ensinar a lã

da ovelha ao novelo

Há uns meses fomos passear à Quinta do Pisão levados pela informação de que era um bom sítio para passear com uma horta biológica onde poderíamos colher nós próprios o que quiséssemos trazer para casa. O nome era desde logo sugestivo pela ligação óbvia aos lanifícios (apesar de só depois ter ido ler sobre a fábrica que aí chegou a funcionar).

da ovelha ao novelo

A horta encantou-me (e recomendo-a a toda a gente), mas o que mais me surpreendeu foi dar de caras com um rebanho de ovelhas que reconheci como sendo da raça Campaniça aqui mesmo à beira de Lisboa. No dia seguinte estava ao telefone com os responsáveis pela Quinta, a quem propus um dia de actividades em torno da lã deste rebanho. Os workshops Da Ovelha ao Novelo da Retrosaria, dentro e fora de portas, têm corrido sempre muito bem mas aqui quis aproveitar a oportunidade para levar comigo outras mulheres da lã com os seus saberes. A Vânia, a Ana Rita e a Fátima não hesitaram em juntar-se e as inscrições esgotaram num ápice.

da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo

Foi uma tarde em cheio, com dezenas de famílias que quiseram vir experimentar feltrar, fiar, tingir e tecer.

da ovelha ao novelo

as botas de pestana

bota de pestana

Nunca me imaginei a desenhar sapatos mas há uns meses dei por mim a rabiscar um par de botas que entretanto ganharam vida.
No início de 2015 (o respectivo post ficou eternamente por escrever) passei a vender botas alentejanas na Retrosaria. O assunto das botas, como o do mosaico hidráulico, já tinha atingido na loja o estatuto de piada porque não havia semana em que não recebêssemos telefonemas a perguntar se os vendíamos (botas e mosaico). Continuo até hoje a encaminhar quem anda à procura de mosaico hidráulico para esta FAQ mas decidi que estava na altura de ir descobrir quem fazia as minhas botas preferidas e, porque não, de as ter à venda.

fazer

Além do meu modelo preferido, os borzeguins, que calço dia sim, dia sim na metade do ano em que não ando de sandálias, redescobri nessa pesquisa estas botas da Primeira Guerra que tinha fotografado numa exposição na Cordoaria Nacional uns anos antes. Trouxe-os comigo, a Retrosaria passou a ser também um bocadinho uma sapataria e as nossas botas, que são alentejanas como as mantas de Minde são alentejanas (porque na verdade, como quase todas as botas alentejanas, são feitas na zona Oeste), começaram a voar para muitos destinos.

No ano passado cruzei-me com um modelo antigo de bota, hoje quase desaparecido, que não conhecia e que me cativou: a bota de pestana. Encontrei um par no museu de Almodôvar, terra de sapateiros, e vi outro na FIA. Em Garvão encontrei a uso o par das fotografias aqui de baixo que, graças à insistência do R., acabou por nos vir parar às mãos. Foi com base nele e no que mais me agradou nos outros que acabei a desenhar umas botas de pestana para a Retrosaria.

bota de pestana
bota de pestana

do neolítico ao novelo na gulbenkian

fusos
spindle whorls from alentejo

Na oficina de fiação que dei ontem na Gulbenkian (foi bom ser convidada a ensinar num sítio onde desde pequenina que me sinto em casa e onde vi alguns dos espectáculos mais marcantes da minha vida) quis partir da Pré-História. Não tínhamos uma ovelha mas tínhamos lã de três raças portuguesas diferentes para transformar em fio com uma ferramenta o mais rudimentar possível: um pau. Resolvi inspirar-me nos cossoiros que se encontram em quase todos os núcleos arqueológicos (os da fotografia são do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão, que abriu em Ourique este ano) e fazer uns, bastante toscos mas que, quando chegou a altura, transformaram os paus em fusos. Fomos por aí fora até chegarmos ao fim com doze lindos novelos.

na lã
fiar
fiar
fiar
fiar
fiar

vagar

mondim

Com um bebé pequenino, tudo o que não lhe diz respeito acontece mais devagar. Ou mesmo muito devagar. Estas meias estão para ser feitas desde que a Mondim chegou à Retrosaria. São um modelo antigo, feito originalmente em linha, que trouxe de Panoias (uma aldeia no Baixo Alentejo onde o fim da tarde é sempre magnífico). O ponto, rendado, é fácil de memorizar e gosto de o ver neste amarelo que toda a gente tem gabado. Estou a pôr as instruções por escrito em forma de gráfico, como fazem os livros japoneses, e espero tê-las no Ravelry em breve. Quando houver vagar.

mondim

joão

retrosaria joão

O João, que vestiu o A2 ainda na maternidade, cresceu. Ganhou uma paleta de tons quentes mas tranquilos, como os que (me) apetece vestir aos bebés.

A photo posted by Rosa Pomar (@rosapomar) on

Nesta brincadeira de quando chegaram os primeiros novelos comprovei que o João é em tudo semelhante ao fio das antigas mantas do Baixo-Alentejo. Um dia, quando o meu tear antigo voltar a tecer, hei-de fazer uma.

larada

larada
larada

Branca larada, que vai pela estrada
não fia, não tece, e seus filhos veste

larada
larada

Uma camisola no meu novo fio, que é muito grosso e salpicado de cores. Fi-la a partir da app Raglanify, que me serve essencialmente para calcular o número de malhas inicial e a quantidade de aumentos necessários, mas usei a técnica das carreiras incompletas para conseguir um decote perfeito e alturas diferentes atrás e à frente.

um gorrinho

gorrinho


Era para ter sido mais um par de mini calças mas só depois de um serão a fazer o canelado reparei que tinha montado 20 malhas a menos, de maneira que acabei por fazer um gorro. O modelo foi improvisado mas ficou com umas proporções simpáticas, de modo que partilho aqui as instruções. Trabalhado com um fio mais grosso e agulhas de 5mm, a mesma receita produz um gorro de adulto:

Tamanho: até aos 3 meses

Materiais:
Cerca de 35g de João na cor 911
Cerca de 15g de João na cor 401
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 2.5mm
Conjunto de 5 agulhas de dupla ponta de 3.5mm
Marcas para tricot
Agulha de ponta redonda para rematar

Execução:
Montar 88 malhas com o fio azul nas agulhas de 2.5mm e trabalhar 32 voltas (7.5cm) em canelado (1 malha de liga, uma malha de meia).
A partir deste ponto todas as malhas são trabalhadas em liga.
*Com as agulhas de 3.5mm e o fio branco, trabalhar 2 voltas, passando o fio azul pelo avesso.
Com o fio azul, trabalhar 2 voltas, passando o fio branco pelo avesso.
Repetir a partir de * até ter trabalhado um total de 11 riscas (6 brancas e 5 azuis).
Com o fio branco, trabalhar 1 volta, colocando uma marca na agulha a cada 8 malhas.
*Volta seguinte: trabalhar até 2 malhas antes da marca, 2 malhas de liga juntas. Repetir esta instrução até ao fim da volta.
Volta seguinte: trocar de cor e trabalhar uma volta inteira sem diminuições.
Repetir desde * até restarem apenas 11 malhas nas agulhas. Retirar as marcas.
Cortar o fio do trabalho, deixando uma ponta com cerca de um palmo de comprimento. Com a ajuda da agulha de ponta redonda, passar o fio por dentro das 11 malhas restantes, puxar suavemente para fechar o gorro e rematar pelo avesso.

gorro

lã de bebé

mini

A Ágata mandou-me o link para este artigo sobre uma campanha da Woolmark que decorre por estes dias em Paris. Vista de relance, é uma campanha em defesa da lã – the exhibition will showcase wool in all its extraordinary forms and stages – mas, olhando com atenção, descobre-se (mais) uma iniciativa para promover apenas um tipo de lã de apenas uma raça de ovelhas – o Merino australiano. Sozinha, a Austrália produz cerca de 27% da lã mundial (dados oficiais) e, a acreditar no artigo, 90% (!) da lã destinada à indústria de vestuário. É lá que vivem 111 milhões de ovelhas intensamente modificadas (comparem-se com as tetravós espanholas) para que a sua lã seja o mais abundante e o mais macia possível. Mas e as outras raças? Peter Ackroyd, global strategy advisor da Woolmark entrevistado no artigo, é peremptório: a lã que a sua empresa promove é macia. O resto só serve para fazer tapetes:

WWD: But you know what people say: wool is itchy?
P.A.: That’s one of the biggest misconceptions about wool. It’s local and cross-bred wools that are scratchy and they are so on purpose, because they were meant for carpets. People don’t remember that in days of Roubaix and Tourcoing all wools that were spun there came from Australia [where 90 percent of the world’s apparel wool comes from], and Australian merino is very soft.

Esta triste afirmação ressoa na frase que mais frequentemente se ouve nas lojas de lãs: Têm lã para bebé?

Pela Retrosaria passam, tenho orgulho em dizê-lo, muitas pessoas das que lêem criticamente os rótulos, sejam os da comida ou os da roupa que vestem, e que apreciam os novelos com mais do que um dos cinco sentidos. Mas ouço esta frase diariamente. E o mais comum, porque me falta na parede uma boa reprodução do Menino do cobertor [de papa], é ter de desarmar o interessado (cf. the shame of selling) com um potencialmente desastroso O que é que quer dizer com lã para bebé?

lauro corado
Lauro Corado (1908-1977), Menino do cobertor. Col. Museu de Grão Vasco. Imagem MatrizPix.

A resposta, acompanhada de um olhar de espanto por eu parecer não entender à primeira, é quase, quase sempre a mesma: Daquela mais macia. Para BEBÉ. E o contra-ataque por vezes é fatal: Prefere um fio muito macio mas pouco natural ou menos macio mas local, sem fibras sintéticas nem aditivos? Ou um fio que, seja qual for a sua composição ou processo de fabrico, tem a cara de um bebé sorridente estampada no rótulo ou a palavra baby no nome e que, só por isso, passa por ser o melhor?

beiroa

Não se desfazem preconceitos nem se desconstroem décadas de marketing de repente, mas há duas ideias que tenho cada vez mais presentes no que faço diariamente seja na Retrosaria ou em casa:
Por um lado a riqueza que reside no conhecimento e na procura das coisas na sua variedade – sejam 14 raças de ovelhas (só em Portugal), cada uma com a sua lã, sejam os sabores diferentes do mel consoante as flores que rodeiam a colmeia. Sim, Sr. Ackroyd, da lã das nossas ovelhas churras fazem-se por cá (além de tudo o resto) óptimos tapetes industriais (para exportação). Mas as nossas outras raças de ovelhas dão lã boa de vestir, que nem toda a lã é para usar directamente em cima da pele (vivam as camisas de algodão e de linho por baixo das camisolas e casacos de lã) e muito melhor poderá ser ainda quando os produtores começarem a pensar mais nela outra vez (vejam-se entre tantos outros os exemplos escocês e islandês, cujas raças de ovelhas que dão lã que pica são promovidas como riqueza nacional).

churra do minho
Ovelhas (com cara de serem) Churras do Minho na Serra do Marão, há algumas semanas.

Por outro lado, o empobrecimento da vida em geral e da das crianças pequenas em particular com a obsessão em remover obstáculos de todo o género – a lã para bebé, as uvas sem grainhas, o pão sem côdea, os parques infantis com barreiras à volta dos baloiços (leia-se, a propósito, esta entrevista ao professor Carlos Neto)…

As calças da primeira fotografia foram feitas com Beiroa. As instruções são gratuitas e muito simples de seguir. A Beiroa não é uma lã para bebé. Ou será? Quando chegar a altura conto se o destinatário se queixa.

☐☐☐☐

mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
No primeiro dia desarrumam-se todos os tecidos da loja e vêem-se muitas imagens para ficar bem claro que o patchwork não é uma coisa mas muitas coisas diferentes e que nunca por aqui foi preciso usar uma roda de cores para descobrir o que fica e o que não fica bem. As regras que dou são poucas e estão abertas a discussão: proponho escolher cores e desenhos dos quais continuemos a gostar daqui a mais de vinte anos (afinal uma manta de retalhos tem de durar bem mais do que isso), sugiro usar poucos tecidos com demasiadas cores e com cores que não existissem nos tecidos das nossas avós e insisto para que todas as costuras sejam tão bem feitas que resistam ao uso intenso que espero que as mantas venham a ter. Depois o jogo começa.

Page 1 of 1712345...10...Last »