35 semanas

knits

A um mês das 40 semanas, a tricotar:
Mais umas calças pequeninas, desta vez com lã João. O modelo, muito simples e gratuito, é o mesmo destas, mas em João ficaram mais pequeninas.
Uma touca feita num fio de lã da Brooklyn Tweed guardado há mais de quatro anos para uma peça especial. O modelo, Djevellue, também é gratuito.
Umas meias minúsculas em Malabrigo Sock improvisadas com 32 malhas e trabalhadas em canelado 2*2.
À direita, umas pantufas que andava há anos para experimentar, com receita do Temple of Knit. São um tipo de aconchego para os pés que se usa um pouco por toda a europa: em Espanha e França usam-se por dentro dos tamancos, em burel ou tricotados, como estes de Lugo e estes chaussons pour les sabots, com receita da 100 idées).

Madreñas
Madreñas, por César Poyatos

Mais para o centro e norte, e até à Turquia, há-os de muitas cores e feitios.
A propósito, um artigo sobre um interessante projecto de integração de migrantes baseado precisamente nestas pantufas: Balkan Slippers.

balkan slippers
Balkan Slippers

…e outro modelo a experimentar em breve (numa casa em que os sapatos ficam à porta dá sempre jeito mais um par): Fair Isle Slippers.

malhas da pesca

malhas da pesca
malhas da pesca

A primeira edição do workshop Malhas da Pesca no Museu Nacional de Etnologia foi ontem e à hora de ir embora ninguém queria parar de tricotar. Para mim foi um prazer poder ensinar naquele espaço e um privilégio ser responsável por algumas peças muito especiais terem saído das reservas para estarem temporariamente à vista de todos numa mini-exposição a que o museu chamou Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim.
A 16 de Janeiro repetimos a iniciativa e, até lá, há tricot para ver no átrio do Museu.

A muitos quilómetros de distância, inaugurou há pouco tempo uma exposição inteiramente dedicada ao tricot na Holanda que adorava ver. É no Fries Museum, em Leeuwarden. Já esteve de certeza mais longe o dia em que por cá se fará uma coisa semelhante.

Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim. Átrio do Museu Nacional de Etnologia. A partir de 5 de Dezembro.

malhas da pesca
malhas da pesca
Mais imagens do workshop.

malhas da pesca

malhas da pesca
Malhas da Pesca • Workshop no Museu Nacional de Etnologia • 5 de Dezembro de 2015

Forma de relaxamento, hobby da moda, pretexto para conviver. Técnica têxtil. Provocação. Integração. Ligação aos avós e aos avoengos. História, memória, cultura material e património imaterial. Podemos fazer tricot por cada uma destas razões, por todas elas ou sem razão nenhuma.
Olho para a malha como uma língua das mãos, uma língua franca que tanto se fala nas aldeias com quem também faz como se lê nos museus das peças de quem fez, décadas ou séculos antes.
No próximo dia 5 de Dezembro entro no Museu de Etnologia para fazer uma coisa que, atrevo-me a dizê-lo, nunca antes se fez por cá: ensinar tricot num dos nossos museus nacionais a pretexto de e, ainda melhor, na presença de várias peças da colecção escolhidas de propósito para o evento. É um precedente que se abre e que nos coloca um belo passo mais perto dos países (sobretudo do norte da Europa), onde se sabe melhor ouvir o que as mãos têm para contar. Vemo-nos por lá!

um gorrinho

gorrinho


Era para ter sido mais um par de mini calças mas só depois de um serão a fazer o canelado reparei que tinha montado 20 malhas a menos, de maneira que acabei por fazer um gorro. O modelo foi improvisado mas ficou com umas proporções simpáticas, de modo que partilho aqui as instruções. Trabalhado com um fio mais grosso e agulhas de 5mm, a mesma receita produz um gorro de adulto:

Tamanho: até aos 3 meses

Materiais:
Cerca de 35g de João na cor 911
Cerca de 15g de João na cor 401
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 2.5mm
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 3.5mm
Marcas para tricot
Agulha de ponta redonda para rematar

Execução:
Montar 88 malhas com o fio azul nas agulhas de 2.5mm e trabalhar 32 voltas (7.5cm) em canelado (1 malha de liga, uma malha de meia).
A partir deste ponto todas as malhas são trabalhadas em liga.
*Com as agulhas de 3.5mm e o fio branco, trabalhar 2 voltas, passando o fio azul pelo avesso.
Com o fio azul, trabalhar 2 voltas, passando o fio branco pelo avesso.
Repetir a partir de * até ter trabalhado um total de 11 riscas (6 brancas e 5 azuis).
Com o fio branco, trabalhar 1 volta, colocando uma marca na agulha a cada 8 malhas.
*Volta seguinte: trabalhar até 2 malhas antes da marca, 2 malhas de liga juntas. Repetir esta instrução até ao fim da volta.
Volta seguinte: trocar de cor e trabalhar uma volta inteira sem diminuições.
Repetir desde * até restarem apenas 11 malhas nas agulhas. Retirar as marcas.
Cortar o fio do trabalho, deixando uma ponta com cerca de um palmo de comprimento. Com a ajuda da agulha de ponta redonda, passar o fio por dentro das 11 malhas restantes, puxar suavemente para fechar o gorro e rematar pelo avesso.

gorro

nas agulhas

three

Ao contrário do que é costume, tenho três trabalhos diferentes de tricot em curso (mais o inevitável par de meias que me acompanha nos compassos de espera): um colete em linho deste livro da Kaze Kobo (será a primeira peça de verão que faço em muitos anos), um casaco em jacquard desenhado pela Mariko Mikuni para este livro e ainda um top improvisado para a E. num fio de composição insólita (para mim) mas que me agarrou pela textura e pelas cores. É uma novidade que vai estar na Retrosaria em breve.

notícias magazine

notícias magazine

Saiu ontem na Notícias Magazine um artigo sobre tricot. Lá estou, a fazer meia, ao lado da Vera e outras pessoas. Como o artigo é curto, aqui ficam as respostas que dei à jornalista Ana Pago a propósito do tema.

Nome? Idade? Formação/profissão?
Rosa Pomar. 39. Formação de base: Pós-graduada em História Medieval pela FCSH UNL. Também frequentei os cursos de Desenho e Ilustração do Ar.Co. Nos últimos anos tenho tido muita formação “informal” com mestres e mestras nas áreas em que trabalho atualmente. Profissão: várias. Investigadora na área dos têxteis tradicionais portugueses, micro-empresária, “ensinadora” de técnicas têxteis, “fazedora” (como se traduz “maker”?), autora do livro Malhas Portuguesas sobre a história e a técnica do tricot em Portugal, blogger, mãe.

Que espaço ocupa o tricot na sua vida e como o concilia com o resto? Como é que tudo começou para si a este nível?
O tricot (eu prefiro dizer a malha) é uma técnica que permite produzir peças de roupa apenas com recurso a dois ou cinco pauzinhos e fio. Visto por esse prisma é uma coisa tão útil ou importante como saber plantar batatas ou amassar um pão – uma espécie de regresso (ou progresso em direcção) ao mais básico, ao mais fundamental. Comecei a fazer malha como muitas pessoas da minha geração: quando era pequena (no meu caso aos 7 anos) pedi a uma prima um pouco mais velha que me ensinasse durante umas férias. Ela vivia no Porto e eu em Lisboa, por isso o que não aprendi com ela tive de ir inventando, experimentando, porque em casa não tinha com quem tirar as dúvidas. Fiz a minha primeira camisola aos doze anos, mas como demorei algum tempo quando a terminei já não me servia. Nessa altura o tricot era apenas uma de muitas técnicas que fui experimentando, quase sempre com a minha mãe, que enchiam as tardes e serviam para fazer prendas de Natal: macramé, arroiolos, alguma costura, tecelagem naqueles teares pequenos de madeira (que agora estão completamente em voga outra vez), crochet tunisino… Durante a adolescência continuei a fazer malha, apesar de ser olhada de soslaio pelas minhas amigas, fossem gorros para o meu primeiro namorado ou prendas para o novo bebé de uns amigos. Podia passar meses sem pegar nas agulhas e ter um cesto de projectos que nunca acabei, mas era uma coisa presente na minha vida. Actualmente faço malha quase todos os dias, seja porque uma das minhas filhas precisa de uma camisola nova, porque estou a planear o meu próximo fio ou porque uma aluna que veio aprender uma técnica qualquer numa das minhas “consultas” de tricot.

Como se explica que o tricot seja hoje uma tendência tão marcante quando, ainda não há muitos anos, não se via com bons olhos que uma mulher cosmopolita tricotasse? O que mudou entretanto?
Estes fenómenos são cíclicos. A última época em que o tricot esteve muito em voga terminou nos anos 80 e este ressurgimento que estamos a viver agora começou já no início do século XXI, muito ligado à generalização do acesso à internet e ao fenómeno dos blogs. Há algum tempo escrevi um texto sobre a mudança de mentalidades desde o momento em que organizei o primeiro encontro de tricot em Lisboa, em Setembro de 2004. Nessa altura era uma ideia quase subversiva: estávamos a fazer em público aquilo que se se fazia era em casa, longe dos olhares reprovadores de quem achava, como a maioria, que fazer malha não só era coisa de velhas como não ficava bem a mulheres cultas e independentes. Nesse primeiro encontro fomos só três, o que mostra bem o quão “anormal” era a ideia. Para dar ideia da mudança veja-se que em 2014 fui convidada pelo Pavilhão do Conhecimento para organizar um encontro de tricot (o que seria impensável dez anos antes). Apareceram dezenas e dezenas de pessoas, não havia onde sentar toda a gente e ninguém queria ir para casa à hora marcada! O que é que mudou? Sobretudo o sentimento de comunidade que se gerou nas pessoas que fazem malha e usam a internet para trocar ideias, mostrar os seus trabalhos e procurar inspiração – se há tanta gente como eu, que gosta disto como eu, então por que razão me hei-de sentir esquisita? Posso em vez disso sentir orgulho, é muito melhor! Mas atenção, continua a haver preconceito. Não sei se é uma coisa particularmente portuguesa, mas colectivamente (por muito que os novos agricultores, carpinteiros, cozinheiros e fazedores de coisas em geral estejam a contribuir de forma fantástica para combater essa ideia) continuamos a desdenhar o conhecimento prático e o trabalho do corpo relativamente a qualquer profissão que implique usar apenas a cabeça e a ponta dos dedos. Basta olhar para as salas de aulas dos nossos filhos: tirando as aulas de ginástica não lhes é exigido nada que não possam fazer com uma mão só. E isso contribuiu irreversivelmente para que quem, fora da cidade, conserva os outros saberes, tenha passado a desvalorizá-los, a desvalorizar-se. Perdi a conta aos teares destruídos na lareira, às vezes que ouvi artífices dizer “ó menina, hoje em dia ninguém dá valor a isso, não vale a pena!”.

Em que é que se inspira para criar? Que peças costuma fazer?
Essa pergunta da inspiração é uma espécie de coisa obrigatória nestas entrevistas, mas não tenho uma resposta. Tenho uma bagagem de referências, de imagens, de momentos. Uma bagagem que se transforma permanentemente com as novas impressões que ficaram de cada dia, seja porque passei a manhã com uma das últimas fiandeiras da ilha de São Miguel ou porque me dou ao luxo de passar pelo menos dois dias por mês na Biblioteca Nacional a ler seja o que for o que me apetecer mais ou menos a propósito dos meus temas de eleição ou porque reparei num mosaico hidráulico particularmente bonito numa rua de Lisboa. Aquilo que se chama inspiração deve ser o sumo de tudo isso, não sei. Nunca andei atrás dela, é ela que anda atrás de mim. Quanto às peças que faço também não tenho uma resposta pronta, porque varia imenso. Neste momento tenho em mãos um enorme casaco de tricot que desenhei com motivos retirados de uma manta alentejana antiga. Antes dele acabei uma camisola para a minha filha mais velha e, no meu tear, um tapete tecido a partir de calças de ganga e t-shirts velhas. Ah, e tenho sempre um par de meias em curso, porque são o trabalho ideal para fazer em transportes ou momentos de espera.

Qual a que mais gozo lhe deu a tricotar até à data? Alguma história especial associada a essa em particular?
É impossível escolher, cada uma tem o seu contexto, a sua história. Adoro tricotar para as minhas filhas, vê-las aconchegadas por uma camisola que nasceu nas minhas mãos, ainda mais se for feita num dos fios que tenho criado. Em 1994 tinha 18 anos e passei umas semanas como voluntária no Campo Arqueológico de Mértola. Nessa altura reparei nuns novelos de lã fiada à mão, muito macia e cor de café com leite que havia na Oficina de Tecelagem. Vim para Lisboa como todos os que tive dinheiro para comprar e fiz uma camisola que usei anos a fio. É uma peça muito marcante na minha vida porque foi a que me pôs a pensar na questão da origem da lã – porque razão nas lojas de Lisboa só havia novelos de lã estrangeira (quando não eram de fibras sintéticas) se existia lã portuguesa tão bonita? E para onde ia afinal a lã das ovelhas que vemos da janela do carro quando vamos na estrada?

Quanto tempo leva, em média, a conceber e confecionar cada uma? Quais as maiores dificuldades, de um modo geral?
Depende da espessura do fio, do tamanho da peça e sobretudo da pressa em vê-la acabada. Peças complexas, como trabalhos em jacquard (com fios de muitas cores diferentes) podem exigir os serões de um mês inteiro. Como não tenho formação em design têxtil, quando concebo peças de raiz às vezes ando um bocado à luta com a engenharia da coisa. Ainda por cima tenho a mania de querer acertar à primeira. Mas o tricot dá-nos, entre outras, uma lição que acho muito bonita e que procuro transmitir a quem aprende comigo: fazer e desmanchar, tudo é trabalhar. Às vezes é mesmo importante saber andar para trás para depois andar para a frente de uma maneira mais certa.

Que técnicas existem ao certo e quais as mais correntemente utilizadas?
O tricot e o crochet são as duas técnicas mais difundidas dentro da família das malhas. Exigem uma ou mais agulhas e um fio contínuo e, na sua essência, consistem numa laçada inicial pela qual é passado o seio do fio – formando uma nova laçada – repetindo-se este gesto sucessivamente. Depois o que há são maneiras infindas de realizar esse movimento, essa criação dos novos pontos ou malhas a partir dos que já temos nas agulhas. Na malha falamos sobretudo da liga e da meia e em Portugal quase toda a gente começa por aprender o ponto de liga porque a nossa técnica tradicional (sim, em Portugal faz-se tricot de maneira diferente de grande parte do mundo) faz com que esse ponto seja mais simples de executar do que o de meia.

E em relação aos materiais: temos uma boa oferta no país? Onde costuma comprar os seus?
Como eu também produzo e vendo materiais sou um bocado suspeita para responder a essa questão! O nascimento da Retrosaria partiu precisamente da minha frustração quando procurava bons tecidos e bons fios para fazer as minhas peças. Aqui há dez anos era uma missão impossível! Daí ter começado por importar muitos materiais, que vendia inicialmente apenas online. A loja física abriu há cinco anos, num segundo andar junto à Bica, em Lisboa. Nestes últimos anos o meu foco principal tem sido o de encontrar e facultar o acesso a materiais da melhor qualidade mas de origem portuguesa – daí ter começado a produzir os meus próprios fios de lã para tricot, feitos de lã de ovelhas de raças autóctones portuguesas, e de andar sempre à procura de bons tecidos produzidos em Portugal, para que quem gosta de costura e patchwork não esteja sempre na dependência dos tecidos americanos e japoneses que são os que dominam nesta área.

O que é preciso para alguém começar a tricotar? É uma arte fácil de aprender? E uma ocupação cara ou, pelo contrário, acessível a todos quantos queiram aventurar-se neste universo?

Dois pauzinhos, um fio e vontade, mais nada. O ideal é aprender com uma amiga, uma avó ou outra pessoa que esteja disponível para nos mostrar as vezes que forem necessárias como se puxa o fio do trabalho por dentro das malhas que estão na agulha, mas hoje em dia muitas pessoas aprendem no YouTube, nos livros ou em workshops. Vale a pena pensar que até há muito poucas gerações se aprendia a fazer malha pelos sete oito anos e com pouco mais que essa idade já se faziam meias e outras peças de alguma complexidade. É de facto uma técnica ao alcance de qualquer pessoa. E é uma arte totalmente acessível, em casa dos pais ou de uma tia há de certeza uns pares de agulhas e uns novelos esquecidos que podemos usar para as primeiras experiências. Por outro lado, quem toma verdadeiramente o gosto pelo tricot e aperfeiçoa a técnica ao ponto de fazer camisolas e outras peças maiores para usar no dia-a-dia acaba por ter prazer em investir em bons materiais e bons fios. Mas é um investimento que compensa largamente: uma camisola feita à mão em bons fios de fibras naturais pode durar anos e anos, nada se lhe compara!

tween

E
E

O melhor de fazer fios de lã é poder trabalhá-los e vesti-los. As primeiras experiências a trabalhar a beiroa dobrada (dois fios juntos) correram tão bem que avancei para uma peça maior. A E. (a quem já não dá para vestir todas as cores que me apetecer) pediu uma túnica parecida com a minha mas em azul escuro. Peguei num dos meus livros preferidos com motivos de Fair Isle e no caderno para os motivos, tirei medidas e desenhei toda a zona dos ombros com carreiras incompletas para que assentasse melhor do que a minha. Et voilà.

No Ravelry.

fair isle

beiroa beanie

gorrinho

I’ve just finished a new version of Bruno’s beanie, this time using a simple Fair Isle motif and one of my favourite shades of Beiroa.

There is now a downloadable pdf with the pattern in English (charted and written down), for those who asked for it – remember I knit Portuguese style, which means all circular work is purled (not knitted).

Download pattern

PS: as instruções em Português estão aqui.

Page 1 of 2212345...1020...Last »