no armário

lã

A propósito da simpática entrevista comigo que a Divine Shape publicou hoje, uma camisola que fiz em 1994 com lã que comprei na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. Tinha dezoito anos e usei-a continuamente durante uns dez. O novelo que sobrou está na capa do meu livro.
No outro dia citei dois autores do século XIX a propósito de roupa. Mas no século XXI, ao contrário do que acontecia no pré-pronto-a-vestir, o que vestimos reflecte aquilo que somos. O que vestimos, o que comemos, o que compramos. Porque comprar, mesmo que poucas pessoas o façam pensando nisso, é um acto político. Onde compramos o pão e que pão compramos, onde compramos uns sapatos e que sapatos compramos? Em quem decidimos diariamente investir, apostar, seja com €1 ou €100. Queremos que a padaria de bairro sobreviva, é lá que vamos comprar o pão. Queremos apoiar os produtores portugueses? É não comprar sem olhar para a origem dos produtos. Umas calças a €10? Quanta gente explorada está por trás desse preço? Todos os dias são dia de eleições, o que há é pouca gente a dar por isso.

13 comments » Write a comment

  1. É isso mesmo. Mas a maioria cede facilmente, sem pensar. Quanto mais entendemos a cadeia de produção a nível mundial, mais apavorados ficamos. Nenhuma t shirt de 2€ pode significar que há algo certo na sua produção… E sim, votamos todos dias com as nossas opções.

  2. Embora toda a tua vida seja um exemplo nesse sentido de vez em quando convém falar declaradamente ao mundo e fazer com que outros também comecem a pensar e não andar aqui por ver andar os outros. Ao coontrário do que a maioria pensa todos temos uma cota parte de culpa do estado do mundo, se não for por mais nada é pelo consumismo a que nos fomos habituando. Já deixei de comprar muitas coisas. E a vida é mais simples. Melhor. Obrigada, Rosa.

  3. Concordo com essa forma de estar na vida.
    Acho que tem a ver com ser Consciente.

    Gosto de cultivar uma parte da minha comida, de fazer roupa para os meus filhos, dos cobertores da Serra, do talho, mercado, frutaria e padaria do bairro.
    Mas confesso que não consigo ser completamente coerente. Sobretudo na roupa… Agora tenho as “Josefinas” de um grande amiga para calçar no Verão. Mas vou mais do que gostaria à Zara e a outras parecidas.

    Na prática o consumo consciente parece-me mais fácil na comida que em quase tudo o resto.
    Mas a parte boa é que se nota que começa aos pouquinhos a ser uma tendência.

    Obrigada pela inspiração!

  4. Tens toda a razão, Rosa. Tudo na nossa vida quotidiana é uma escolha política.

    Mas muitas vezes tens mesmo de comprar as calças de 10 euros porque os miúdos crescem demasiado depressa para umas calças de 30, e tens vários miúdos a crescer depressa, e 2 adultos a precisar de um segundo par de calças, e por aí fora…

    Sabes, muita da roupa made in Italy, por exemplo, é feita em Nápoles, em sweatshops chinesas controladas pela máfia local (com a ajuda da chinesa).

    O mundo é complicado.

    Beijos

    Marta

  5. Completamente de acordo, comprar deve ser um acto consciente e de consciência. No entanto a voz dessa consciência só pode falar quando a escassez de recursos não a cala violentamente. Fazer é poder mas é preciso poder fazer. Sim, “tout est politique”!

  6. Ainda outro comentário, este fim de semana fui a Mértola, afinal fica aqui mesmo perto, adorei o trabalho feito na Cooperativa Oficina de Tecelagem… pena que a sua lã seja apenas para uso próprio… vou ficar à espera de notícias ;)

    • Epah, que inveja! Isso é aquilo que eu nunca vou conseguir fazer. Inventar! Nunca consegui, em nada…. :( Mas adorei a camisola, é mesmo a minha cara :)

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