mantas alentejanas
ost

Três velhas mantas alentejanas encontradas de surpresa numa perfeita manhã de sábado, resgatadas entre sorrisos cúmplices, re-destinadas a aquecer-nos à noite, que por muito que digam que picam, que pesam, ninguém me convence que haja coisa mais bonita e mais quente para ter na cama.

Duas mulheres, duas vozes que tenho trazido comigo. Dantes comprávamos discos para os ouvir. Agora é tão fácil ouvi-los que demasiadas vezes não os compramos. Estes trouxe-os comigo como quem contribui para uma campanha de crowdfunding, para dizer à Gisela João e à Capicua obrigada, gosto tanto do que fazem.

o gorro montanhac

montanhac
montanhac



Nasceu há já alguns meses, inspirado por uma manta do baixo Alentejo especialmente bonita. O padrão é diferente dos mais habituais: não tem meio e o seu lado esquerdo é o negativo do direito. De tal maneira que em pequenino, como estava na manta, parecia ter um erro de construção. Fiz o primeiro em Beiroa 2ply com agulhas 6mm e agora fiz três de uma vez em Zagal com agulhas 7mm. Chama-se Montanhac porque é esse o nome localmente dado às mantas com este tipo de desenho (a bibliografia de referência está aqui, pirateada por yours truly porque é quase impossível dar com ela em alfarrabistas). As instruções estão disponíveis para download no Ravelry e hoje, no belíssimo Fringe Association, fala-se dele.

gola minderica

gola minderica

gola minderica

A gola minderica, não sendo directamente inspirada numa peça de malha, foi escolhida para o livro por ter nascido do meu fascínio pelas mantas artesanais portuguesas. Neste caso baseei-me nos padrões das mantas de Minde que, apesar de fazerem parte do repertório mental de quase todos os portugueses, poucos associam ao seu local de fabrico. Fazem-nos pensar no Ribatejo ou chamamos-lhes alentejanas, sem saber que vêm de uma terra pequenina, mais a norte, com uma longa história de teares caseiros e comerciantes orgulhosos que as espalharam por todo o sul de Portugal. Os mindericos distiguem bem as suas mantas janotas (as mais coloridas) das do alentejo. As cores não são as mesmas, nem é igual a dispersão dos motivos pela superfície do tecido. Mas um leigo pode facilmente confundir-se. O que é inequívoco é que os padrões de Minde constituem um manancial gráfico que apetece tricotar, respeitando as paletas ou inventando outras. A sua estrutura composta por motivos pequenos, muitos dos quais se repetem sempre ao mesmo ritmo (3, 2, 1, 2), torna o trabalho a duas cores bastante fácil de memorizar e rápido de fazer.

Para encontrar uma manta de Minde verdadeira, das que são feitas em tear manual com fios de lã, é preciso ir ao CAORG e fazer figas para que haja stock, porque elas desaparecem mal saem das mãos do tecelão Elias.

Estas duas golas foram feitas em Beiroa. Uma é a do livro, com a sua bainha de bicos, e a outra foi feita numa paleta mais quente, com o castanho natural por fundo, e com as orlas em canelado (três serões chegaram para a terminar).

This cowl from the book was inspired by the handwoven blankets from Minde. Minde is a small town with a strong tradition in weaving and trading. The blankets were woven at home and then sold by the men, who travelled in the Summer to sell them in the big farmers markets of the south. They feature small and repetitive motifs, which translate perfectly into knitting. And their bold palettes are an endless source of inspiration.

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fia 2012

manta

manta

Estas duas mantas alentejanas não estavam à venda na FIA deste ano. Eram decoração num stand de promoção a alguma coisa de comer ou beber do Alentejo. Nem estava lá a Mizette Nielsen com as de Monsaraz, nem a Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. A representação da tecelagem alentejana este ano ficou a cargo do Carlos Rosa e das suas três belíssimas mantas de lã fiada à mão. Há cada vez menos artesãos rurais na FIA, e fazem falta. Também os pavilhões internacionais ficaram reduzidos a um, sem grandes surpresas relativamente à edição anterior. O meu stand preferido, de onde no ano passado tinha trazido umas lindas tulmas, é o do projecto argentino Marias Mosca.

mantas de fitas

mantas de fitas

mantas de fitas

Tem 6 casas onde tecem mantas de retalhos, urdidas com lã e tecidas com retalhos que juntam pela cidade e por casas dos alfaiates. Em cada casa, três, quatro teares.
João Brandão (de Buarcos), Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552.

Uma prática com certamente muito mais de quinhentos anos de história, a de fazer mantas de retalhos, ou trapo, ou tirelas, ou fitas, como lhes chamam na Aldeia das Dez, na Serra do Açor, onde fomos conhecer o tecelão, poeta e escultor Viriato Gouveia. Com oitenta e três anos que não se lhe vêem nem no rosto nem nos gestos, contou-nos histórias da carestia de linha de algodão durante a Segunda Guerra Mundial e do reflorescimento da produção de mantas a seguir a 45 e até aos anos 70, quando entraram em irreversível declínio. As mantas do Sr. Viriato, e do pai com quem aprendeu a tecer, sempre foram urdidas com linha e tapadas com fitas (tecidos rasgados à mão ou cortados com tesoura) que quem encomendava as mantas entregava ao tecelão. Read more →

casa de trabalho de nordeste

nordeste

nordeste

Em Nordeste, S. Miguel, ainda se trabalha lã local para fazer mantas, algumas malhas e trajes para os grupos folclóricos (em que a lã é agora muitas vezes substituída por fibras sintéticas). Na Casa de Trabalho e Protecção à Juventude Feminina do Nordeste o fio é criado pelos processos manuais de cardar, fiar e torcer, e foi lá que, com a gentil D. Filomena, aprendi a fiar na roda. Read more →

as mantas da d. guiomina

manta

manta

Em Castro Daire há cada vez menos ovelhas. Quase não se vêem rebanhos e a lã dos que há consta que em boa parte é queimada. Muita é sedeúda, a maneira local de dizer que tem as fibras muito compridas e pouco macias, mas também há algumas ovelhas marinhotas (de meirinha, o nome dado em Portugal desde o século XV à lã de melhor qualidade proveniente das ovelhas merino), de lã mais frisada e macia. Algumas delas pertencem à D. Guiomina. Como não queria desperdiçar a lã lembrou-se de a fiar mais grossa e pouco torcida, de a ugar (juntar dois fios num novelo) e de fazer com este fio fofo grandes mantas de malha. Leva a malha para o monte, com as ovelhas, e as mantas vão crescendo… Read more →

(i)material

alcochete
Janela decorada com cobertor e estandarte em forma de barrete para as Festas do Barrete Verde, Alcochete, Agosto de 2011.

Notas soltas à volta do mesmo tema:

O IMC acaba de lançar um Kit de Recolha do Património Imaterial, editado em papel mas disponível também em pdf para download gratuito. Foi concebido para ser usado por professores e alunos do 2º e 3º ciclos e parece muito bem estruturado e intencionado (O Kit foi concebido sobretudo para aplicação a nível local, promovendo a interação dos jovens com os elementos da comunidade (aldeia, freguesia, bairro, etc.), assim como o conhecimento aprofundado e a valorização do seu Património Imaterial.). Nos anos 70, mas num contexto político bem diferente, foi também graças a alunos e professores de muitas escolas que se fez uma das mais interessantes colecções de livros sobre produções artesanais portugueses (a colecção Artes e Tradições da editora Terra Livre). A acompanhar…

Arquivos digitais: a minha amiga Catarina Miranda tem vindo a dar a conhecer no seu blog uma série de arquivos fotográficos portugueses cujas colecções começam a estar acessíveis através da internet. Vai sendo mais fácil conhecermo-nos.

Saber e contar: é muitas vezes nos blogs mais discretos, feitos apenas com o intuito de partilhar, que se encontra informação mais interessante sobre tradições locais. É o caso, entre tantos outros, da secção de etnografia do blog Alcoutim Livre (obrigada António pelo link).

tecer

tapete

manta

Nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) e tapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro), mas aqui toda a superfície é coberta de puxados, que são no fim do trabalho abertos com uma tesoura. O resultado é uma manta com muitos quilos de lã (julgo que entre dez e vinte) e tão densa e espessa que aos nossos olhos parece um tapete de luxo. Uma manta larga é composta por três peças tecidas individualmente (os teares domésticos são estreitos) e cosidas no fim umas às outras, por vezes rodeadas ainda de uma franja feita também em casa (o tear de franjas vê-se à direita na imagem de cima) e na mesma lã. Read more →

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