mantas alentejanas
ost

Três velhas mantas alentejanas encontradas de surpresa numa perfeita manhã de sábado, resgatadas entre sorrisos cúmplices, re-destinadas a aquecer-nos à noite, que por muito que digam que picam, que pesam, ninguém me convence que haja coisa mais bonita e mais quente para ter na cama.

Duas mulheres, duas vozes que tenho trazido comigo. Dantes comprávamos discos para os ouvir. Agora é tão fácil ouvi-los que demasiadas vezes não os compramos. Estes trouxe-os comigo como quem contribui para uma campanha de crowdfunding, para dizer à Gisela João e à Capicua obrigada, gosto tanto do que fazem.

o gorro montanhac

montanhac
montanhac



Nasceu há já alguns meses, inspirado por uma manta do baixo Alentejo especialmente bonita. O padrão é diferente dos mais habituais: não tem meio e o seu lado esquerdo é o negativo do direito. De tal maneira que em pequenino, como estava na manta, parecia ter um erro de construção. Fiz o primeiro em Beiroa 2ply com agulhas 6mm e agora fiz três de uma vez em Zagal com agulhas 7mm. Chama-se Montanhac porque é esse o nome localmente dado às mantas com este tipo de desenho (a bibliografia de referência está aqui, pirateada por yours truly porque é quase impossível dar com ela em alfarrabistas). As instruções estão disponíveis para download no Ravelry e hoje, no belíssimo Fringe Association, fala-se dele.

fia 2012

manta

manta

Estas duas mantas alentejanas não estavam à venda na FIA deste ano. Eram decoração num stand de promoção a alguma coisa de comer ou beber do Alentejo. Nem estava lá a Mizette Nielsen com as de Monsaraz, nem a Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. A representação da tecelagem alentejana este ano ficou a cargo do Carlos Rosa e das suas três belíssimas mantas de lã fiada à mão. Há cada vez menos artesãos rurais na FIA, e fazem falta. Também os pavilhões internacionais ficaram reduzidos a um, sem grandes surpresas relativamente à edição anterior. O meu stand preferido, de onde no ano passado tinha trazido umas lindas tulmas, é o do projecto argentino Marias Mosca.

mantas de fitas

mantas de fitas

mantas de fitas

Tem 6 casas onde tecem mantas de retalhos, urdidas com lã e tecidas com retalhos que juntam pela cidade e por casas dos alfaiates. Em cada casa, três, quatro teares.
João Brandão (de Buarcos), Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552.

Uma prática com certamente muito mais de quinhentos anos de história, a de fazer mantas de retalhos, ou trapo, ou tirelas, ou fitas, como lhes chamam na Aldeia das Dez, na Serra do Açor, onde fomos conhecer o tecelão, poeta e escultor Viriato Gouveia. Com oitenta e três anos que não se lhe vêem nem no rosto nem nos gestos, contou-nos histórias da carestia de linha de algodão durante a Segunda Guerra Mundial e do reflorescimento da produção de mantas a seguir a 45 e até aos anos 70, quando entraram em irreversível declínio. As mantas do Sr. Viriato, e do pai com quem aprendeu a tecer, sempre foram urdidas com linha e tapadas com fitas (tecidos rasgados à mão ou cortados com tesoura) que quem encomendava as mantas entregava ao tecelão. Read more →

casa de trabalho de nordeste

nordeste

nordeste

Em Nordeste, S. Miguel, ainda se trabalha lã local para fazer mantas, algumas malhas e trajes para os grupos folclóricos (em que a lã é agora muitas vezes substituída por fibras sintéticas). Na Casa de Trabalho e Protecção à Juventude Feminina do Nordeste o fio é criado pelos processos manuais de cardar, fiar e torcer, e foi lá que, com a gentil D. Filomena, aprendi a fiar na roda. Read more →

as mantas da d. guiomina

manta

manta

Em Castro Daire há cada vez menos ovelhas. Quase não se vêem rebanhos e a lã dos que há consta que em boa parte é queimada. Muita é sedeúda, a maneira local de dizer que tem as fibras muito compridas e pouco macias, mas também há algumas ovelhas marinhotas (de meirinha, o nome dado em Portugal desde o século XV à lã de melhor qualidade proveniente das ovelhas merino), de lã mais frisada e macia. Algumas delas pertencem à D. Guiomina. Como não queria desperdiçar a lã lembrou-se de a fiar mais grossa e pouco torcida, de a ugar (juntar dois fios num novelo) e de fazer com este fio fofo grandes mantas de malha. Leva a malha para o monte, com as ovelhas, e as mantas vão crescendo… Read more →

(i)material

alcochete
Janela decorada com cobertor e estandarte em forma de barrete para as Festas do Barrete Verde, Alcochete, Agosto de 2011.

Notas soltas à volta do mesmo tema:

O IMC acaba de lançar um Kit de Recolha do Património Imaterial, editado em papel mas disponível também em pdf para download gratuito. Foi concebido para ser usado por professores e alunos do 2º e 3º ciclos e parece muito bem estruturado e intencionado (O Kit foi concebido sobretudo para aplicação a nível local, promovendo a interação dos jovens com os elementos da comunidade (aldeia, freguesia, bairro, etc.), assim como o conhecimento aprofundado e a valorização do seu Património Imaterial.). Nos anos 70, mas num contexto político bem diferente, foi também graças a alunos e professores de muitas escolas que se fez uma das mais interessantes colecções de livros sobre produções artesanais portugueses (a colecção Artes e Tradições da editora Terra Livre). A acompanhar…

Arquivos digitais: a minha amiga Catarina Miranda tem vindo a dar a conhecer no seu blog uma série de arquivos fotográficos portugueses cujas colecções começam a estar acessíveis através da internet. Vai sendo mais fácil conhecermo-nos.

Saber e contar: é muitas vezes nos blogs mais discretos, feitos apenas com o intuito de partilhar, que se encontra informação mais interessante sobre tradições locais. É o caso, entre tantos outros, da secção de etnografia do blog Alcoutim Livre (obrigada António pelo link).

tecer

tapete

manta

Nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) e tapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro), mas aqui toda a superfície é coberta de puxados, que são no fim do trabalho abertos com uma tesoura. O resultado é uma manta com muitos quilos de lã (julgo que entre dez e vinte) e tão densa e espessa que aos nossos olhos parece um tapete de luxo. Uma manta larga é composta por três peças tecidas individualmente (os teares domésticos são estreitos) e cosidas no fim umas às outras, por vezes rodeadas ainda de uma franja feita também em casa (o tear de franjas vê-se à direita na imagem de cima) e na mesma lã. Read more →

tapetes de trapos presos

tapete de trapos presos
Postal editado pela Associação Etnográfica do Montemuro

Fiquei a conhecer esta técnica no ano passado, por a ver referida no interessantíssimo livro de Glória Marreiros Viveres, saberes e fazeres tradicionais da mulher algarvia (1995). A autora explica que se fazia com os trapos mais pequenos e linha reaproveitada de meias desfeitas. Descreve-a assim (p. 45):

Começa-se por uma carreira de malha de liga, na segunda carreira o trapinho é preso pelo meio ficando com as duas extremidades livres, fazem-se mais malhas e volta a prender-se novo trapinho. A seguir fazem-se mais duas voltas de malha de liga sem prender trapilhos e na terceira volta, repete-se a prisão dos trapinhos de tecidos e assim sucessivamente.

Uns meses depois, a Margarida partilhou imagens de uma senhora algarvia (Almerinda Neves) a fazer um destes tapetes durante a Fatacil. Por não conhecer outros exemplos, foi com surpresa que descobri estes mesmos tapetes usados como mantas no museu do Mezio. A D. Lurdes, que orienta os visitantes, contou-me a mesma história de reaproveitamento (agora diz-se upcycling): nesta malha, feita também ali muitas vezes com linha de meias desfeitas, eram usados apenas os trapos que já não tinham largura que chegue para serem cosidos. Fica-se a pensar nos séculos de linho e lã e no contraste (e garridice, como se dizia dantes) que as chitas estampadas devem ter trazido às aldeias a partir do século XIX. E será que a técnica é conhecida ou usada noutras regiões também? E noutros países?

A execução é muito simples, apesar de as peças se irem tornando bastante pesadas à medida que crescem: cortam-se os retalhos em tiras com cerca de 3cm de largura e prendem-se na malha como as imagens mostram. As duas últimas imagens são deste cobertor. Read more →

mezio

mezio

mezio

No Mezio funciona aquela que é provavelmente a mais interessante cooperativa de artesãos do nosso país, a Associação Etnográfica do Montemuro. Por cima da loja fica o museu etnográfico, onde cada peça está legendada com o seu nome local (bem, tirando o triste neologismo trapologia que ainda estou para saber quem foi que inventou). Ou a região de Castro Daire é especialmente rica em tradições têxteis ou nenhuma outra das que visitei até hoje fez tão bem o respectivo levantamento. Percebi como se fazia a torcida dos fios fiados em casa (lá diz-se ugar os fios e torcê-los no fuso-parafuso), vi baralhos de agulhas de tricot talhadas em madeira de urze, meias especiais sobre as quais vou escrever mais a sério em breve e uma técnica de fazer mantas ou tapetes de malha com trapinhos pelo meio que pensava só existir no Algarve. Isto para não falar no ponto de crochet quebra-cabeças que ainda não consegui deslindar nem encontrar referido em lado nenhum, nas pulseiras e tigelas de tricot, nas colchas de puxados, nos naperons de papel recortado, nos alforges e nos tamancos de madeira e burel… Read more →

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