extra

cathedral

Dou por mim a pensar no que são e no que queremos das actividades extra-escolares (não se lhes pode chamar alguma coisa que soe menos burocrático?). A minha opinião de mãe sobre a frequência e intensidade das mesmas é a de que deve ser só uma, praticada perto de casa ou da escola, só aos dias de semana (e não mais de duas vezes por semana) e acabar cedo. De resto, as tardes são para descansar, brincar (e fazer os trabalhos de casa a tempo e horas). Compatibilizar estes princípios com a realidade é que não é fácil. E que actividades querem os nossos filhos praticar ou lhes damos a escolher? Quais são as alternativas ao ballet/música/natação do costume? Quanto mais penso no assunto mais me espanta o contraste entre aquilo que se faz às crianças nos conservatórios de música e dança ou nas escolas de desporto (treiná-las desde muito cedo e de forma bastante rígida para serem potencialmente profissionais nessas áreas) e o inconcebível que seria para a maioria das pessoas entregar miúdos de sete ou oito anos a uma formação igualmente intensa em culinária, cestaria, agricultura biológica, pintura ou relações internacionais. É disparatado comparar? Acho que não. Oferta de qualidade nestas ou noutras áreas alternativas à norma, tirando os cursos de férias e de fim-de-semana que se estão a tornar numa indústria perigosa (que fácil que é comprar algumas horas de sossego com estes pretextos didáctico-culturais), para crianças, não sei se há. E que sonhos e frustrações guiam os pais quando escolhem as actividades para (e pelos) filhos? O tema dá pano para mangas.

Nas imagens, um óptimo jogo dos anos 70 chamado Cathedral. Desconfio que a E. trocaria sem pestanejar o piano por uma tarde semanal de jogos de estratégia.

cathedral

33 comments » Write a comment

  1. Such a rich, interesting and contentious theme! I sometimes feel like my role is to balance school. Or even un-do it. In the UK there is so little physical exploration at school, that after school and weekends there must always be something active. But I think freedom is what is missing from school and all those extra-curicular activities you mention. It’s just even more structured time. Like you say, if you study music it’s with an implicit weight that the endgame would be a career in music, and not just a pleasure of making music for yourself. I think that’s why so many people learn an instrument, then give up and never play again. How long is the school day for E?

  2. Eu considero um crime o que se faz a crianças em idade escolar. Interná-las numa sala durante 8 horas. Depois e durante aquilo que deveria ser um tempo para estar em família, trabalhos de casa. E claro o ballet, piano, natação, futebol…
    Quando é que as nossas crianças vão brincar na lama, ao ar livre, ao berlinde à apanhada ou simplesmente “perder” tempo a olhar os sinais das estações nos ramos das árvores ou nas pedras do caminho.
    Estamos a educar uma geração de pessoas desconectadas!
    E nesta tarefa verifico que estamos a ter sucesso! Noutras nem por isso!
    O meu filho mais velho tem natação e futebol (4 horas por semana) e 6 horas de escola por dia. 34 horas semanais. quase quase um horário laboral de 40 horas semanais.
    E sim, conto os almoços e recreios porque também é trabalho aprender a viver com mais 300 crianças!

  3. Pois eu na associação de pais sou uma espécie de maluca neo-hippie, porque me atrevi a perguntar a um pai que dizia que a filha tinha tantas actividades que adormecia em cima do jantar: então, e brincar, quando é que brinca….
    Essa coisa das actividades dá um jeitão aos pais, enquanto estão por lá, há uma coisa chamada silêncio…. e depois vão dizer que os miudos crescem depressa demais, ou que não viram os filhos crescer:(

  4. ah rosa, abriste a caixa de pandora ;)

    apesar do longo dia de escola (9h30 às 17h00 – e vou sempre buscá-los mais cedo que isso, embora nem sempre consiga que saiam antes…) tento compensá-los com todo o resto do tempo livre no(s) jardim(ns), para estarem com amigos extra-escola, para se sujarem MESMO, para estarem à chuva e ao sol e a atirar balões de água uns aos outros (brincadeira recorrente nestas semanas pré-carnaval)… mas, sim, também vão à natação (logo a seguir à escola, e a pé, e perto de casa também) 2x semana.
    porque é que a natação é a única excepção à regra do dolce fare niente pós-escolar? porque faz bem a tudo, em termos físicos, faz bem à cabeça (ficam tão calminhos nos dias de piscina…)e, acima de tudo, saber nadar (correctamente e com capacidade de resistência)é uma life skill neste país, em que passamos quase 5 meses por ano a ir à praia, dois ou três dos quais praticamente todos os dias (nós, pelo menos). o restante desporto, pelo menos até aos 10/11 anos, na minha douta opinião (e olha que já falei com mais de um ortopedista pediátrico acerca do assunto), pode bem ser substituído por muita actividade física, sem regras nem regimes – basta andar muito, correr, saltar à corda, subir às árvores, jogar à bola, andar de trotinete e bicicleta…

    as extra-curriculares mais “intelectuais” ou “artísticas”, quando se tem tanta hora disso mesmo na escola, parecem-me uma tortura para os miúdos.

    Mas há que ver que a esmagadora maioria dos pais tem horários incompatíveis com os das escolas públicas… dentro da realidade existente, o melhor mesmo era deixar que os miúdos, findas as aulas obrigatórias, pudessem simplesmente estar no recreio a brincar/conversar ao que bem lhes apetecesse (ou numa sala de convívio/biblioteca quando chove muito e faz frio e são 18h00 no inverno) até que os pais os vão buscar… quem tem um bocadinho de mais dinheiro opta por os deslocar aos tais centros das actividades extra-curriculares (com a avó, o tio, a prima, o motorista) onde também ficam até às 19h, em regime de trabalho infantil… “criativo”

    enfim, já falámos muito disto…

  5. O problema é que se acabou com uma grande instituição que se chamava Avós, ou Mães domésticas.

    A emancipação da Mulher trouxe-nos coisas muito boas mas os filhos ficaram definitivamente a perder.

    Poucas são as crianças que têm a oportunidade de brincar nos dias de hoje pois são obrigadas a actividades extra curriculares porque os pais não têm horário para cuidarem delas mais cedo.

    Também é verdade que se caiu no exagero de querer transformar as crianças em atletas de alta competição ou grandes músicos, independentemente de terem aptidão ou vontade.

    Muito do mau comportamento que hoje se vê nas escolas é fruto da falta das brincadeiras de rua, da subida às árvores dos jogos de bola e apanhada das bulhas e zaragatas que nasciam dessas brincadeiras, que nos fazia gastar as energias.

    Hoje os intervalos são mínimos, nem dá para lanchar, quanto mais para gastar alguma energia, como estão cheios dela gastam-na na sala de aula fazendo disparates. Contudo ao final do dia depois de 8h de aulas estão tão estafados que poucos são os que tiram partido das actividades onde estão inscritos.

    Eu tenho 49 anos e os meus pais sempre trabalharam. Em Faro nos anos 60 não havia actividades nenhumas, não havia piscina, ginásios só algumas professoras de música e essa actividade era para a elite da cidade.

    A minha avó vivia quase ao lado de minha casa e aos 6 anos tive a chave de casa, outros tempos, ruas sem carros e sem perigos, brinquei que me fartei na vizinhança da minha casa com as minhas vizinhas, corda, manecas, berlinde, bonecas, 5 pedrinhas, mosca,tudo isto numa altura em que só havia aulas de manhã ou à tarde. Fui uma felizarda.A nossa vigilância era feita pelas mães ou avós que sentadas na soleira das portas faziam renda ou costura.

    Os meus filhos (21,26) já são da época em que a carga horária se transformou num absurdo. Tiveram a sorte de ter a mãe em casa e poderem optar pelas actividades que quiseram e para as quais tinham aptidão.

    Ela fez várias coisas porque quis e para isso tinha aptidão, Ele depois de andar no judo e na ginástica promovidos pela Câmara e Escola chegou a pedir-me que não o inscrevê-se pois queria tempo para brincar,foi muito revelador da necessidade das crianças desta idade, ele tinha 7 anos e entendia as actividades extra-curriculares como mais uma disciplina da escola.Eles saiam da escola primária às 15h.

    Temos um terreiro atrás de casa que servia de campo de jogos onde se juntavam algumas das crianças da vizinhança a brincar e eu podia vigiá-los da janela, Hoje não se vê nenhuma, quando saem da escola primária às 17,30h é de noite e em carrinhas para os ATL e ginásios.

    Para quem não tem outra opção para cuidar dos filhos se não o optarem por actividades extra-curriculares , pelo menos tentem perceber quais as suas aptidões e desejos para que eles possam tirar algum prazer dessa actividade.

  6. Ser criança nos dias de hoje não é fácil!
    Quando os pais têm horários pouco flexíveis, de muitas horas, os avós não estão perto, poucas alternativas restam às crianças… e a minha filha é um destes casos.

    Quando em Abril do ano passado fui a uma entrevista para mudar a minha filha de escola, a educadora perguntou-me o que esperava da escola. A minha resposta foi simples: Quero que a minha filha se sinta bem aqui, que seja FELIZ!
    Sim, quero que a minha filha seja feliz pois é ali que passa a maioria do seu dia, 5 dias por semana!
    E até agora sinto-a feliz! Muito FELIZ!

    E de facto tem muitas actividades extra-curriculares: Ballet, Grupo Coral, Mundo Científico. De todas elas, talvez a que menos a motive seja o Ballet, mas por convicção nossa de que esta actividade a desenvolve em termos motores lá vai 2 vezes por semana.
    Mas registo com muito contentamento que as actividades Grupo Coral e Mundo Científico são de tal maneira importantes para ela e a deixam tão feliz que, mesmo sendo leccionadas no final do dia (17h-18h), quando o professor não vem ou nós a vamos buscar mais cedo é grande o desalento e a tristeza. Quando vem da actividade está sempre animada, com muito para contar e sobretudo FELIZ!

  7. e as festas de anos? ando a pensar muito nelas….e naqueles parques que fazem fila para deixar miúdos que passam a semana toda enfiados na escola e ao fim de semana voltam novamente a ser enfiados num pavilhão barulhento….que até dá jeito..que os meninos brincam e os pais ficam com tempo livre….:(

  8. eu trocaria… ate pq perdi mts horas obrigada a estudar em frente ao raio do piano e ainda hj n suporto ouvir tal coisa :)

    jogos de estrategica, sao mt mais q um jogo e desenvolvem mt mais q uma aula de piano. sao forcados a lidar com a frustracao obrigando os miudos a aprender o qt vale a concentracao e imaginacao, sem ser de uma forma autoritaria e repetitiva….e sempre a ouvir q o mozard compos a primeira musica aos 4 anos(??) lol

  9. Pois eu sou uma dessas poucas mães que escolhem ficar em casa, trabalham e muito em casa, que correm de um lado para o outro o dia inteiro para que possam ir buscar o filho ao meio-dia para almoçar em casa. À tarde vou buscá-lo às 17:00, já que antes disso está sempre ocupado com alguma coisa. Mesmo que o queira apanhar mais cedo, não posso porque as aulas estão divididas de maneira a que se estendam pela tarde adentro.
    Actividades extra-curriculares não tem por isso mesmo. Porque se já corremos para que possa brincar um pouco, que tome banho e que faça os trabalhos de casa é impensável pô-lo a trabalhar mais que isso. Ele próprio não tem interesse em acompanhar os colegas no futebol ou na natação. Faz ginástica e judo na escola, durante o horário escolar e brinca muito no parque.
    São muitos os momentos em que me pergunto se não estarei a ser liberal demais, se ele um dia não me vai apontar o dedo por não ter insistido para que aprendesse coisas que os colegas aprenderam.. mas no fundo eu acredito na vida simples e que tudo acontece quando tem que acontecer. Tenho a certeza que lá porque não vai na onda do momento não ficará atrás de ninguém.
    As crianças estão a trabalhar mais que muitos adultos, em casa estão sozinhos sem companhia para brincar (porque não há dinheiro que chegue para irmãos e actividades – ou um ou outro).. eu não sei que adultos seráo estas crianças e o que farão eles aos seus filhos.
    Obrigada por falares nisto, Rosa.

  10. Variedade é a resposta.
    Isso e suportar os custos dos pais (mãe ou pai ou ambos) regressarem a casa a horas decentes para exercerem a sua função de potenciais educadores.
    Cada vez gosto mais de estar com os meus filhos. Sou professora do 1º ciclo e não sei o que estou eu a fazer ocupando os tempos “livres” dos filhos dos outros enquanto alguém está, nesse momento, desapaixonadamente, com os meus!

  11. outra coisas que não compreendo é os trabalhos de casa, se passam tanto tempo na sala de aula! (a escola dos meus não tem trabalhos de casa; havia de ser lindo pô-los a trabalhar mais, saindo como saem às 17h!)

    os pais têm medo que os filhos percam o comboio da formatação académica mas não têm medo que eles não saibam atravessar ruas sozinhos com 7 ou 8 anos nem que não saibam saltar à corda… a nossa geração – agora pais de filhos em idade escolar – já estava a meio caminho disto, porque as mães trabalhavam fora e passávamos mais tempo por nossa conta, mas pelo menos deixavam-nos explorar o mundo… ou o quintal.

    Claro que há crianças que adoram os extra-curriculares e as festas de aniversário programadas – desde pequeninas que são habituadas a esse ritmo, não têm irmãos nem primos nem vizinhos por perto com quem brincar, nem adultos disponíveis para conversar e ensinar coisas não-curriculares…

    infelizmente parece-me que a “revolução” terá de partir de cima, da obrigação de menores horários para os adultos, para que se possam ir buscar as crianças mais cedo e se perceba que o que elas mesmo querem é não fazer mais nada senão aquilo que lhes apetece…

  12. Acho que além do horário excessivo de trabalho dos pais, uma situação pela qual não consigo julgar ninguém porque sei muito bem como tem evoluído o mercado de trabalho, o facto da maior parte dos pais terem tido uma infância “tradicional”, com a mãe em casa, ou pelo menos outro tipo de acompanhamento familiar, leva a que não consigam reconhecer a situação de perigo do excesso de actividades extra-curriculares dos filhos.

    Feliz ou infelizmente, tanto eu como o meu marido já nascemos numa situação em que ambos os pais trabalhavam e, reconheço agora, isto não era a norma em Portugal. Os nossos pais adiantaram-se em duas décadas ao que agora é normal.
    Já passamos os dois, enquanto crianças, pelos longos horários de trabalho e pela rotina diária de só ver os pais à hora de jantar e de manhã. Tomei a decisão consciente de não querer isso para a minha filha, mas sei que é muito difícil entender sem ter essa experiência em primeira mão.

    A maior parte dos pais acredita genuinamente que está a dar tudo o que pode aos filhos, e também que está numa situação profissional em que não tem escolha senão largar os filhos durante 12h.
    Também não consigo culpar os pais por quererem algum tempo para si quando passam o dia todo a trabalhar e a fazer “commuting” e ao fim-de-semana ainda se vêem com a difícil tarefa de passar o afamado “tempo de qualidade” com a família, quando provavelmente o corpo e a cabeça só lhes pedem para dormir.

    A questão que colocas não tem uma solução simples que se possa aplicar apenas a esse problema, porque faz parte de uma situação muito maior que está relacionada com a forma como se trabalha hoje em dia. Ou melhor, como se vive apenas para trabalhar.

  13. É verdade que muitas crianças passam o dia em “actividades”, seja nas escolas oficiais seja nas academias privadas. Muitas outras passam a tarde em casa sozinhas em frente a um monitor. É triste e não sei como se resolve. Mas o que queria discutir com este post era mais a escolha destas actividades: porque é que a oferta é tão reduzida em termos de variedade? Há tantas coisas que as crianças de outros tempos aprendiam em pequenas e agora não se acha interessante ou normal que assim seja.

  14. desculpem o tom levemente marxista, mas as crianças do primeiro mundo urbano e suburbano de hoje são um bocadinho como aqueles proletários do século XIX, que já nada têm de seu e dos seus saberes próprios e que vivem apenas para produzir, produzir, produzir… os pais delas não estarão muito melhor, principalmente os que não têm opção – e há muitos, se não a maioria, que não tem opção. como disse a alice, a questão é gigantesca e tem que ver com a forma como o trabalho e a vida são hoje encarados…

  15. rosa, li agora o teu comentários aos nossos comentários – acho que a resposta também está um pouco por todo o lado. O que dantes se ensinava às crianças não era bem ensinar no sentido de hoje em dia, era estar a fazer a actividade normal do adulto e deixá-las experimentar, por observarem como se fazia… era mais uma transmissão de saberes e competências (odeio a expressão) cozinhar, coser, bordar, consertar brinquedos e não só, aprender a pescar e a depenar galinhas, etc. Era possível porque as crianças estavam mais tempo com pessoas de várias idades e mais tempo junto de quem trabalhava, em casa ou fora dela…
    os pais de hoje não sabem fazer a maior parte dessas coisas (íncluo-me, completamente) porque muitas vezes também já viviam na cidade com os próprios pais a trabalhar fora de casa e não havia tempo/espaço para essas aprendizagens… o tempo livre – que era muito, é verdade – era de lazer… agora os nossos filhos, no tempo livre, estão também a trabalhar; e nós, se não estamos no ginásio/trânsito/compras/entre empregos/à procura de emprego, estamos no emprego. há ainda menos tempo e menos espaço para acolher, naturalmente, os miúdos…
    e quando nós próprios deitamos fora as meias rotas, em vez de as cosermos, porque razão iríamos querer que os nossos filhos aprendessem a passajar?

  16. O teu comentário desperta uma série de novas pistas (nomeadamente tudo o que não partilhamos com os nossos filhos por se passar só entre nós próprios e um monitor), mas tenho de sair que são horas de ir buscar as miúdas à escola :)

  17. Na minha modesta opinião, que não sou mãe, mas vivo rodeada delas, muitos são os pais de hoje que não fazem ideia de como entreter os filhos nos tempos livres. É muito mais simples “encafuar” as crianças em “depósitos de brinquedos” do que levá-las a um museu, a uma exposição ou, simplesmente carregar na mala um caderno e meia dúzia de lápis…
    E quando falo em museus ou exposições não estou a armar-me em pseudo-intelectual: as crianças gostam, apreciam à sua maneira. Há uns meses fomos ver uma exposição de diários gráficos, em Lagos, e levámos a afilhada dos meus pais, com 5 anos, e ainda hoje ela fala nisso. E era vê-la a observar cada desenho e a chamar-nos a atenção para certos detalhes. Na semana passada pediu-me, insistiu, e fez-me levá-la ao museu municipal, pois queria ver as pinturas. No fim tive de lhe prometer uma ida à “biobiteca”. E esta é apenas uma criança normal, que se analisarmos o ambiente socio-económico-cultural em que cresce nada levaria a crer que tivesse tais interesses.

  18. os tempos pedem para ser reinventados a toda a hora e as grandes ideias vêm normalmente de grandes problemas.
    já todos refectimos sobre o overparenting e o overschedualing. o equilíbrio é sempre difícil e demasiado pessoal para ser generalizado, mas nunca ninguém disse que era fácil; faz parte do papel de pais.

    parece-me que uma pista para este excesso de actividades semanais/anuais na rotina por vezes diabólica das crianças pode ser um tipo de acontecimentos mais esporádicos e sempre festivos (a gulbenkian, em lisboa, cobre quase todos os campos lavoures nunca lá vi).
    porque não, espaços como o teu Rosa, poderão ser novos lugares desses tempos passados em que aprendemos a cozinhar, costurar, a bordar e a tricotar com as nossas mães e avós? (afinal há muita gente da nossa geração que já não teve sorte de aprender, ou não têm tempo para ensinar, ou não têm avós por perto)
    parece-me que terias uma legião de felizes-inscritos nesses lugares de aprender!

  19. This is a topic we have been discussing today too! It’s the same here: there’s no real variety of “extra-escolares”. I refuse to have my kids spending extra time at school if it isn’t in something playful. I don’t want to have to think always in terms of doing these things with our eyes set on the future. I really want them to have time to play and experiment. And it seems that, as someone said above, I have to balance school.

  20. É um assunto pertinente e obrigatoriamente ligado à disponibilidade dos pais. A minha filha está no terceiro ano numa escola pública. As actividades extra-curriculares (inglês, educação física e música) que o Estado paga funcionam muito mal: os professores não conseguem trabalhar com as turmas; quando chove não fazem ginástica, porque não há ginásios que cheguem, etc.
    Por isso entendemos que além da escola ela deveria praticar uma actividade física que lhe agradasse e aprender música. Assim, faz uma vez por semana “play gym” (basicamente cambalhotas e muitos saltos) e, quase seis horas por semana, música no Conservatório. Sinceramente, tanto num sítio como noutro (o ginásio também treina futuros campeões de diferentes modalidades) não sinto essa rigidez de que falas. É verdade que obriga a algum esforço mas ela prefere ir para o Conservatório, por exemplo, do que para a escola, mesmo que isso implique andarmos 35 minutos a pé até chegar à Rua dos Caetanos :).
    Quanto aos sonhos e frustrações que guiam os pais, devo dizer que, apesar de chorar baba e ranho quando vou vê-la cantar no coro, não estou à espera que ela se torne música, ou ginasta, ou outra coisa qualquer. Quero sobretudo tentar que ela adquira um leque de conhecimentos que depois possa usar como entender. E isso inclui tricotar, cozinhar, plantar batatas e tecer no tear artesanal da minha avó. Mas isso eu posso ensinar-lhe. Música, por exemplo, não posso.

  21. Este tema tem pano para mangas…
    Mas comento para reforçar a sugestão da S, porque não começar a organizar também workshops para crianças e, porque não, jovens?

    Sempre levei os rapazes a museus e workshops, de todos os géneros e por todo o lado, cresceram assim e acham natural. Agora com 13 e 10 anos começa a ser mais dificil encontrar coisas para eles, não porque não queiram ir mas porque para a idade há relativamente pouca escolha de actividades que sejam diferentes, e estimulantes. Compreendo perfeitamente o que a Rosa quer dizer!
    Lembro-me de inscrever os rapazes num, de culinária, teriam 8 e 6 anos, e adoraram! Cozinharam, com a mão na massa, e no fim comeram as bolachas! Sucesso garantido! O mais novo continua a cozinhar comigo.
    Não me incomodaria nada inscreve-los num workshop seu de costura, e atrevo-me a acreditar que eles também não se importariam (talvez esteja a ser ingénua…vou-lhes perguntar!)

  22. Olá
    Relativamente a este assunto,posso dizer que já tive a minha quota parte de reflexão e cheguei à conclusão de que se os nossos filhos precisam de actividades extracurriculares, então que seja alguma na área do desporto ou das artes que lhes agrade muitíssimo. Se nenhuma lhes agradar especialmente, então que seja na área da Matemática. É que os nossos filhos vão precisar de mais Matemática do que alguma vez se imaginou ou precisou.

  23. Tema complicado. Estou prestes a ser mãe e só conheço o lado de quem fica numa sala de aula com 20 a 30 alunos. Sou professora e o meu sonho é que durante o tempo em que ficar em casa para acompanhar o meu filho, que será cerca de um ano e meio, consiga arranjar alternativa ao ensino e encontrar algo que me faça feliz. O ensino já me deixou bastante feliz. Ia dar aulas feliz e contente e sentia que estava a dar algum contributo para a sociedade. Tudo mudou há alguns anos. Não vou falar de política porque não vale a pena. Mas a verdade é que de ano para ano os alunos estão cada vez mais enclausurados na escola e afogados em actividades extra. Não têm tempo para brincar, mal vêem os pais e perdem certos princípios importantes. Estão cada vez mais egocêntricos e egoístas. De quem é a culpa? Julgo que seja de todos. Não é isto que quero para os meus filhos. Quero que tenham a infância que tive. Que vão para a escola e que depois tenham o seu tempo livre para brincar, pintar, andar à tareia e tudo o mais. O que acho é que estamos a castrar uma geração inteira. Estamos a privar uma geração inteira de gozar a infância. E mais tarde toda a sociedade irá sofrer com isso. Diz-se que o trabalho infantil é um abuso, um crime. Então e toda a sobrecarga escolar e extra-escolar que as crianças têm hoje em dia? Não é a outra face do mesmo crime?

    Que os pais não tenham tempo para os filhos… bem, compreende-se. Hoje em dia os pais querem dar o melhor aos filhos e, por isso, matam-se a trabalhar. Mas, e isto sem querer lançar aqui a confusão, antigamente os nossos pais e avós foram criados apenas com o mínimo necessário para viver. Não tinham televisão (nem todos), não tinham roupa de marca, comiam o que havia para comer, e tornaram-se adultos. Sobreviveram. A importância absurda que se dá hoje ao dinheiro, ao “estatuto social” e ao culto da aparência é demente. E quem vai pagar a factura toda são os que ainda não compreendem como é que o mundo “gira” – os que ainda são crianças e jovens.

  24. Nos concelhos de Ourique, Almodôvar e Serpa as turmas do primeiro ciclo têm nas chamadas AEC’S (aulas de enriquecimento curricular)mais que as já vulgares disciplinas de Inglês, Ginástica e Informática aprendem Cante Alentejano.
    O Projecto Cante nas Escolas, marca a diferença no quotidiano daqueles alunos ensinando Cante Alentejano aos mais jovens, tornando-os senão interpretes, pelo menos futuro público para o Cante.
    Além de aprenderem as modas da sua região existe uma componente de explicações sobre este património regional, explicando-lhes o sentido das modas, as suas origens, as tradições associadas e os modos de vida dos tempos dos seus avós.
    O mentor do projecto é Pedro Mestre, um exímio interprete do Cante e responsável pela reabilitação da Viola Campaniça uma das mais tradicionais violas de Arame Portuguesas.

  25. também me parece que hoje há muitos pais não sabem brincar com os seus filhos, acham que uma PSP ou um magalhães ou viagem/festa com os amigos entretém os garotos. Lá está, entretém mas não lhes transmite nada de produtivo, a sua imaginação não é estimulada. Quando eu digo que aminha filha só vai brincar com blocos de madeira é tudo a rir, claro que ela tem outros brinqueditos, mas a verdade é que a imaginação de uma criança é estimulada com coisas simples, tal como ir a um museu de arte antiga ou arte moderna, museus regionais, livros até dizer chega, as mil e uma opções de uma corda, tecidos e lãs e até culinária básica. às vezes somos mesmo nós pais que não nos lembramos de simplificar :)
    adorei o post.
    adorei os comentários.
    fiquei vidrada no jogo!!!

  26. Afinal não fui ingénua!
    Mostrei um bocadinho do blog, a loja, fotos de workshops anteriores, as almofadas feitas pelas alunas, e naturalmente perguntei aos rapazes se queriam que os inscrevesse num, não com adultos mas com jovens. Disseram que sim. Naturalmente.
    Por isso, se algum dia lhe apetecer organizar workshops para jovens, acho que já tem aqui dois candidatos!

  27. Li todos com atenção e felizmente posso contar com a instituição chamada avós, que vão brincado com a minha filha de 2 anos. Ela está na creche e adora, mas penso que o facto das avós irem buscá-la mais cedo é fundamental. Infelizmente eu não posso.Concordo plenamente com os workshops para mais novos, inclusive com menos de 3 anos pois há muito pouco coisa, nem que seja apenas para mexerem nas lãs, tecidos e brincarem com as cores. Penso que também seria interessante workshops partilhados entre pais e filhos pois seria mais uma oportunidade de passarem tempo juntos. Eu por exemplo sou um zero à esquerda com a máquina da costura e adorava aprender, sei que a minha filha ainda não têm idade, mas caso tivesse seria excelente aprendermos juntas.

  28. ..tenho um filho de 7 anos apaixonado por jogos de tabuleiro mas que tem muita dificuldade em encontrar colegas da mesma idade que também gostem deste tipo de jogos. Tentei descobrir sítios onde fossem promovidos encontros para jogos de tabuleiro, mas os que encontrei têm como utilizadores exclusivos pessoas bastante mais velhas. Uma pena!

  29. Na minha opinião o problema é que na maioria das vezes esta oferta de actividades funciona como um “negócio” e o objectivo não é que as crianças vivam a “experimentação” de uma actividade (qualquer que ela seja) mas que as crianças saiam da actividade com um resultado e com um objectivo cumprido… O que há cada vez menos é actividades focadas no prazer da experimentação por si só… um espaço onde o objectivo não é chegar a um produto mas sim viver um processo…
    Eu sugiro uma vista de olhos ao Espaço Azul.

  30. Parabéns pelo magnífico blog. Não tenho filhos, mas o tema é interessante o suficiente para lançar os meus “two cents”. Até porque apesar de concordar, no essencial, com o que foi dito, parece-me haver aqui um certo saudosismo de como tudo era bom antigamente e agora não presta. As coisas estão más, mas nunca estiveram tão boas como agora. Falo a respeito da disponibilização da informação e do respectivo acesso à mesma, do acesso ao ensino (sobretudo o superior), à cultura, etc, e a condições de vida que possibilitem que se desfrute, minimamente, de tais opções. Se hoje se corre o risco de açambarcar as energias dos pequenos com tanta actividade extra-curricular, tal decorre do facto de hoje se poder ESCOLHER que tal aconteça, opção que há 20 ou 30 anos só estava presente nas classes mais privilegiadas.
    Como em todos os assuntos onde há LIBERDADE de escolha, tal privilégio pode ser mal administrado, e facilmente se cai nos abusos aqui tão profusamente documentados. No entanto, e como também é uma área que conheço bem, vêem-se facilmente postas de lado as artes, e em especial a música, cuja prática disciplinada é aqui quase vista como um “crime” que “rouba” a infância aos pequenos. Não podia estar mais em desacordo com esta ideia. Inúmeros estudos confirmam a influência extremamente frutuosa, a todos os níveis, da prática musical de forma consistente. E sendo uma arte especialmente difícil de dominar, quanto mais cedo se começar, melhor. Temos, hoje, mais oportunidades para oferecer aos pequenos, para que não se limitem a ter de “jogar ao guelas”, ou “à carica”, ou a “descobrir o quintal”, pois parece que aqui tais lugares comuns são tidos como sinónimos de espaços perfeitos para desenvolvimento dos pequenos enquanto crianças que têm todo o direito a brincar. Estou 100% de acordo com a brincadeira em tais lugares, mas fazer dos mesmos um Éden da mais adequada e verdadeira estimulação,não,dificilmente. Dêem-lhes oportunidades para, caso gostem evidentemente, serem estimulados por outras áreas tidas como “intelectualmente desgastantes”. Dêem-lhes oportunidades para saírem de uma certa mediocridade de pensamento que acha que a suma felicidade é contemplar uma flor do quintal. Dêem-lhes espaço para experimentarem coisas novas e não rotulem todas as actividades “que dêem algum trabalho” como actividades alienantes. Comentário que também foi feito a respeito de jogos de computador, aqui tidos como entidades “castrantes” da imaginação dos pequenos. Outra ideia completamente errada do meu ponto de vista. Os jogos adquiriram uma perfeição de tal ordem que hoje em dia fazem o jogador mergulhar em autênticos mundos da mais pura fantasia, constituindo experiências com um impacto assinalável ao nível visual, auditivo, e assim, também, na própria imaginação e fantasia do jogador. Naturalmente que também acarretam perigos próprios, daí o necessário cuidado em torná-los disponíveis aos miúdos. Fundamentalmente, sim, a brincadeira é essencial, mas dispensar tudo o resto como um “engano alienante e castrador” é simplesmente incompreensível.

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