mondegueira

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Fiei na roda uma maçaroca da lã de ovelha churra mondegueira que lavei esta semana. Do que tenho observado, os velos desta raça são compostos por três tipos de fibras diferentes: uma camada exterior de fibras extremamente longas, grossas e lisas (que quando fiadas sozinhas produzem um fio que lembra a corda de sisal), uma camada interior de fibras muito mais curtas, finas e ligeiramente frisadas e ainda, por vezes, um tipo de fibras que estão soltas no meio das outras, grossas, curtas, ponteagudas e levemente frisadas, que já tenho ouvido chamar fios de prata e que só atrapalham (também as tenho visto nos velos de bordaleira da Serra da Estrela).
O fio que resulta desta lã não serve para fazer camisolas, mas daria uns belos tapetes. Pergunto-me que destino lhe é actualmente dado, visto que – apesar de comprada a baixíssimo preço – é canalizada para o circuito industrial. Desta maçaroca acho que vou fazer uma luva esfoliante. Tenho a certeza de que resulta e é totalmente livre dos abomináveis micro-plásticos que povoam a maioria dos produtos para o mesmo efeito.

como lavar um velo de lã

mondegueira

É uma pergunta que me fazem muitas vezes, por isso aqui ficam as instruções para quem tenha em mãos um ou mais velos e queira dar-lhes uso. O das fotografias é de Churra Mondegueira, uma raça autóctone de que já falei aqui. É uma lã extremamente longa, grossa e nada frisada, com a qual vou ter uma aventura no próximo sábado.

Consoante o uso que queremos dar à lã a escolha e lavagem podem ser feitas de forma muito mais complexa e demorada, mas este método não é nada mau para começar.

1. Estender o velo numa superfície limpa e retirar a lã mais suja, que corresponde aos limites exteriores daquele. Esta lã é a mais curta e grosseira, não merecendo na maioria das vezes o trabalho de a limparmos manualmente (pode ir para o compostor ou para a terra, porque o estrume das ovelhas é um adubo de óptima qualidade). Se o velo não estiver inteiro tiram-se todas as porções de lã que pareça demasiado suja.

2. Retirar toda a matéria vegetal e outras impurezas visíveis que a nossa paciência permitir. Quanto mais tempo dedicarmos a esta tarefa mais simples será o processamento da lã depois da lavagem.

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3. Encher um alguidar grande com água muito quente e pôr cuidadosamente a lã lá dentro. Toda a lã deve ficar submersa mas não podemos agitá-la no processo ou ficará feltrada (quanto mais fina e frisada for a lã mais cuidado é preciso ter para que não feltre). Muitas pessoas põem sabão ou detergente nesta água, mas eu não costumo usar. A temperatura elevada é suficiente para que a suarda comece de imediato a dissolver-se – a água fica rapidamente com um tom castanho dourado característico e carregada de lanolina (lavar lã deixa as mãos muito macias).

4. Passados alguns minutos, escorrer a água da lavagem (de preferência para a terra para aproveitar os nutrientes) e repetir o processo se a lã ainda estiver muito suja, sempre com cuidado para não a agitar.

5. Deixar a lã a escorrer até que boa parte da água tenha saído e que a temperatura baixe consideravelmente.

mondegueira

6. Quando a lã estiver à temperatura ambiente está pronta para ser enxaguada com água fria. Geralmente faço esta parte do processo na máquina de lavar: Ponho a lã em sacos daqueles de rede que se usam para a roupa delicada e meto na máquina, no programa de lavagem de lãs, com um bocadinho de detergente adequado. Só recomendo este processo se o programa de lavagem de lãs for mesmo muito suave, pois de outra forma a lã ficará feltrada.

7. Estender a lã horizontalmente num local arejado (mas sem vento!) e deixá-la secar.

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Quem quiser ver fotografias mesmo bonitas deste processo feito à maneira do baixo Alentejo só tem de ir até ao blog da Diane. Em 2011 também estive lá, a aprender.

the shame of selling*

cuecas

Às vezes não é nada fácil ter uma loja, viver de ter uma loja. Digo isto no sentido moral, porque há dias (quase todos) em que não apetece escrever loas a produtos, aliás, em que não apetece mesmo nada pensar nas coisas como produtos e nas coisas todas que trabalhar com produtos pressupõe.

A lot of the reason why our efforts to sell things go wrong is an underlying feeling that ‘selling’ is a bad thing to do. We’ve internalised an image of selling drawn from capitalism’s worst moments, which gives rise to a suspicion that selling somehow injures those to whom we sell.*

Num piscar de olhos passámos a estar rodeados de produtos genuínos, tradicionais, portugueses, cheios de heritage e authenticity. Aqui em Lisboa já não há um quarteirão livre de lojas que não sejam (no nome) antigas ou do bairro, uma rua sem andorinhas sobre cortiça com padrões de azulejo, um espaço em que não ecoe um discurso (às vezes nem há discurso) que de tão batido se tornou oco. Como se todos esses adjectivos de tão abusados tivessem deixado de significar fosse o que fosse ou, ainda pior, se tivessem tornado fáceis, óbvios, trendy, os melhores para vender qualquer coisa. E no meio de tudo isto há, claro, muitas coisas novas e bonitas nascidas desta espécie de redescoberta de uma portugalidade idealizada (um fenómeno que adorava ver estudado por alguém numa perspectiva comparativa com o que se passou nos anos 30). Mas a mim, confesso, esgota-me os adjectivos – e quando trago cestos, colheres ou botas para a loja (os meus cestos, colheres e botas preferidos) não sei o que dizer deles. Talvez mesmo só que são cestos, colheres e botas. Os meus preferidos. Quem lhes tocar vai perceber porquê sem eu ter de explicar (ou então não).

Honourable salesmanship requires a sense of the possibility of honourable capitalism. This doesn’t mean a world in which we’re only trying to sell organic beans and rope sandals. Many companies are already doing good – they’re selling reliable dishwashers and nicely designed garden furniture, good quality skin moisturiser or excellent paper clips. But even these companies often have an unhelpful sense of what they need to tell the world in order to sell their products – and in the process, they lose sight of the good they actually do. Good salesmanship starts with a feeling that there can be such a thing as selling someone something they really require to flourish. It means overcoming the shame of being in sales.*

Na fotografia estão umas cuecas de 100% algodão, daquelas que na Rua dos Fanqueiros ainda se compram por dois euros. Curiosamente correspondem àquilo que o New York Times diz ser a nova tendência em termos de roupa interior de mulher (só precisam de um elástico um bocadinho mais macio e podem fazer concorrência a estas, fica a ideia para alguma empreendedora que aqui passe). Têm montes de authenticity e heritage, mas desconfio que as lojas que as vendem vão dar lugar a mais um ou dez hotéis entretanto.

*Alain de Botton, How to Sell.

uma vida simples

estação
alentejo sem rede
taleigo

Vou para estar e raramente me faz falta contar que fui e ao que fui. Há uma calma qualquer que é nova (deve ser da idade). Depois tenho pena porque sempre tive diários, sempre foram o meu espelho, a minha garantia de ter feito, ter estado, ter sido. Não vim aqui gravar o dia em que pela primeira vez ordenhei uma cabra nem o inesquecível serão passado a fazer queijo ou o sorriso da A. à conquista das ruas da vila na sua nova bicicleta. Às vezes só viver é tudo.

lar