uma ideia por confirmar, prometo a mim mesma começar amanhã. Acabei por ter de pôr tudo o resto de lado e dedicar-me só à escrita, os dias que fosse preciso, sem interrupções até estar feito. Esta semana fiz a última revisão à bibliografia e juntei as imagens e agora resta-me esperar. Entretanto várias horas de recolhas guardadas em discos esperam também que as edite e partilhe, porque são muito mais do que um complemento ao texto. Este vídeo que publiquei hoje (já com quase quatro anos de atraso) é uma verdadeira aula de fiação na roda de tipo 1. Deixei-o assim longo de propósito, para que se vejam e revejam os vários momentos do processo: o estirar e torcer das fibras e o enrolamento no fuso, a correcção das irregularidades do fio, o pegar de uma pasta com a seguinte, o pôr do fio na roda quando ele se solta. Toda uma coreografia que se repete imutável há pelo menos oitocentos anos.

choose churra

Untitled

Notas a propósito de duas imagens da Exposição Universal de Chicago de 1933 (obrigada à Paola que mas mostrou):
No stand português apregoa-se a qualidade da nossa lã churra para uso em tapeçarias.
Actualmente a nossa maior fábrica de fios de lã para a indústria dos tapetes trabalha quase exclusivamente com lãs churras importadas e os criadores das nossas raças churras, donos em geral de pequenos rebanhos) têm grandes dificuldades em escoar a sua lã. Aqui ao lado é parecido.

Exposição de Portugal em Chicago. Illinois Estados Unidos da América
Exposição de Portugal em Chicago. Illinois Estados Unidos da América

Mantas e serapes, quase de certeza de Reguengos. As traduções de todos os pormenores do pavilhão português parecem à prova de bala. A palavra serape era nova para mim e não podia ser melhor para descrever o uso da manta alentejana como agasalho.

#lãdosaçores

fiar

Uma semana em viagem para continuar um trabalho em curso sobre a lã nos Açores. Foi também o momento para ressuscitar o projecto Lã em Tempo Real, ao qual devo muitos gigabytes de gravações por todo o país ainda por editar.
Em São Jorge as rodas de tipo 2 (cf. Normas de Inventário da Tecnologia Têxtil) entraram (ou vulgarizaram-se) dos inícios do século XX e substituíram as que antes se usavam, de tipo 1 como em São Miguel. Chamam-lhes invariavelmente engenhos e já não há muitos a trabalhar, que a lã na ilha do Dragão, apesar das afamadas colchas, é coisa quase esquecida. Ela está lá, no entanto, no dorso das ovelhas tosquiadas só porque tem mesmo de ser, e é enterrada ou queimada todos os anos que os bichos são só para o petisco. Tantas contradições nesta ilha linda.

ovelhas
engenho
fios
37

Cooperativa de Artesanato Senhora da Encarnação, Ribeira do Nabo, Ilha de São Jorge, Açores.

lã que pica

mondegueira
mondegueira

É só uma ideia, mas que podia ter resultados interessantes a vários níveis: fazer luvas esfoliantes tricotadas a partir da lã das nossas ovelhas churras mondegueiras, churras do campo e algarvias, que pouco valor tem no mercado. Este teste foi feito num instante com parte de uma maçaroca que fiei faz agora um ano e parece excelente para o efeito. Nano-empreendedores com gosto pelas ovelhas, embora lá?

larada

larada
larada

Branca larada, que vai pela estrada
não fia, não tece, e seus filhos veste

larada
larada

Uma camisola no meu novo fio, que é muito grosso e salpicado de cores. Fi-la a partir da app Raglanify, que me serve essencialmente para calcular o número de malhas inicial e a quantidade de aumentos necessários, mas usei a técnica das carreiras incompletas para conseguir um decote perfeito e alturas diferentes atrás e à frente.

o ciclo da lã

ciclo da lã
ciclo da lã

di·dác·ti·co |át|
(grego didaktikós, -ê, -ón, apto para ensinar)
adjectivo
1. Próprio da didáctica.
2. Que tem por fim instruir (ex.: unidade didáctica).
3. Que facilita o ensino ou a aprendizagem; que serve para ensinar ou aprender (ex.: jogos didácticos).
4. Que procura educar ou ensinar (ex.: discurso didáctico).

“didáctico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013.

Antes de mais, a lã não tem um ciclo. É verdade que muitas vezes por comodismo hoje em dia se fala em ciclo da lã, mas a expressão não faz grande sentido a não ser que estejamos a pensar na biodegradabilidade da dita e na sua eventual transformação em nutrientes que fazem crescer o pasto que as ovelhas vão ingerir para depois darem mais lã, mas parece-me rebuscado. De qualquer forma, se se quer ser didáctico convirá pensar no assunto.
A lã tem origem, histórias, caminhos, processos e variadíssimos usos e, de há alguns anos a esta parte, tem felizmente muitas pessoas interessadas na cultura que a rodeia. Sobre a lã em Portugal podem entre outros percorrer-se os posts deste blog, os do da Diane, o Saber Fazer da Alice Bernardo, o meu Lã em Tempo Real, pode-se visitar o The Flying Fleece ou mesmo ler a tese da Joana Sequeira. E, antes de escrever um livro didáctico sobre o assunto, pode-se ir ver como outras pessoas o fizeram noutros tempos, ler este livro infantil de 1976 ou procurar inspiração nos carimbos Agatha dedicados à lã (sem ciclo) há uns 30 anos.
Mas também se pode, pelos vistos, não ir ver nada disso e publicar na mesma um livro didáctico sobre o ciclo da lã. Foi o que fizeram Cristina Quental, Mariana Magalhães e Sandra Serra, que por exemplo confundem e ensinam a confundir uma roca com uma roda, não olharam certamente com atenção para nenhuma delas e também não sabem bem onde é que a Bela Adormecida afinal se picou. É pena.