mungoche



Pela primeira vez desenhei e publiquei um modelo de camisola. No que diz respeito a instruções de tricot foi a coisa mais ambiciosa que fiz até à data, mas tenho a certeza que virão outras camisolas por aí. Dei o modelo a testar a três corajosas voluntárias. Uma delas, a Tânia, super experiente e minha amiga virtual desde os tempos do BookCrossing). As outras duas, a Michelle e a Alexandra, caras conhecidas da Retrosaria, vieram ter comigo a meio do trabalho para acertar agulhas.


A primeira parte da camisola é bastante desafiante, com short rows e aumentos simétricos, tudo trabalhado em canelado para baralhar. Não é de todo um projecto aconselhado a iniciantes, mas quem já tenha passado pela Masterclass das camisolas sem costuras ou domine as técnicas necessárias acho que se conseguirá desembaraçar. Para fazer a coisa mais a sério, tenho estado a publicar mais alguns vídeos aqui e pedi à Inês (outra assídua da Retrosaria) que me ajudasse a coordenar um KAL no Ravelry. Quem se quiser juntar é muito bem-vindo!

#testknitting my own pattern • #mungochesweater #retrosariamungo #retrosariarosapomar

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romeirinha

romeirinha
Catálogo Geral das Novidades para Inverno de 1914 – Armazéns Grandella

Não era bem um xaile. Antes uma pequena capa em malha que cobria as costas e o peito e terminava mais ou menos à altura do cotovelo. Em 1914 o catálogo do Grandella (quem me dera ter um) anunciava-as, feitas à mão em malha de lã, como coisa adequada a uma senhora elegante.

Elvas - Raparigas do Campo
Elvas - Grupo ou Rancho de raparigas do campo
Grupo ou Rancho de raparigas do campo em Elvas. Arquivo Foto Beleza, 1937. Imagens do Espólio Fotográfico Português.

1937, no Alto Alentejo. Curtas, em tricot e em crochet, aconchegam os ombros e o pescoço mas pouco mais, ou não dariam para usar durante as mondas e outros trabalhos do campo. Ficavam a matar com as flores no chapéu, as rendas do avental e os laçarotes das ligas.

Fast forward para o início dos anos 80: agasalho em malha 100% sintética, tricotado no concelho de Ourique para uma criança pequena. Recuperado quase quarenta anos depois e posto a uso para as brincadeiras no quintal, achei graça ao feitio e à construção em carreiras incompletas com borbotos. Resolvi tricotar uma versão em (claro) e perceber se continua a fazer sentido. Parece que sim.

O modelo está disponível no Ravelry.

a barreta de são miguel


Mais de meio ano depois, eis que a versão final das instruções do meu gorro de São Miguel fica pronta. Comecei por desenhá-lo para o meu fio João, mas as beta testers acharam que o gorro resultava demasiado grande (aqui em casa somos todos cabeçudos, parece-me). Quatro gorros depois, sempre com pequenos ajustes, optei pelo Soft Donegal, por um cós em canelado liso e por menos uma fila de motivos. Tal como nas barretas antigas (cf. Malhas Portuguesas), o gorro começa com a cor mais clara (tradicionalmente o branco natural) mas depois a cor predominante é a mais escura, o que é um pormenor interessante e pouco frequente.


A barreta antiga tem a forma cónica comum a muitos barretes de malha tradicionais de vários pontos da Europa. Prática para guardar o tabaco e umas moedas, hoje em dia só o Pai Natal, os campinos e os forcados é que continuam a apreciá-la, pelo que a minha versão tem o comprimento habitual dos gorros contemporâneos. Perde-se em superfície para brincar com os motivos mas fica mais visível o padrão do topo da barreta, que é para mim um dos aspectos mais bonitos da peça. O pompom no topo (borla no original) é facultativo.


Daqui a uns meses estarei a escrever com mais profundidade sobre este e outros motivos das malhas tradicionais dos Açores. Imagino sempre que São Miguel podia ter sido a nossa Fair Isle…

As instruções do Gorro de São Miguel (aka #miguelhatpattern) estão disponíveis em Português e em Inglês através do Ravelry.

pais e mães e mungo

Um privilégio, um risco calculado, uma escolha. Tal como as irmãs, o A2 está em casa (e na loja, e por aí a visitar fábricas) e não na escola. Uns dias comigo, outros com o pai. Nesta fase sou uma mãe a tempo inteiro em part-time. É uma vida a dois ritmos, entre os apertos do trabalho e o compromisso de desligar de tudo isso para ser capaz de só estar, devagar, com esta pessoa pequenina.

O livro na fotografia chama-se Swedish Dads e retrata momentos do quotidiano de pais que optaram por usufruir da generosa licença de paternidade sueca para serem pais a tempo inteiro. É um objecto bonito, uma boa prenda para alguém com filhos pequenos (todos nos podemos rever naquelas imagens) e é além do mais um documento de época – acho que será daqueles livros que veremos com interesse daqui a muitos anos.

Ao lado do livro está a camisola que estou a fazer (devagar, já se sabe). O fio é o mais recente que desenhei. Chama-se Mungo e está completamente esgotado até ao fim deste mês porque toda a gente parece ter gostado tanto dele como eu. Pensei em fazê-lo um dia em que visitei uma fábrica onde se reciclam aqueles fardos de roupa que vem dos contentores das instituições (uma longa história, essa). Seria um fio produzido apenas com desperdício pós-consumo, o que parecia ser uma óptima ideia. O problema é que na reciclagem de roupa não é tida em conta a composição do vestuário (julgo que a separação tornaria o processo demasiado oneroso), pelo que os fios que resultam desse processo têm sempre uma elevada percentagem de fibras sintéticas. E as fibras sintéticas, sabe-se agora, além de tudo o resto que me faz fugir delas soltam micro-poluentes de cada vez que são lavadas, contribuindo para a poluição dos oceanos. Assim resolvi fazer um fio apenas com fibras naturais (lã e algodão) reciclado a partir de desperdício pré-consumo, ou seja, de matéria que é desperdiçada na produção de outros fios. O nome, Mungo, surgiu-me numa manhã de leituras na biblioteca. É uma palavra antiga usada na indústria dos lanifícios para designar lãs recicladas numa época em que ainda não se falava de reciclagem.

No dia em que os novelos chegaram à loja tivemos a visita da Joji Locatelli e das editoras da Laine Magazine. Foi um bom augúrio.

blocos de cor

Nos últimos meses dei por mim a coleccionar imagens de peças tricotadas em pequenos blocos de cor com (não só mas também) a técnica normalmente conhecida por intarsia. Não é uma área em que tenha muita experiência (fiz este casaco e pouco mais) mas apetece-me explorá-la, talvez porque me faça lembrar os anos 80 e o genial livro das camisolas, ou porque com o A2 voltei a brincar com blocos de madeira. Além do mais, parece que vem por aí muito tricot com intarsia por essas passerelles na próxima estação.

PS: o casaco da segunda fotografia deu origem a toda uma conversa online entre várias pessoas que tentaram perceber o ponto em que era feito. Vale a pena ver esta colecção de imagens relacionadas com o assunto.

lanofabril

lanofabril gitlã

Covilhã, 1970. A empresa Lanofabril publica Livro de Tricot, um mix revista-catálogo que não sei se foi filho único mas merece sem dúvida um lugar na história do tricot em Portugal (lamento só me ter cruzado agora com ele, porque gostava de o ter mencionado no Malhas Portuguesas). Numa época em que as fibras sintéticas começavam a impor-se no mercado dos fios para tricot, apresentadas como luminosas e infeltráveis, esta empresa – onde trabalhavam mais de 400 pessoas – tinha montado um elaborado sistema de venda por correspondência com base neste objecto que era, ao mesmo tempo, mostruário de fios, catálogo para encomendas e livro de tricot.

lanofabril gitlã

Da descrição dos produtos aos cenários das fotografias, passando pelos nomes dos fios, todos os pormenores deste Livro são curiosos e fazem dele um interessante objecto de estudo. Foi sem dúvida objecto de um grande investimento a vários níveis, e adoraria saber se foi copiado de um modelo estrangeiro e quantos anos terá durado depois do enorme sucesso relatado para o primeiro ano de existência em que a empresa terá vendido 14 toneladas de novelos(!). Alguma mãe ou avó se lembrará destes fios?

lanofabril gitlã

As agulhas são de cor cinza estudada para não fatigar a vista e estão disponíveis em tamanhos INCRÍVEIS (15 e 20mm) com os quais as clientes poderão fazer REPENTINAMENTE as suas obras.
As fotografias parecem ter sido tiradas na própria fábrica e arredores e os modelos são muito provavelmente familiares e funcionários. Os nomes das cores dos fios são um dos meus pormenores preferidos: há paletas com nomes de pássaros, outras com diminutivos, outras com virtudes.

lanofabril gitlã
lanofabril gitlã

As explicações dos muitos modelos, sendo muito mais sintéticas do que está actualmente em voga, não parecem impossíveis de seguir.

lanofabril gitlã
lanofabril gitlã
lanofabril gitlã

A Lanofabril terá fechado portas entre 1989 e 1993.
Se houvesse em Portugal alguma coisa semelhante à Knitting Reference Library este Livro de Tricô estaria certamente lá.

ideias de 1987

100 idées
100 idées

A Fátima, aluna do workshop desta manhã, trazia consigo um exemplar da 100 idées de Junho de 1987. Sempre que me cruzo com um número desta revista fico deliciada. Tenho alguns, comprados online ou que me foram oferecidos, mas nunca tinha folheado este, com o seu especial azulejos, uma reportagem sobre moda infantil com tecidos africanos ou a sua rubrica de compras com cadernos tipo Emílio Braga. São as tendências que são mesmo cíclicas ou o que é interessante é sempre interessante? As fotografias do casaco com azulejos levaram-me direitinha aos verões da minha infância e deram-me vontade de rever o À Flor do Mar. E de experimentar tricotá-lo, claro.

100 idées
100 idées
100 idées

alexandre
alexandre
Um gorro que fiz há dias para um amigo que fez anos. O modelo, muito básico, é um dos primeiros que publiquei por aqui e ao qual continuo a voltar regularmente. Nesta versão tricotei com Kilcarra Tweed e introduzi o nome do destinatário em jacquard logo acima do canelado.

A propósito, o meu grande crush na área do tricot de há uns dois anos para cá, e não é só porque tem um bebé quase da idade do meu: Maria Levine, para seguir no instagram e ler em entrevista aqui (está em Russo mas o google faz maravilhas). Já dei por mim a fazer o jantar enquanto a via em directo a feltrar uma camisola no lavatório.

a camisola

top-down sweater
top-down sweater

Daqui a poucas semanas estreio um novo workshop na Retrosaria. Vou ensinar a fazer uma camisola em malha circular a começar por cima (top-down), num formato de aula diferente, com bastante trabalho de casa antes e entre aulas. É uma oficina intensiva, para quem já não confunde a liga com a meia e não tem medo de fazer contas. Estou muito curiosa e cheia de expectativa. Estive a ensaiar com uma nova camisola para a A., feita em Beiroa e com o decote modelado através de short rows (carreiras incompletas), uma técnica que me parece ideal para este género de trabalho. Junto à gola fiz um bordado muito simples.

top-down sweater

miguel de joão

miguel e joão
miguel e joão
Entre ver crescer o meu bebé que de repente já quase anda, tomar conta da Retrosaria onde todos os dias há novidades e planear a campanha da de 2017 vou inventando tempo para continuar à procura de imagens, histórias e pontos das malhas portuguesas. Tenho em mãos um modelo de gorro baseado nas barretas de São Miguel (de que falei no livro mas sobre as quais já aprendi muito entretanto). Desenhei-o para ser tricotado em João e as instruções já estão nas mãos das revisoras voluntárias. Espero tê-las disponíveis no início de Fevereiro.

Em 1975, data desta divertida imagem que encontrei hoje de manhã enquanto o A2 dormia, as barretas já sobreviviam apenas como adereço folclórico (sendo que se não fosse o folclore teriam desaparecido de todo) e tinham perdido o detalhe e aprumo das mais antigas, mas continuavam inconfundíveis.

O levantamento das técnicas e motivos das malhas tradicionais do sul da Europa continua essencialmente por fazer. Adorava que alguém em Espanha editasse algo semelhante ao Malhas Portuguesas, conhecer melhor o que se tricota(va?) nas aldeias gregas ou ter um livro feito na Turquia a ilustrar esta técnica de tricotar e bordar ao mesmo tempo.

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