sobre rodas (ii)

Mother and Toddler Take Stroll

Mother and Toddler Take Stroll. UK, 1910 (arq. Corbis).

Irresistível continuar com o mesmo assunto:

Os perigos do carrinho: claro que não acredito que uma criança fique prejudicada por os pais terem optado por um carrinho para a transportar. Muitas vezes é essa a opção que lhes permite (como a Inês observou num comentário) guardarem mais energia para brincar com elas mais tarde. Mas acho que horas a mais no carrinho e anos a mais de carrinho habituam as crianças a não se mexer desde que são pequenas. Também me arrepiam os ovos que mais parecem uma carapaça e escondem totalmente o bebé lá dentro, as capas de chuva usadas quando não estão mesmo a ser precisas e as crianças sentadas com o nariz à altura dos tubos de escape. E a falta de contacto visual com um bebé que vai lá à frente é de facto desconcertante. Tudo isto é independente de ser ou não adepta do babywearing e já me preocupava nos tempos de primípara em que me esfalfei a empurrar um carrinho da maxi-cosi (nos primeiros meses, como já aqui escrevi muitas vezes, usei diariamente um baby-bjorn). Andar a pé desde cedo não serve só para fazer músculo e criar resistência. Também ensina a respeitar os carros e as outras pessoas.

O carrinho como gaiola vitoriana (eu ia escrever isto no post anterior mas hesitei): não que ocorra à maior parte das pessoas sequer pensar nisso, mas um bebé num carrinho é muito mais apresentável. Um bebé no carrinho não nos bolsa em cima (obrigada Marta pela imagem do dar o biberão no carrinho) e um toddler bem seguro não se suja no chão nem nos faz perder a compostura a correr atrás dele e fazê-lo portar-se bem.


Swiss Couple Carrying Cradles

Swiss Couple Carrying Cradles, ca. 1930 (arq. Corbis).

Modo de vida: no meu (de tipo urbano como sugeriu a Sónia) o carrinho tinha tão poucas vantagens que com a E. o arrumámos assim que ela aprendeu a andar e com a A. experimentei uma vez e ao fim de muitos lances de escadas e um quarteirão já estava com vontade de dizer palavrões. O uso que lhe dei nesse dia num restaurante não compensou nem de perto nem de longe o incómodo de o carregar escada abaixo e rua acima, pôr na mala, tirar da mala, armar, usar durante um bocadinho, desarmar, pôr na mala, tirar da mala e por aí adiante até voltar a subir as escadas com ele. E andar com um bebé no carrinho e uma criança ao meu lado foi um pesadelo, porque o passeio não tinha largura suficiente nem eu tinha uma mão extra para dar à E. Quem mora em bairros antigos e gosta de andar a pé e de transportes facilmente começa a ver no carrinho mais um empecilho que um acessório útil. A A., agora com dois anos, alterna entre andar a pé e às cavalitas.

Cadeirinha automóvel: imprescindível mesmo nas distãncias mais curtas. Mas também aqui se pode provocar um bocadinho e dizer que se se conduzisse com mais cuidado não viveríamos tanto sob o seu jugo e que a indústria que produz as ditas aproveita para nos explorar ao máximo obrigando-nos a mudar de cadeirinha pelo menos três vezes por criança. Quem não teve de deixar de convidar os amigos para um passeio ou desistir dele porque as cadeiras das crianças todas são largas demais para um carro só? E quem não tem saudades de dormir deitado (deitado!) no banco de trás do carro dos pais no regresso de um dia de praia?

As situações em que ter um carrinho dava jeito: restaurantes com recém-nascidos ou toddlers ensonados, sem dúvida, lojas de roupa com recém-nascidos (quando o bebé já se senta bem não vi nunca problema nenhum em tirar a A. do sling e sentá-la num improviso de cadeira feito com a minha mochila ou casaco). Mas o dava jeito aplica-se a muitas outras coisas sem as quais vivemos perfeitamente e não estamos para carregar rua acima todos os dias. No meu post queria sobretudo chamar a atenção para o facto de nos fazerem achar que não se pode ter um bebé sem ter um carrinho. Não é verdade, a não ser provavelmente para quem tem mais que um filho pequenino ao mesmo tempo.

As minhas costas (depois de dois anos de babywearing intensivo): estão boas, obrigada. Empurrar e carregar o carrinho, para não falar nas curtas distâncias que às vezes é preciso fazer de ovo na mão, era muitíssimo mais penoso.

Babywearing ou carrinho: uma, outra ou ambas, com informação e bom-senso.

E viva a liberdade de opinião.

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