o ciclo da lã

ciclo da lã
ciclo da lã

di·dác·ti·co |át|
(grego didaktikós, -ê, -ón, apto para ensinar)
adjectivo
1. Próprio da didáctica.
2. Que tem por fim instruir (ex.: unidade didáctica).
3. Que facilita o ensino ou a aprendizagem; que serve para ensinar ou aprender (ex.: jogos didácticos).
4. Que procura educar ou ensinar (ex.: discurso didáctico).

“didáctico”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013.

Antes de mais, a lã não tem um ciclo. É verdade que muitas vezes por comodismo hoje em dia se fala em ciclo da lã, mas a expressão não faz grande sentido a não ser que estejamos a pensar na biodegradabilidade da dita e na sua eventual transformação em nutrientes que fazem crescer o pasto que as ovelhas vão ingerir para depois darem mais lã, mas parece-me rebuscado. De qualquer forma, se se quer ser didáctico convirá pensar no assunto.
A lã tem origem, histórias, caminhos, processos e variadíssimos usos e, de há alguns anos a esta parte, tem felizmente muitas pessoas interessadas na cultura que a rodeia. Sobre a lã em Portugal podem entre outros percorrer-se os posts deste blog, os do da Diane, o Saber Fazer da Alice Bernardo, o meu Lã em Tempo Real, pode-se visitar o The Flying Fleece ou mesmo ler a tese da Joana Sequeira. E, antes de escrever um livro didáctico sobre o assunto, pode-se ir ver como outras pessoas o fizeram noutros tempos, ler este livro infantil de 1976 ou procurar inspiração nos carimbos Agatha dedicados à lã (sem ciclo) há uns 30 anos.
Mas também se pode, pelos vistos, não ir ver nada disso e publicar na mesma um livro didáctico sobre o ciclo da lã. Foi o que fizeram Cristina Quental, Mariana Magalhães e Sandra Serra, que por exemplo confundem e ensinam a confundir uma roca com uma roda, não olharam certamente com atenção para nenhuma delas e também não sabem bem onde é que a Bela Adormecida afinal se picou. É pena.

lã de bebé

mini

A Ágata mandou-me o link para este artigo sobre uma campanha da Woolmark que decorre por estes dias em Paris. Vista de relance, é uma campanha em defesa da lã – the exhibition will showcase wool in all its extraordinary forms and stages – mas, olhando com atenção, descobre-se (mais) uma iniciativa para promover apenas um tipo de lã de apenas uma raça de ovelhas – o Merino australiano. Sozinha, a Austrália produz cerca de 27% da lã mundial (dados oficiais) e, a acreditar no artigo, 90% (!) da lã destinada à indústria de vestuário. É lá que vivem 111 milhões de ovelhas intensamente modificadas (comparem-se com as tetravós espanholas) para que a sua lã seja o mais abundante e o mais macia possível. Mas e as outras raças? Peter Ackroyd, global strategy advisor da Woolmark entrevistado no artigo, é peremptório: a lã que a sua empresa promove é macia. O resto só serve para fazer tapetes:

WWD: But you know what people say: wool is itchy?
P.A.: That’s one of the biggest misconceptions about wool. It’s local and cross-bred wools that are scratchy and they are so on purpose, because they were meant for carpets. People don’t remember that in days of Roubaix and Tourcoing all wools that were spun there came from Australia [where 90 percent of the world’s apparel wool comes from], and Australian merino is very soft.

Esta triste afirmação ressoa na frase que mais frequentemente se ouve nas lojas de lãs: Têm lã para bebé?

Pela Retrosaria passam, tenho orgulho em dizê-lo, muitas pessoas das que lêem criticamente os rótulos, sejam os da comida ou os da roupa que vestem, e que apreciam os novelos com mais do que um dos cinco sentidos. Mas ouço esta frase diariamente. E o mais comum, porque me falta na parede uma boa reprodução do Menino do cobertor [de papa], é ter de desarmar o interessado (cf. the shame of selling) com um potencialmente desastroso O que é que quer dizer com lã para bebé?

lauro corado
Lauro Corado (1908-1977), Menino do cobertor. Col. Museu de Grão Vasco. Imagem MatrizPix.

A resposta, acompanhada de um olhar de espanto por eu parecer não entender à primeira, é quase, quase sempre a mesma: Daquela mais macia. Para BEBÉ. E o contra-ataque por vezes é fatal: Prefere um fio muito macio mas pouco natural ou menos macio mas local, sem fibras sintéticas nem aditivos? Ou um fio que, seja qual for a sua composição ou processo de fabrico, tem a cara de um bebé sorridente estampada no rótulo ou a palavra baby no nome e que, só por isso, passa por ser o melhor?

beiroa

Não se desfazem preconceitos nem se desconstroem décadas de marketing de repente, mas há duas ideias que tenho cada vez mais presentes no que faço diariamente seja na Retrosaria ou em casa:
Por um lado a riqueza que reside no conhecimento e na procura das coisas na sua variedade – sejam 14 raças de ovelhas (só em Portugal), cada uma com a sua lã, sejam os sabores diferentes do mel consoante as flores que rodeiam a colmeia. Sim, Sr. Ackroyd, da lã das nossas ovelhas churras fazem-se por cá (além de tudo o resto) óptimos tapetes industriais (para exportação). Mas as nossas outras raças de ovelhas dão lã boa de vestir, que nem toda a lã é para usar directamente em cima da pele (vivam as camisas de algodão e de linho por baixo das camisolas e casacos de lã) e muito melhor poderá ser ainda quando os produtores começarem a pensar mais nela outra vez (vejam-se entre tantos outros os exemplos escocês e islandês, cujas raças de ovelhas que dão lã que pica são promovidas como riqueza nacional).

churra do minho
Ovelhas (com cara de serem) Churras do Minho na Serra do Marão, há algumas semanas.

Por outro lado, o empobrecimento da vida em geral e da das crianças pequenas em particular com a obsessão em remover obstáculos de todo o género – a lã para bebé, as uvas sem grainhas, o pão sem côdea, os parques infantis com barreiras à volta dos baloiços (leia-se, a propósito, esta entrevista ao professor Carlos Neto)…

As calças da primeira fotografia foram feitas com Beiroa. As instruções são gratuitas e muito simples de seguir. A Beiroa não é uma lã para bebé. Ou será? Quando chegar a altura conto se o destinatário se queixa.

gola minderica

gola minderica

gola minderica

A gola minderica, não sendo directamente inspirada numa peça de malha, foi escolhida para o livro por ter nascido do meu fascínio pelas mantas artesanais portuguesas. Neste caso baseei-me nos padrões das mantas de Minde que, apesar de fazerem parte do repertório mental de quase todos os portugueses, poucos associam ao seu local de fabrico. Fazem-nos pensar no Ribatejo ou chamamos-lhes alentejanas, sem saber que vêm de uma terra pequenina, mais a norte, com uma longa história de teares caseiros e comerciantes orgulhosos que as espalharam por todo o sul de Portugal. Os mindericos distiguem bem as suas mantas janotas (as mais coloridas) das do alentejo. As cores não são as mesmas, nem é igual a dispersão dos motivos pela superfície do tecido. Mas um leigo pode facilmente confundir-se. O que é inequívoco é que os padrões de Minde constituem um manancial gráfico que apetece tricotar, respeitando as paletas ou inventando outras. A sua estrutura composta por motivos pequenos, muitos dos quais se repetem sempre ao mesmo ritmo (3, 2, 1, 2), torna o trabalho a duas cores bastante fácil de memorizar e rápido de fazer.

Para encontrar uma manta de Minde verdadeira, das que são feitas em tear manual com fios de lã, é preciso ir ao CAORG e fazer figas para que haja stock, porque elas desaparecem mal saem das mãos do tecelão Elias.

Estas duas golas foram feitas em Beiroa. Uma é a do livro, com a sua bainha de bicos, e a outra foi feita numa paleta mais quente, com o castanho natural por fundo, e com as orlas em canelado (três serões chegaram para a terminar).

This cowl from the book was inspired by the handwoven blankets from Minde. Minde is a small town with a strong tradition in weaving and trading. The blankets were woven at home and then sold by the men, who travelled in the Summer to sell them in the big farmers markets of the south. They feature small and repetitive motifs, which translate perfectly into knitting. And their bold palettes are an endless source of inspiration.

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cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

cartilha do tosquiador

Uma das prendas mais bonitas que tive nos últimos tempos foi esta Cartilha do Tosquiador de 1954, oferecida pela Rita Palma. Trata-se de um manual criado com o objectivo de instruir profissionalmente os manajeiros e tosquiadores de forma a valorizar o mais possível a lã através da observação de maiores cuidados com os animais, com o processo da tosquia e com a conservação dos velos, questões que a bibliografia portuguesa dedicada aos lanifícios desde há décadas aponta como principais motivos de não se produzirem industrialmente no país lãs de tão boa qualidade como no estrangeiro.
A Cartilha teve a sua primeira edição em 1948 e foi sendo sucessivamente actualizada. A versão de 1999 está disponível para download na mediateca da DGADR, mas como só funciona em computadores windows ainda não a consegui ver. É uma excelente introdução ao tema da lã em Portugal e útil mesmo para quem esteja só à procura de informação sobre como tirar o melhor partido de um velo que trouxe da aldeia (de que parte do corpo vem a melhor lã, como distinguir se se trata de uma lã de tipo merino, cruzado ou churro, etc.).
É sempre interessante ver como por cá este tema raramente saiu das publicações técnicas como esta enquanto noutros países ele se tornou muito mais mainstream. O The Wool Book, já aqui várias vezes citado, ou o mais recente The Knitter’s Book of Wool são apenas dois de muitos exemplos possíveis.
Para mim a passagem mais interessante do texto é a que refere a prática ainda corrente (em 1957) de bordar as ovelhas, como ouvimos descrever em Fernão Joanes: a tosquia (…) que fazem nos “cabrestos” e em animais para feira, cortando a lã a várias alturas e formando desenhos mais ou menos caprichosos, essa é uma tosquia condenável. Tem a finalidade de embelezar o animal, mas só serve para estragar e desperdiçar lã (p. 26). Ovelhas bordadas… espero vê-las este ano!

PS: Disponível na Mediateca da DGADR, no muito mais simpático formato pdf, estão também A Cultura do Linho, de J.C. Estevéns Lança e J. M. Fernandes Baptista e, sobre lã, o Glossário de Termos Ingleses da Tecnologia Lanar, de José Chabert e Luís Pinto de Andrade. Read more →

bucos

bucos yarn

bucos yarn

Lãs especiais merecem etiquetas à altura. Foi assim com a Mirandesa, desenhada pelo João Maio Pinto, e é finalmente assim também com a Bucos, desenhada pela Min. Conhecemos a Min como membro do colectivo Monster Jinx durante o Pensar Fora da Caixa, em Abril do ano passado. Ficámos fãs da atitude de fixe genuíno do grupo. Uns meses mais tarde o Stray gravava para a MPAGDP e a Min desenhava ovelhas…

fiar na madeira

Na Madeira, subimos do Funchal por dentro de uma névoa cerrada em direcção a Ribeiro Frio. Íamos ao encontro (com ajuda dos amigos) da D. Maria Isabel, que faz barretes de vilão com a lã das suas ovelhas, que são – julgo eu – da raça churra madeirense (só vi a raça referida aqui e não vem mencionada no meu site de referência habitual). No vídeo de cima, a D. Isabel descreve a tosquia e a lavagem da lã.

Ver como se fia num sítio novo é quase sempre ocasião para surpresas. Já fora assim na ilha do Pico, onde vi fiar com um fuso leve e esguio apoiado numa cadeira, e assim foi também desta vez. O fuso da D. Maria Isabel, feito em urze, era longo e pesado, sem o sulco helicoidal (a rosca no topo da haste) habitual nos fusos portugueses. O fuso é apoiado no chão e a lã é preparada para a torção num movimento cuidado dos dedos da mão esquerda sobre o joelho (segundo vídeo). O vídeo abaixo mostra o processo de torcer dois fios juntos para criar o grosso fio retorcido que é usada nos barretes. Como diz a D. Isabel, não é que seja coisa reles de fazer, mas dá um pedaço de trabalho.

We left Funchal towards the mountains and through thick fog. We were going to Ribeiro Frio to meet D. Maria Isabel, spinner and maker of the traditional knitted hats stil worn by some farmers and shepherds. The first video above shows D. Isabel with her wool carders describing the process of shearing and scouring the local wool – two tasks which are still done entirely by hand.

Seeing how hand spinning is done in a place I have never visited before is always a time for surprises. In Pico island we saw a woman spinning on a supported spindle, something I had never witnessed in Portugal before. The spindle from Pico was short and made from a lightweight wood, very unlike the one used by D. Isabel: this one, made of heather wood, was long and heavy and rested directly on the ground. Unlike most portuguese spindles, it didn’t have the screw-shaped incision along the top section of the shaft. The carded wool is held in the left hand (as usual) and the drafting is carefully done on the knee, a detail which was also new to me (second video above). The video below shows the process of plying two strands of yarn together (rotating the same spindle counterclockwise) to create the thick 2ply used to knit the hats.

são joão das ovelhas

são joão das ovelhas

a loiça

Ontem de madrugada o rebanho que acompanhei há um ano serra acima na companhia da Diane voltou a partir na rota da transumância. Dias antes tínhamos estado na Folgosa da Madalena para assistirmos e filmarmos a romaria do São João das Ovelhas. É uma festa de pastores para pastores, sem turistas à vista, em que os rebanhos, em passo de corrida e acompanhados pelos donos, desfilam à vez em volta da capela da aldeia, três voltas num sentido e três no outro (para os animais não ficarem tontos). Vêm a pé de várias aldeias, e repousam tarde fora nos campos vizinhos até o calor abrandar. É nessa altura que chegam à Folgosa, onde as famílias os esperam, e a festa acontece. Quase todos trazem os bodes enfeitados com a loiça grande, os chocalhos maiores e mais valiosos, e alguns mantêm o hábito (que vi finalmente ao vivo depois de um ano de espera) de os decorar com as pêras e cabeçadas sobre as quais escrevi antes. Não sei se há por cá outros pastores tão orgulhosos como os da Serra da Estrela, sempre aprumados nos seus casacos de raxa e de cajado na mão. Eu emociono-me sempre que os vejo. Read more →

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