pais e mães e mungo

Um privilégio, um risco calculado, uma escolha. Tal como as irmãs, o A2 está em casa (e na loja, e por aí a visitar fábricas) e não na escola. Uns dias comigo, outros com o pai. Nesta fase sou uma mãe a tempo inteiro em part-time. É uma vida a dois ritmos, entre os apertos do trabalho e o compromisso de desligar de tudo isso para ser capaz de só estar, devagar, com esta pessoa pequenina.

O livro na fotografia chama-se Swedish Dads e retrata momentos do quotidiano de pais que optaram por usufruir da generosa licença de paternidade sueca para serem pais a tempo inteiro. É um objecto bonito, uma boa prenda para alguém com filhos pequenos (todos nos podemos rever naquelas imagens) e é além do mais um documento de época – acho que será daqueles livros que veremos com interesse daqui a muitos anos.

Ao lado do livro está a camisola que estou a fazer (devagar, já se sabe). O fio é o mais recente que desenhei. Chama-se Mungo e está completamente esgotado até ao fim deste mês porque toda a gente parece ter gostado tanto dele como eu. Pensei em fazê-lo um dia em que visitei uma fábrica onde se reciclam aqueles fardos de roupa que vem dos contentores das instituições (uma longa história, essa). Seria um fio produzido apenas com desperdício pós-consumo, o que parecia ser uma óptima ideia. O problema é que na reciclagem de roupa não é tida em conta a composição do vestuário (julgo que a separação tornaria o processo demasiado oneroso), pelo que os fios que resultam desse processo têm sempre uma elevada percentagem de fibras sintéticas. E as fibras sintéticas, sabe-se agora, além de tudo o resto que me faz fugir delas soltam micro-poluentes de cada vez que são lavadas, contribuindo para a poluição dos oceanos. Assim resolvi fazer um fio apenas com fibras naturais (lã e algodão) reciclado a partir de desperdício pré-consumo, ou seja, de matéria que é desperdiçada na produção de outros fios. O nome, Mungo, surgiu-me numa manhã de leituras na biblioteca. É uma palavra antiga usada na indústria dos lanifícios para designar lãs recicladas numa época em que ainda não se falava de reciclagem.

No dia em que os novelos chegaram à loja tivemos a visita da Joji Locatelli e das editoras da Laine Magazine. Foi um bom augúrio.

ensinar a lã

da ovelha ao novelo

Há uns meses fomos passear à Quinta do Pisão levados pela informação de que era um bom sítio para passear com uma horta biológica onde poderíamos colher nós próprios o que quiséssemos trazer para casa. O nome era desde logo sugestivo pela ligação óbvia aos lanifícios (apesar de só depois ter ido ler sobre a fábrica que aí chegou a funcionar).

da ovelha ao novelo

A horta encantou-me (e recomendo-a a toda a gente), mas o que mais me surpreendeu foi dar de caras com um rebanho de ovelhas que reconheci como sendo da raça Campaniça aqui mesmo à beira de Lisboa. No dia seguinte estava ao telefone com os responsáveis pela Quinta, a quem propus um dia de actividades em torno da lã deste rebanho. Os workshops Da Ovelha ao Novelo da Retrosaria, dentro e fora de portas, têm corrido sempre muito bem mas aqui quis aproveitar a oportunidade para levar comigo outras mulheres da lã com os seus saberes. A Vânia, a Ana Rita e a Fátima não hesitaram em juntar-se e as inscrições esgotaram num ápice.

da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo

Foi uma tarde em cheio, com dezenas de famílias que quiseram vir experimentar feltrar, fiar, tingir e tecer.

da ovelha ao novelo

as botas de pestana

bota de pestana

Nunca me imaginei a desenhar sapatos mas há uns meses dei por mim a rabiscar um par de botas que entretanto ganharam vida.
No início de 2015 (o respectivo post ficou eternamente por escrever) passei a vender botas alentejanas na Retrosaria. O assunto das botas, como o do mosaico hidráulico, já tinha atingido na loja o estatuto de piada porque não havia semana em que não recebêssemos telefonemas a perguntar se os vendíamos (botas e mosaico). Continuo até hoje a encaminhar quem anda à procura de mosaico hidráulico para esta FAQ mas decidi que estava na altura de ir descobrir quem fazia as minhas botas preferidas e, porque não, de as ter à venda.

fazer

Além do meu modelo preferido, os borzeguins, que calço dia sim, dia sim na metade do ano em que não ando de sandálias, redescobri nessa pesquisa estas botas da Primeira Guerra que tinha fotografado numa exposição na Cordoaria Nacional uns anos antes. Trouxe-os comigo, a Retrosaria passou a ser também um bocadinho uma sapataria e as nossas botas, que são alentejanas como as mantas de Minde são alentejanas (porque na verdade, como quase todas as botas alentejanas, são feitas na zona Oeste), começaram a voar para muitos destinos.

No ano passado cruzei-me com um modelo antigo de bota, hoje quase desaparecido, que não conhecia e que me cativou: a bota de pestana. Encontrei um par no museu de Almodôvar, terra de sapateiros, e vi outro na FIA. Em Garvão encontrei a uso o par das fotografias aqui de baixo que, graças à insistência do R., acabou por nos vir parar às mãos. Foi com base nele e no que mais me agradou nos outros que acabei a desenhar umas botas de pestana para a Retrosaria.

bota de pestana
bota de pestana

do neolítico ao novelo na gulbenkian

fusos
spindle whorls from alentejo

Na oficina de fiação que dei ontem na Gulbenkian (foi bom ser convidada a ensinar num sítio onde desde pequenina que me sinto em casa e onde vi alguns dos espectáculos mais marcantes da minha vida) quis partir da Pré-História. Não tínhamos uma ovelha mas tínhamos lã de três raças portuguesas diferentes para transformar em fio com uma ferramenta o mais rudimentar possível: um pau. Resolvi inspirar-me nos cossoiros que se encontram em quase todos os núcleos arqueológicos (os da fotografia são do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão, que abriu em Ourique este ano) e fazer uns, bastante toscos mas que, quando chegou a altura, transformaram os paus em fusos. Fomos por aí fora até chegarmos ao fim com doze lindos novelos.

na lã
fiar
fiar
fiar
fiar
fiar

vagar

mondim

Com um bebé pequenino, tudo o que não lhe diz respeito acontece mais devagar. Ou mesmo muito devagar. Estas meias estão para ser feitas desde que a Mondim chegou à Retrosaria. São um modelo antigo, feito originalmente em linha, que trouxe de Panoias (uma aldeia no Baixo Alentejo onde o fim da tarde é sempre magnífico). O ponto, rendado, é fácil de memorizar e gosto de o ver neste amarelo que toda a gente tem gabado. Estou a pôr as instruções por escrito em forma de gráfico, como fazem os livros japoneses, e espero tê-las no Ravelry em breve. Quando houver vagar.

mondim

joão

retrosaria joão

O João, que vestiu o A2 ainda na maternidade, cresceu. Ganhou uma paleta de tons quentes mas tranquilos, como os que (me) apetece vestir aos bebés.

A photo posted by Rosa Pomar (@rosapomar) on

Nesta brincadeira de quando chegaram os primeiros novelos comprovei que o João é em tudo semelhante ao fio das antigas mantas do Baixo-Alentejo. Um dia, quando o meu tear antigo voltar a tecer, hei-de fazer uma.

larada

larada
larada

Branca larada, que vai pela estrada
não fia, não tece, e seus filhos veste

larada
larada

Uma camisola no meu novo fio, que é muito grosso e salpicado de cores. Fi-la a partir da app Raglanify, que me serve essencialmente para calcular o número de malhas inicial e a quantidade de aumentos necessários, mas usei a técnica das carreiras incompletas para conseguir um decote perfeito e alturas diferentes atrás e à frente.

um gorrinho

gorrinho


Era para ter sido mais um par de mini calças mas só depois de um serão a fazer o canelado reparei que tinha montado 20 malhas a menos, de maneira que acabei por fazer um gorro. O modelo foi improvisado mas ficou com umas proporções simpáticas, de modo que partilho aqui as instruções. Trabalhado com um fio mais grosso e agulhas de 5mm, a mesma receita produz um gorro de adulto:

Tamanho: até aos 3 meses

Materiais:
Cerca de 35g de João na cor 911
Cerca de 15g de João na cor 401
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 2.5mm
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 3.5mm
Marcas para tricot
Agulha de ponta redonda para rematar

Execução:
Montar 88 malhas com o fio azul nas agulhas de 2.5mm e trabalhar 32 voltas (7.5cm) em canelado (1 malha de liga, uma malha de meia).
A partir deste ponto todas as malhas são trabalhadas em liga.
*Com as agulhas de 3.5mm e o fio branco, trabalhar 2 voltas, passando o fio azul pelo avesso.
Com o fio azul, trabalhar 2 voltas, passando o fio branco pelo avesso.
Repetir a partir de * até ter trabalhado um total de 11 riscas (6 brancas e 5 azuis).
Com o fio branco, trabalhar 1 volta, colocando uma marca na agulha a cada 8 malhas.
*Volta seguinte: trabalhar até 2 malhas antes da marca, 2 malhas de liga juntas. Repetir esta instrução até ao fim da volta.
Volta seguinte: trocar de cor e trabalhar uma volta inteira sem diminuições.
Repetir desde * até restarem apenas 11 malhas nas agulhas. Retirar as marcas.
Cortar o fio do trabalho, deixando uma ponta com cerca de um palmo de comprimento. Com a ajuda da agulha de ponta redonda, passar o fio por dentro das 11 malhas restantes, puxar suavemente para fechar o gorro e rematar pelo avesso.

gorro

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