o fuso de tipo 4

fiandeira

Benjamim Pereira classificou os fusos portugueses em três tipos:
O tipo 1, com haste em madeira e volante (também chamado cossoiro, aquele disco em baixo que lhe dá equilíbrio e o ajuda a girar mais depressa), que ainda se vê no nordeste transmontano e, residualmente, nos Açores.
O tipo 2 compreende os fusos em que a haste de madeira é o elemento principal ou único. Podem ser bastante rudes ou muitíssimo delicados, podem ser pouco mais do que um pau ou ser elegantemente bojudos em baixo para girarem melhor, podem ser mesmo só em madeira ou ter o topo da haste em metal para fiarem mais fino.
O tipo 3 corresponde aos fusos do Baixo Alentejo e Algarve (como estes que estão na Retrosaria), que consta serem os mais directos descendentes dos fusos romanos. A haste é em metal e o volante ou é também em metal e forma uma peça única com a haste ou é um disco em cortiça. São muitíssimo mais pesados do que os outros dois tipos de fusos e usam-se (hoje em dia muito pouco) sobretudo para fiar o linho.
Mas e se houvesse outro tipo de fuso em Portugal, um fuso diferente que chegue para justificar dizer que pertence a outro tipo? Um fuso cujo parente mais próximo vive no país basco, no outro extremo da Península? Em Monchique, no Algarve, o linho da Sra. Maria Nunes é torcido num objecto chamado fiandeira. O da fotografia foi feito pelo marido mas a partir de um igual vindo de gerações anteriores. Por todo o país há fusos usados só para torcer (torcer é juntar dois fios e dar-lhes uma torção extra no sentido oposto ao da fiação para que fiquem mais equilibrados e resistentes), a que se chama frequentemente parafuso ou parafusa. Ora a fiandeira de Monchique é idêntica ao txoatile ou txabalie do país Basco e diferente de todos os outros fusos portugueses: tem uma haste em madeira que forma no seu topo um gancho (aproveitando nos exemplos tradicionais a forma da própria madeira) e um volante em cortiça que serve de bobine para o fio já fiado ou torcido. Para mim foi a descoberta do ano.

Txoatile
Txoatile, el huso vasco. Imagem ©Mundo Lanar.

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  1. Foi a descoberta do ano sim senhora! A pedra de roseta dos fusos!
    Agora mais a sério, um bom conselho: tenta saber se algum tio ou avô da Sra. Maria Nunes e do marido foram emigrantes (segunda metade do séc. XIX) ou combatentes (guerra civil espanhola) no País Basco. Se a mãe ou a sogra tiveram alguma amiga filha de bascos, se houve alguma freira basca no colégio da zona desde o tal final do séc XIX. Depois diz-me. estou curiosa. ;)

  2. Li este post duas vezes, para assimilar a informação toda (:
    Eu pessoalmente nunca tinha visto nenhum fuso assim e acho delicioso a zona em cortiça. De uma forma muito estranha faz-me lembrar o fuso turco. Um excelente achado!

  3. No mínimo, um achado!
    Quando vi este fuso pensei logo no chamado fuso turco (como a Sara, que comenta acima). O txoatile também tem semelhanças. Mas tenho um fuso turco e reconheci na fotografia o mecanismo imediatamente. A parte que no meu é um gancho metálico, aqui é em madeira e as pás de cortiça são as mesmas das pás de madeira. Tal e qual. Será de influência mediterrânica?

    • Também pensei nos fusos turcos, mas nunca vi nenhum com a haste a terminar em gancho (só com um gancho acrescentado) e julgo que a maioria tem aquele sistema que permite desmontar preservando o novelo, o que não acontece com este nem com os bascos. Era interessante conhecer a fundo os fusos espanhóis e perceber se não há outros desta tipologia que nos escapem.

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