fabricar

fabricar

de cá

Numa terra cheia de fábricas abandonadas cujo recheio namorámos pela janela, uma delas labora ainda, e bem. Com um armazém cheio de lãs portuguesas e fios com belíssimas cores, produz para exportar, em grande escala. O problema que enfrenta quem quer colocar pequenas encomendas é sempre o mesmo: para menos que uma tonelada de produto nem vale a pena ligar as máquinas. Read more →

d. vitorina

fiar
Pormenor do Saltério de Luttrell, século XIV. British Library.

d. vitorina

Para além de ver lavar a lã, fui a Mértola para conhecer finalmente a mulher de cujas mãos nasce o fio usado nas mantas da Oficina de Tecelagem. A D. Vitorina aprendeu a fiar em criança mas só crescida pegou na roda, numa altura em que alguns subsídios para deslocações a feiras tornaram a actividade suficientemente lucrativa. Hoje em dia fia apenas nas horas vagas mas, por ser aparentemente a única fiandeira no activo, é dela que em grande medida depende a sobrevivência das mantas de Mértola. Quis ver a sua grande roda de fiar em pé, de que já tinha ouvido falar, em tudo idêntica às que na Baixa Idade Média se difundiram pela Europa. Vi fiar em Peroselo e Vila Franca da Beira, e já mais ou menos me ajeito com um fuso, mas que me lembre nunca tinha visto fiar numa roda portuguesa.

pronta a fiar

Quis conhecer a D. Vitorina também para perceber o momento em que as pastas de lã saídas das cardas são moldadas de forma a poderem finalmente transformar-se em fio. Cardar era por aqui trabalho de homem, mas os cardadores extinguiram-se e agora é a fiandeira que assegura também este passo da preparação da lã. Para trabalhar bem nas cardas, azeita-se a lã que foi antes escarmeada, mas essa parte da história fica para depois. Read more →

a lã portuguesa a gostar dela própria*

lavar a lã no alentejo

Quando, em 1994, participei como voluntária nas escavações do Campo Arqueológico de Mértola, descobri na Cooperativa Oficina de Tecelagem a lã mais macia que vira até então. Foi o meu coup de foudre com a lã portuguesa. Vim para Lisboa carregada com toda a que pude comprar, e dela nasceram uma camisola que durou mais de dez anos e um colete que ainda uso. Na altura, encontrar bons fios para tricot em Lisboa era uma missão impossível. Encontrar aquela lã fiada à mão, na cor de café com leite das ovelhas sarnubegas, foi uma revelação inesquecível. A minha visita a Mértola para conhecer o seu nascimento, combinada com as tecedeiras há quase um ano, aconteceu finalmente esta semana.

lavar a lã no alentejo 11

As tecedeiras de Mértola acompanham todo o processo que culmina na criação do fio que usam nas suas mantas. São elas que escolhem o rebanho cuja lã lhes parece mais macia (nesta região, historicamente conhecida pela qualidade das suas lãs, abundam as raças Merino branco e preto e Campaniça), são elas que negoceiam com o criador a qualidade do que lhes é vendido (quanto mais seleccionados e limpos forem os velos, menos trabalhoso é o processo), são elas que lavam a matéria prima, à mão e por processos que provavelmente não mudam há vários séculos, e são finalmente elas que escarmeiam e azeitam as fibras, preparando-as para a cardação e fiação, que são também ainda processos inteiramente manuais. É do cuidado e do tempo investido em cada um destes passos que nasce este fio, e é esta a chave que permitirá um dia voltarmos a fazer da nossa lã uma matéria prima de excelência e não um sub-produto abandonado com desprezo nos campos depois da tosquia, que é o que fazem actualmente grande parte dos pequenos produtores de ovinos. Read more →

líquenes

liquen

beiroa com liquen

Na Gralheira o chão estava coberto de líquenes. Colhemos um saco deles, mesmo sem saber se seriam os mais indicados para tingir. À noite secaram junto à lareira e no dia seguinte, já em Lisboa, pu-los num tacho com água e deixei ferver uns minutos. Pareceu-me que a água não mudava de cor e achei que a experiência não ia resultar, mas juntei-lhes uma meada de Beiroa e deixei cozer em lume muito brando durante cerca de uma hora. Passado este tempo a lã tinha ganho uma cor dourada muito bonita. Não foi preciso juntar vinagre nem nenhum dos mordentes que muitos pigmentos naturais exigem para se fixar à lã.

É mais um tema que apetece estudar e experimentar. Algumas pistas de leitura: Read more →

cobertores de papa

Pastor com cão
António Correia (Foto Hermínios, Guarda), Pastor com cão [1930-1940]. Col. Museu da Guarda. Imagem MatrizPix.

tear

tear

A norte das mantas de Mértola fazem-se, em Maçaínhas, os célebres cobertores de papa. São mantas de lã churra seleccionada e fiada especificamente para este fim, tecidas num enorme tear totalmente manual por um único artesão de 84 anos. Do tear saem para um pisão (já único no seu género e que lembra as pernas de um gigante), daí para a máquina de cardar, onde ganham o característico aspecto peludo que as torna tão quentes, e finalmente para um estendal onde secam e ao sol e são esticados para adquirirem o aspecto definitivo.
Tudo isto se passa na fábrica de José Pires Freire, que tive o privilégio de visitar na melhor das companhias. Fomos recebidas pelas duas únicas operárias num espaço que há algumas décadas ainda albergava oito tecelãos. O único ainda activo já só vem de vez em quando, quando lhe apetece, e quando se reformar definitivamente não tem quem o substitua. Duas aldeias mais para a frente, numa fábrica moderna, fazem-se réplicas industriais destes cobertores, mas não são a mesma coisa. Ficámos também a saber que nesta região tradicionalmente são os homens que tecem, ocupando-se as mulheres de encher as canelas e ajudar com a urdidura. Não resistimos a trazer um cobertor cada uma.

Comprar uma destas mantas (eu trouxe a de riscas amarelas, vermelhas, verdes e castanhas) é a melhor forma de contribuir para que a arte não desapareça. Quem não puder ir a Maçainhas pode encontrá-las nas lojas A Vida Portuguesa de Lisboa e Porto. Read more →

mantas alentejanas

mantas

mantas alentejanas
Autor, título e data desconhecidos. Papel montado em suporte de madeira. Col. Museu de Arte Popular. MatrizPix.

As mantas de Mértola, actualmente feitas apenas pelas mulheres da Cooperativa Oficina de Tecelagem e muito menos conhecidas do que as de Monsaraz, são um verdadeiro artigo de luxo. Quem as vê não adivinha o que representam em termos de preservação de saberes quase extintos e a única monografia dedicada ao tema que conheço (Mantas tradicionais do Baixo Alentejo, de Ângela Luzia, Isabel Magalhães e Cláudio Torres. Mértola, 1984) tem um quarto de século. Estas mantas nascem nos dois teares domésticos que a cooperativa mantém a funcionar e são feitas hoje como há décadas ou séculos. A sua lã é diferente de todas as outras lãs portuguesas e macia como mais nenhuma. Vem das ovelhas merino e campaniça, autóctones da região, e é tratada de forma totalmente manual até chegar ao tear, sendo ainda hoje fervida em pequenos cestos na margem do rio, aberta, cardada e azeitada à mão e fiada em pequenas rodas artesanais. As cores das mantas são as da própria lã: branca, preta e sernubega (o castanho café com leite da ovelha campaniça). Como cada uma representa um sem fim de horas de trabalho são necessariamente objectos caros, mas comprar uma é contribuir para a sobrevivência de todo um universo. A minha está a uso há dezasseis anos e continua tão bonita como quando foi comprada. Read more →

d. laudecena

a lã, o fuso e a roca

d. laudecena

Perto de Penafiel, fui aprender a fiar na roca, que é diferente de fiar com a lã pousada ou arrumada num cestinho. Ainda estou longe de ter coberto toda a bibliografia etnográfica sobre fiação manual, mas quase que aposto que nenhuma saiu da pena de alguém que dominasse o processo sem ser na teoria. Assim, ainda nem sequer consegui encontrar a tradução para worsted e woolen, as duas formas fundamentais de criar o fio a partir das fibras de lã (sugestões?). A D. Laudecena de Peroselo ensinou-me a abrir a lã com as mãos (o que torna possível fiá-la sem ter sido cardada) e a pô-la na roca, e depois a usar os dedos da mão esquerda para ir puxando as fibras da maneira certa (criando um fio woolen). Também conheci a D. Ana, tecedeira da localidade, cujo tear não cheguei a ver mas que vai ter as suas mantas na Agrival, uma feira que se realiza há trinta anos. Tanto quanto percebi é em boa medida a dita feira que mantém activos os artesãos da região, estimulando a produção, organizando os transportes e permitindo o encontro entre quem faz e quem compra. Read more →

fiar

fiar
Autor desconhecido, Retrato de mulheres (sec. XX). Papel montado sobre madeira, col. Museu de Arte Popular (via MatrizPix).

A imagem de cima deve ser a mais bonita que conheço de mulheres portuguesas a fiar. Hoje foi o que fiz boa parte da tarde. Aprendi já há meses, com a Tita Costa, mas só agora que tenho a matéria-prima que procurava me empenhei em aperfeiçoar a técnica. Diz a bibliografia (Normas de Inventário. Etnologia / Tecnologia têxtil, IPM, 2007) que estes fusos (usados em Portugal, Itália, França e julgo que poucos outros países) são os de tipo 2, caracterizados pela ausência de volante ou cossoiro (aquela base ou rodela dos chamados drop spindles que também se usam por cá em muitas aldeias) e pelo sulco helicoidal que percorre o topo da haste. Este, que tão bem fia mesmo nas mãos de uma principiante, deve ter cem anos e é de uma amiga. Quem me dera nestas férias ter a sorte de encontrar o da minha bisavó… Read more →

sector secundário

candeeiro

fios

livro de amostras

Desde miúda que adoro visitar fábricas. Nos anos 80, sem sair de Lisboa, fui com a escola primária ver fazer açúcar, bolachas e conservas de peixe em indústrias entretanto extintas ou deslocadas. Nestes dias que passámos fora fomos conhecer uma empresa têxtil em plena Serra da Estrela. Vimos máquinas centenárias, um lindíssimo livro de amostras e os teares em que que ainda se fazem feltro de lã e óptimas fazendas. Prevejo um Inverno bem fornecido na Retrosaria. Read more →