no armário

lã

A propósito da simpática entrevista comigo que a Divine Shape publicou hoje, uma camisola que fiz em 1994 com lã que comprei na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. Tinha dezoito anos e usei-a continuamente durante uns dez. O novelo que sobrou está na capa do meu livro.
No outro dia citei dois autores do século XIX a propósito de roupa. Mas no século XXI, ao contrário do que acontecia no pré-pronto-a-vestir, o que vestimos reflecte aquilo que somos. O que vestimos, o que comemos, o que compramos. Porque comprar, mesmo que poucas pessoas o façam pensando nisso, é um acto político. Onde compramos o pão e que pão compramos, onde compramos uns sapatos e que sapatos compramos? Em quem decidimos diariamente investir, apostar, seja com €1 ou €100. Queremos que a padaria de bairro sobreviva, é lá que vamos comprar o pão. Queremos apoiar os produtores portugueses? É não comprar sem olhar para a origem dos produtos. Umas calças a €10? Quanta gente explorada está por trás desse preço? Todos os dias são dia de eleições, o que há é pouca gente a dar por isso.

os últimos artesãos do vale do paiva

últimos artesãos do rio paiva
©Os últimos artesãos do Vale do Paiva

Há os guias de acesso ao ensino superior. E há os guias de acesso a um tipo de ensino que ou deixa a curtíssimo prazo de ser considerado inferior ou não estará lá quando descobrirmos que tínhamos obrigação de ter olhado por ele. Acredito que este livro que a Associação de defesa do Vale do Paiva está a tentar editar venha a ser um desses guias. Talvez sirva por exemplo para levar até Baltar uns novos rurais a tempo de se tornarem aprendizes do Sr. João.

A imagem acima, roubada ao Facebook da campanha de angariação de fundos para a edição do livro, é-me particularmente querida pela excepção que testemunha: das cinco mulheres que estão a fazer meia apenas uma tem o fio ao ombro e todas as outras trabalham ao dedo!

tara perdida

botellon

botellon

É este o aspecto do Bairro Alto todas as manhãs. A Câmara tenta remediar a situação com varredores que recolhem diariamente (e certamente com grandes gastos) centenas de garrafas, mas a limpeza não resolve o problema nem impede que o caminho para a escola seja feito por entre um mar de cacos. Em Espanha o fenómeno chama-se botellón e por cá gerou finalmente uma manifestação de descontentamento por parte da Associação de Comerciantes. Os donos dos bares centram o problema na existência de lojas de conveniência e mercearias cujo horário alargado lhes permite fazer concorrência efectivamente desleal mas, como moradora, a quem os ditos horários dão jeito para outras coisas que não necessariamente comprar cerveja, creio que se podia e devia pensar em mais formas de combater o problema. Uma delas seria reintroduzir o depósito das garrafas (afinal porque é que desapareceu?). Poder recuperar uns cêntimos por garrafa, para quem opta por beber barato na rua em vez de mais caro mas confortavelmente sentado num bar, tiraria de certeza muito vidro dos passeios. Outra medida importante seria distribuir contentores adequados pelas ruas, porque em muitos casos nem quem se preocupa encontra facilmente onde deixar a garrafa ou o copo. Com medidas mais ou menos drásticas, o que não pode é deixar-se continuar esta situação. Read more →

direito ao trabalho

biblioteca nacional

Foi pelo Rui Tavares que soube que a Biblioteca Nacional ia fechar para obras. Foi um tanto ou quanto ridículo, porque eu vinha de passar o dia na BN, onde ninguém nem nada me chamara a atenção para o facto, pelo que lhe garanti que devia estar enganado. Só na semana seguinte dei com umas folhas discretamente pousadas no balcão das devoluções que explicavam o encerramento. Nunca me tinha ocorrido que a BN fosse encerrável, talvez por (por defeito de formação) a conceber mais como um órgão de soberania do que como um simples equipamento. Tal como o Rui, sempre defendi que as bibliotecas se fizeram para estar sempre e o mais possível abertas, tanto para os leitores presenciais como (cada vez mais) para todo o mundo, através da digitalização e catalogação eficaz dos seus espólios (aqui em Lisboa tenho passado ainda mais horas na Biblioteca Pública de Nova Iorque do que na BN). Salvaguardadas as enormes distâncias, vejo fazer obras integrais em grandes supermercados e agências bancárias sem um único dia de portas fechadas: os clientes podem estar menos confortáveis mas preferem não perder o acesso aos serviços, e quem gere evita enormes prejuízos. Acho sinceramente que é uma questão de prioridades. Por muito que leia as explicações e os argumentos para o fecho, estou convencida de que o problema reside em ter-se partido do princípio de que o encerramento era possível. Se a prioridade fosse garantir a abertura ininterrupta a obra seria provavelmente diferente, talvez mais lenta, mas acredito que igualmente possível.

Grupo no Facebook contra o encerramento por 10 meses da Biblioteca Nacional.

biblioteca nacional

Fotografias (ambas do Arquivo Municipal de Lisboa):
Artur Goulart, Biblioteca Nacional, construção, 1961 e Eduardo Portugal, Panorâmica do bairro do Campo Grande [antes da construção da BN e cidade universitária], 1945.

jardim do príncipe real

jardim do príncipe real

jardim do príncipe real

Muito do que se decide para a cidade de Lisboa parece sair da cabeça de pessoas sem filhos que só vivem a cidade de dentro do seu automóvel. Quem anda a pé e de transportes, com e sem crianças, quem está no passeio sente como eu que as prioridades parecem muitas vezes trocadas e que o que se compõe é mais para parecer bem do que para funcionar bem. Triste exemplo desta situação é o resultado das obras no Jardim do Príncipe Real, tantas vezes personagem dos meus posts (são nove anos de blog feitos anteontem). Não me manifestei quando se falou no abate das árvores (porque não sabia do assunto que chegasse para perceber de que lado estava a razão) mas, agora que o jardim reabriu, é deprimente pensar que mais valia tê-lo deixado como estava. Convenci-me de que o parque infantil (para o qual tinham sido anunciadas obras) seria aumentado, ou pelo menos bastante melhorado. Era absurdo o escorrega tão exposto ao sol que só de manhã podia ser usado sem queimar as pernas, mas ninguém se lembrou de o mudar de sítio. Os baloiços batiam às vezes nas crianças menos atentas pela razão óbvia de o espaço ser pequeno para todos os que o frequentam. Solução da Câmara: rodear os ditos baloiços de pilaretes de metal que roubam boa parte do pouco espaço que havia. De resto, e fora uns remendos no chão, tudo fiou igual. Fora do parque infantil, só elogio a instalação de um sistema de rega mais ecológico. Por outro lado, o novo piso é um pesadelo que anda a alastrar por Lisboa: um saibro amarelo claro, coberto de gravilha solta e pó. Não sei se tem alguma qualidade, mas os defeitos são vários: reflecte demasiado a luz (deve ser invenção de um país com menos sol) e transforma completamente o ambiente do jardim, tornando-o menos fresco e abrigado; a gravilha entra imediatamente para as sandálias (lá está a tese de que quem decide não anda a pé, muito menos com crianças) e esfola muito mais os joelhos do que o alcatrão (?) que lá estava antes; e o pó suja tudo (lembrar que as crianças passam boa parte do tempo com mais do que a sola dos sapatos no chão) e entra para os olhos mal se levanta o vento. As críticas são tantas que surgiu um blog dos amigos do Príncipe Real. De que cabeças terão saído as alterações feitas? Quem decidiu o que fazia falta (que tal mais metros quadrados de jardim infantil, uma casa de banho com fraldário e multas para os passeadores de cães sem saco de plástico?)? E para quando umas obras a sério, a pensar de facto em quem vive o jardim todos os dias e não só no de cortar a fita? Read more →

pela taxa sobre os sacos de plástico

saco de plastico

Já dei a minha opinião sobre a distribuição gratuita de sacos de plástico aqui e aqui. Como não podia ficar indiferente à notícia de que o governo pretende recuar na intenção de introduzir (finalmente!) uma taxa sobre os ditos criei uma petição online chamada

Pela taxa sobre os sacos de plástico

e peço a todos os que estiverem de acordo que a assinem também e que ajudem a divulgá-la.

Fotografia de Luísa Cortesão.

toma e embrulha

embrulha

Um email que recebi esta manhã:

(…) Neste momento estou a estagiar na divisão de ambiente da CM Seixal e estamos a organizar, para o dia 24 de Novembro (sábado), um atelier de embrulhos ecológicos a realizar no shopping rio sul, de forma a sensibilizar as pessoas para a diminuição do desperdicio e dar algumas ideias de como poderão começar pelos seus embrulhos de Natal… Nós não temos muito jeito nem imaginação e por isso venho contactá-la para saber se poderá estar interessada em participar ou se conhece alguém que esteja disponivel. A iniciativa durará o dia todo, mas contamos conseguir reunir 4 ou 5 pessoas de forma a preenchermos dois turnos de 4 horas (mais 1h30 de intervalo pelo meio)…

Por favor diga-me se é possível esta nossa pretensão, se conhece alguém interessado, etc… (…)

Quem tiver boas ideias ou se quiser oferecer pode deixar um comentário ou contactar directamente a Ana Cortiçada para anacorticada arroba gmail ponto com. Na fotografia estão embrulhos meus de há três anos: durante cerca de um mês abri com x-acto todas as cartas e depois pintei e carimbei os respectivos envelopes.

blog action day

hoje só lixo, originally uploaded by *L.

Ainda na continuação deste post e dos comentários que suscitou:

Levo sempre sacos de casa para o supermercado, mas como hei-de evitar aqueles sacos pequenos para a fruta e legumes e as outras embalagens?

Os sacos transparentes também podem ser reutilizados, apesar de não ser assim muito prático andar com um monte de saquinhos de um lado para o outro. Podem fazer-se ou comprar-se sacos leves e reutilizáveis para os substituir (como estes) mas, pensando bem, na maior parte dos casos o seu uso pode ser evitado. Levando uma cesta ou um saco extra para os transportar, quase todos os vegetais (tirando os mais pequeninos) podem ser arrumados e pesados sem ser preciso um saco para cada um. Afinal, já havia idas ao mercado (para não falar nos vegetais propriamente ditos) muito antes da invenção dos plásticos. Quanto às outras embalagens excessivas, é uma questão de optar pelas marcas e lojas que não recorrem a elas.

Uso os sacos do supermercado para pôr o lixo. Há alguma solução mais ecológica?

Os sacos da maioria dos supermercados são tão finos que é preciso usar dois ou três para acondicionar decentemente o lixo doméstico. Por outro lado, comprar sacos do lixo não biodegradáveis é incentivar a produção de ainda mais sacos. O ideal seria os supermercados recorrerem apenas a sacos biodegradáveis que fossem vendidos (para controlar o seu consumo) e suficientemente resistentes para acondicionar o lixo. Para o conseguir, nada como pressionar os responsáveis.

Aqui fica uma possível carta a enviar (eu já o fiz) aos supermercados e outras lojas em que fazemos compras habitualmente, a adaptar e editar a gosto:

Ex.mos Srs.,

Sou cliente habitual do [nome do supermercado] e venho apresentar-vos algumas sugestões cuja aplicação em muito melhoraria a vossa imagem junto dos consumidores enquanto empresa empenhada na protecção do meio-ambiente e, pessoalmente, me daria razões para continuar a fazer compras nas vossas lojas:

1. Introduzir uma pequena taxa sobre os sacos de compras que actualmente o(s) vosso(s) estabelecimento(s) cede(m) gratuitamente aos clientes, à semelhança do que acontece por exemplo nos supermercados da marca Minipreço.

2. Incentivar os clientes a trazerem de casa sacos de compras reutilizáveis, em pano ou noutros materiais, através da sensibilização do pessoal que trabalha nas caixas registadoras.

3. Optar por plásticos 100% degradáveis (d2w) ou oxi-biodegradáveis, tanto para os sacos de compras como para os sacos transparentes da fruta e legumes e outras embalagens (de vegetais, charcutaria, etc.) usados nas vossas lojas.

4. Optar por plásticos 100% degradáveis (d2w) ou oxi-biodegradáveis para os sacos de lixo da vossa marca própria.

5. Incluir no website da vossa marca uma secção que informe os consumidores acerca da política da vossa empresa no que diz respeito às questões ambientais.

Os cerca de 150 sacos de plástico por pessoa produzidos anualmente acarretam graves consequências para o meio ambiente: para além de a sua produção implicar o consumo de combustíveis fósseis e a emissão de gases poluentes, cerca de 90% destes sacos acabam a sua vida em lixeiras, como lixo ou como contentores de desperdícios (fonte: Wikipedia).

A distribuição gratuita de sacos de plástico, que é prática do [nome do supermercado], é já proibida em países europeus como a Bélgica, Irlanda e Dinamarca, sendo cada vez mais sinónimo de atraso em termos de consciência ambiental.

Com os meus melhores cumprimentos,

[Nome]

Sugestões para melhorar o texto são bem-vindas.

No âmbito da iniciativa Blog Action Day, ao clicar nos anúncios da coluna da direita durante o dia de hoje estará a doar alguns cêntimos à Quercus.

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