passajar

passajar

darning

Depois de se começar a fazer roupa ganha-se um apreço pelo trabalho e pelos materiais envolvidos que muda a forma de olhar para a que se vê nas lojas. Fica-se com mais respeito por quem a cria e faz e com menos por quem vende a preços tão baixos que implicam certamente a exploração de alguém. O passo seguinte (do meu percurso, pelo menos) é ponderar cada vez mais cada compra e comprar menos mas melhor. Depois há que saber compor, que é a parte aborrecida até se aprender a olhar para ela de outra maneira e que implica o domínio de técnicas em vias de extinção, como a de passajar. Neste campo tenho quase tudo por aprender, mas vou fazendo progressos. As pantufas velhas da E. renovadas para a A. com remendos (aliás rambend-uf, que é como ela diz) são um sucesso.

Darning / Passajar:

Caixinha do tempo e contents of the painted austrian box, o meu kit de compor meias e outro de longe mas de conteúdo quase igual.

Rato multifunções (via dite lulu).

Mended, de uma das minhas paragens diárias obrigatórias e Make Do and Mend, para ler e aprender.

Imagem: Unidentified woman darning a sock from a story concerning the Ford Motor Company (pormenor), 1937.

meias da serra d’ossa

meias da Aldeia da Serra

Mais notas sobre estas meias que me têm fascinado ultimamente, e que ainda não vi com os meus próprios olhos:

Esta fotografia (ver mais abaixo) é do catálogo Como Trajava o Povo Português (Lisboa, INATEL, 1991, p. 124). As meias não são referidas pelo texto e têm um padrão muito bonito e mais complexo do que os outros que já tinha visto. A fotografia, infelizmente, não está identificada nem datada.

O catálogo/inventário Artesanato da Região Alentejo (Évora, IEFP, 2000), estranhamente, não dedica uma única linha às meias da Serra d’Ossa.

Recebi da Urraca, que também se interessa pela história do tricot, parte de um artigo da 100 Idées de Julho de 1977 dedicado ao artesanato português. Lá estão as meias.

A Manuela enviou-me um link para a Associação de Desenvolvimento Local de Redondo, que promoveu no ano passado um primeiro curso de meias da Serra d’Ossa. Contactei a associação e soube que o mesmo não chegou a realizar-se por falta de interessados.

Ainda não sei se há outras tradições em Portugal de tricot em jacquard, ou se esta é a única. Qual será a sua história?

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meias

meias da aldeia da serra

Com sete pares feitos até à data, ainda sou bastante ignorante no que diz respeito às meias de tricot, mas a minha curiosidade pelo assunto não tem parado de aumentar. Ultimamente tenho tentado saber mais sobre as que de fazem ou fizeram em Portugal. Neste post mostrei umas de Reguengos de Monsaraz e outras que são semelhantes a estas do Museu da Terra de Miranda. Que as há muito diferentes umas das outras é fácil de perceber puxando um bocadinho pela memória. Até agora as que mais me surpreenderam foram estas, tradicionais da Aldeia da Serra (Redondo). O livro de onde tirei a imagem – Artes e tradições de Évora e Portalegre (Lisboa, Ed. Terra Livre, 1980) – dedica-lhes um pequeno capítulo em que diz que na altura da recolha já só eram feitas pela senhora na fotografia (a Tia Lisa, que tinha então 78 anos).

o canhão de fazer meia

Woman knitting with kishie of peats

Woman knitting with kishie of peats (pormenor), Shetland, fim do século XIX ou início do século XX. Imagem do Shetland Museum Photographic Archive.

Há uns meses fui contactada de surpresa pela Rosarinho Caeiro, antropóloga, que me escreveu o seguinte:

Estou a trabalhar no Museu Nacional de Arqueologia que tem uma colecção de etnografia constituída pelo Leite Vasconcelos em finais do século XIX e parte do XX. Neste momento está a ser trabalhada a colecção de tecnologia têxtil. Existem umas agulhas cuja única referência que temos, em verbete do próprio Leite Vasconcelos, é a de que serviriam ‘para fazer meia’ e que já estariam em desuso na altura da recolha. Não sabemos onde foram recolhidas, nem conseguimos perceber como teriam funcionado (não são agulhas normais). (…)

Como é natural, fiquei muito curiosa e cheia de vontade de descobrir o que seriam estes instrumentos mas sem mais informações e sem os ver não consegui ser minimamente útil. Pesquisei o Google books e andei à procura de agulhas antigas de tricot, mas não fiz nenhum progresso.

Alguns emails depois, a Rosarinho conseguiu dar-me mais informações: afinal não eram agulhas mas antes ‘canhões para fazer meia que as mulheres usam à cintura’. São 3, têm 21, 23 e 25 cm de comprimento, em madeira, com entalhes decorativos e incrustações em chumbo. Uma das extremidades das peças, com cerca de 4 cm é em chumbo e é perfurada no topo (com profundidade de 3 a 4 cm). Também me enviou imagens das peças (mas não tenho autorização do museu para as mostrar aqui) e chamou-me a atenção para uma outra, idêntica, da colecção do Museu do Abade de Baçal, que está erradamente catalogada como canhão de tear.

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fio de meia 4

fio de meia

Fio de algodão e cinco agulhas de barbela. Falta a tinta Raposa para estar completo o material para tricotar umas meias destas, à alentejana. As cinco agulhas com barbela ainda se usam pelo país fora para tricotar meias com uma técnica que tenho de aprender um dia destes. A propósito de meias, vale a pena explorar as duas versões da base de dados do IPM (a Matriz e a mais recente MatrizPix). Deixo para depois alguma informação que tenho recolhido sobre uma outra misteriosa técnica usada até ao século XIX para fazer meias e fico-me para já por duas imagens (obrigada Joana pelo link para a MatrizPix):

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tecidos que falam (2)

Kumasi, Ghana

Eliot Elisofon, Cloths on display, for sale at the market. Kumasi, Ghana, 1959 (imagem do Smithsonian Institution Research Information System).

Mais algumas imagens para ilustrar a história dos tecidos que falam. Nas últimas semanas tenho passado horas a olhar para fotografias de África. À medida que se reconhecem mais padrões as imagens ganham novas hipóteses de leitura. É viciante. Aqui ficam mais alguns bestsellers:

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tecidos que falam

tecidos que falam

Quando, há uns anos, comecei a fazer alguma pesquisa sobre a história dos tecidos africanos, fui apanhando aqui e ali referências aos significados dos vários padrões. Este é talvez um dos aspectos mais interessantes do tema, que é vasto: nos vários países em que circulam com mais abundância os wax prints, os padrões impressos nos tecidos não são apenas decoração. A cada padrão corresponde um nome, um provérbio ou uma ideia, e ao vestir um determinado pano está a enviar-se uma mensagem silenciosa a todos os que o vêem e, na maioria das vezes, a alguém em especial. Muitos dos padrões que circulam (cada vez mais, devido à entrada dos chineses neste mercado) têm apenas nomes locais ou não chegam a recebê-los, mas outros são verdadeiros clássicos, atravessam décadas e nunca saem de moda. Com umas horas de pesquisa, consegui encontrá-los a uso, hoje em dia, em vários países. Falam das relações entre marido e mulher, entre a mulher e as outras mulheres, entre cada um e a comunidade. Deixo aqui imagens de alguns dos que já aprendi a traduzir.

O da imagem de cima chama-se Fleurs de mariage e é, como o nome indica, alusivo ao casamento.

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padrões

african fabrics

Continuando com a história dos tecidos africanos. Entre outros assuntos, quero escrever aqui em breve mais sobre a história do fabrico destes tecidos e, por outro lado, sobre a importância e o significado dos seus padrões. São precisamente os padrões, juntamente com as cores saturadas e o craclé decorrente da estampagem em batik, que nos fazem reconhecer imediatamente estes tecidos como africanos. Muitas vezes são abstractos ou quase, muitos incluem motivos vegetais e animais, mas os mais surpreendentes para o olhar não africano são os que mostram objectos do quotidiano, electrodomésticos, dinheiro, etc. Algumas imagens, de muitas outras que me apetecia mostrar:

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a história da capulana 2

capulana

kanga

Continuando com a história da capulana, falta entre muitas outras coisas dizer que ela se separa em duas famílias culturalmente distintas: a da capulana propriamente dita, a que também se chama pano (por exemplo em Angola), pagne (nos países francófonos) ou chitenge ou kitenge (Zâmbia, Namíbia, etc.), cujo padrão pode ter dimensões variáveis e incluir ou não barras longitudinais, e a kanga, cujo padrão coincide com os cerca de dois metros de comprimento do pano, tem uma barra a toda a volta e, muitas vezes, uma frase inscrita (aqui há muitos exemplos). No Brasil também há cangas, mas sobre elas não sei grande coisa.

Uma das kangas que tenho é a da segunda fotografia. Foi trazida de Moçambique e é horrivelmente sintética, mas tem um motivo irresistível. Diz MUARA INTAMUENE ORERA (intamuene quer dizer amigo, o resto não sei). As kangas são usadas sobretudo nos países situados a norte de Moçambique.

A capulana da primeira fotografia também veio de Moçambique. É de algodão e é estampada pelo processo convencional, e não em batik como os outros tecidos africanos. Não sei se me engano muito se disser que em Moçambique, onde o comércio de tecidos está há séculos na mão de comerciantes indianos, os tecidos estampados têm maior importância que os de batik, mesmo que os motivos de uns e outros sejam semelhantes. Aliás, se se andar à procura (eu tenho andado) em fotografias da primeira metade do século XX, o que se vê são tecidos tradicionais de tear e depois também muitos estampados com ar português, impossíveis de distinguir a olho nu de chitas como estas:

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dos tecidos africanos

wax print

Não se pode contar a história da capulana sem falar de uma técnica em particular de estampagem, por intermédio da qual nasceu o tipo de tecido que mais facilmente identificamos como africano. É a técnica indonésia do batik.

Resumindo bastante, pode-se contar a história assim: em meados do século XIX os holandeses tentam entrar no importante negócio de tecidos em batik da Indonésia (então sua colónia), mas sem grande sucesso. Por razões conjunturais esses tecidos são introduzidos e apreciados na África ocidental (onde os batiks indonésios já eram admirados há muito), levando a uma reorganização dos produtores holandeses no sentido de adaptarem o desenho dos tecidos ao gosto do mercado africano. Também empresas inglesas se dedicam à produção de tecidos em batik, cujo fabrico ainda era semi-manual em meados do século XX e permanece muito mais complexo que a simples estampagem.

Muitos dos padrões introduzidos por estas empresas há mais de cinquenta anos continuam a ser produzidos e imitados por fábricas locais. Nos últimos anos, os produtores têxteis chineses vieram alterar drasticamente o funcionamento do mercado (centrado parece-me que sobretudo entre a Costa do Marfim e os Camarões). Os contornos do fenómeno (bem como o conceito de africanidade destes tecidos que afinal são coloniais) estão muito bem explicados nesta entrevista, que deve ser o texto mais interessante sobre o assunto disponível on-line.

Hoje em dia, grande parte dos tecidos africanos à venda são cópias dos desenhos desenvolvidos pelas empresas holandesas e inglesas ao longo de mais de um século e meio, e impressos em tecidos de má qualidade, muitas vezes já com mistura de fibras sintéticas. Quem sabe, distingue-os pelo tacto e pelo preço mas quem compra on-line arrisca-se a levar facilmente gato por lebre. Nas fotografias tentei mostrar a diferença de textura entre um tecido em batik genuíno (o cor de rosa) e uma imitação, mas não é muito fácil. Fica o conselho para quem quiser comprar tecidos africanos deste género (ou peças produzidas com eles): quanto melhor é o tecido mais difícil é distinguir o direito do avesso, mais bem sobrepostas são as várias cores, mais densa é a trama e maior é a gramagem. A ourela costuma dar indicações sobre a origem (às vezes falsas, mas vale a pena ver). O preço também é um bom indicador: os bons tecidos são mesmo caros, não há volta a dar. Um bom wax aguenta anos sem perder as cores e a textura (mesmo que nos faça companhia todos os dias), e uma imitação está irreconhecível depois de meia dúzia de lavagens. Se se for comprar on-line, escolher só sites que forneçam indicações precisas sobre a qualidade e origem de cada um dos tecidos.

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