@aly_john_denim #notsponsored

Aproveitei uma viagem de trabalho ao Minho para riscar um item da minha longa lista de sítios-fora-de-lisboa-onde-tenho-mesmo-de-ir: conhecer a marca e as pessoas por detrás da marca Aly John porque há anos que procuro uns bons (ênfase no bons) jeans feitos em Portugal. É verdade que com muita vontade podia fazer eu própria um arremedo de calças de ganga (até tenho o denim certo), mas há pormenores impossíveis de conseguir com máquinas domésticas e que prefiro deixar com os especialistas. Também é verdade que há outras marcas portuguesas de calças de ganga mas lamentavelmente produzem-nas com mão de obra barata do outro lado do mundo.

Apesar de só ter conseguido avisar de véspera e de ter ido já a más horas fui (super bem) recebida pelo João e pela Gabriela, que me apresentaram desde os protótipos de vários modelos às máquinas de costura onde nasce cada par.

A história da jovem Aly John tem para mim um elemento (entre outros) que me faz torcer para que tenha sucesso: o João é já da segunda geração de uma família de fazedores de calças de ganga e voltou a casa para usar o conhecimento e experiência da família – que pena não ter tirado um retrato à elegante matriarca – para desenvolver a sua própria marca. Contraria assim duas tendências por cá muito comuns: a de termos produção de altíssima qualidade mas apenas ao serviço de marcas estrangeiras e a de os filhos e netos não terem em geral interesse em dedicar-se ao negócio/ofício da família.

Curiosamente, ao partilhar uma primeira fotografia nas redes sociais, choveu um coro de protestos contra o preço das calças de que não estava minimamente à espera. Que são só para quem pode, que não são sustentáveis nem um negócio justo, etc. Apeteceu-me por isso vir aqui escrever uma ou duas coisas: antes de mais, acho que quem faz tem o direito de pedir pelo que faz o que lhe der na real gana e ninguém tem nada a ver com isso – se o negócio é viável é outro assunto. Ganhei esse calo nas poucas feiras que fiz, há mais de dez anos, quando pedia (e sempre continuei a pedir) pelos meus bonecos um valor que me valeu todo o género de olhares e comentários escandalizados.

Actualmente no mundo ocidental a roupa (tal como a comida) é demasiado barata, não reflectindo no preço de venda o seu verdadeiro custo (calças de ganga a vinte euros são só para quem pode fechar os olhos às condições em que são feitas). Isto faz com que cada vez se compre mais peças de roupa e que elas sejam encaradas como um bem praticamente descartável:

(…) os preços de vestuário não estão a acompanhar o ritmo de outros bens, o que significa que, em termos relativos, as roupas estão a ficar mais baratas. O número de peças de vestuário que o consumidor médio compra anualmente aumentou 60% entre 2000 e 2014, nota a McKinsey, e a vida útil dos itens de vestuário foi reduzida para metade, comparativamente com o que acontecia há 15 anos.

À procura de fechar o ciclo, Portugal Têxtil, 5 de Setembro de 2016.

Dizem as estatísticas que em 2014 os portugueses gastaram mais de sete mil milhões de euros em vestuário e calçado, o que quer dizer que nesse ano, em média, cada pessoa gastou €700 em roupa e sapatos. Era interessante saber quantas peças de roupa compraram com esse dinheiro e quais as motivações para a compra de cada uma (este gráfico é elucidativo).

Acredito que comprar menos quantidade e melhor qualidade com menor pegada ecológica é o único caminho sustentável, que é bom usar as mesmas calças durante vários anos e remendá-las para durarem mais alguns. Não me faz confusão que se peça €300 por um par de calças excepcionalmente bem feitas, localmente e por pessoas decentemente remuneradas que o fazem num bom ambiente de trabalho, da mesma forma que não me faz confusão ter estado desde meados do ano passado até Outubro deste sem ter comprado uma única peça de roupa para mim além de soutiens de amamentação.

Voltando à Aly John, falta dizer o essencial: nunca tinha experimentado calças tão confortáveis e bem construídas – recomendo vivamente. Se as quiserem ver espero que o possam fazer em breve na Retrosaria.

Further reading:
If Your Jeans Are Cheaper Than This, You’ve Got A Problem
Fast fashion is creating an environmental crisis
Waste not want not: Sweden to give tax breaks for repairs

covilhã

Covilhã

Teia

Emquanto aos pannos da Covilhã, já veem elles celebrados em dois versos de Gil Vicente na sua Tragicomedia pastoril da Serra da Estrella:
E Covilham muitos pannos
Finos que se fazem lá.

Sousa Viterbo, Francisco Marques de, 1845-1910
Artes industriaes e industrias portuguezas; industrias textis e congéneres. Coimbra, Impr. de Universidade, 1904.

Uns dias passados na Covilhã, entre a universidade, o museu e as fábricas, onde todos têm a indústria no sangue dos pais e dos avós e se vive em socalcos ligados por pontes e elevadores. Paredes meias com fábricas gigantes abandonadas, sob as quais se descobrem outras ainda mais antigas (saídas das imagens da Enciclopédia), pode-se estudar para ser artesão têxtil ou operar um contínuo de penteação. Quem acha que o país é pequeno não o conhece. Read more →

mestre rosa

mestre rosa

Um pulo ao Alentejo antes de seguir para Trás-os-Montes para irmos à Ovibeja filmar e estabelecer novos contactos (matéria para outro post). Não podia desperdiçar a oportunidade de ir a Santa Clara de Louredo, mesmo ali ao lado, encomendar umas botas de ceifeira ao Mestre Rosa. Soubera da sua existência por ter elogiado os sapatos da Ilda, com as suas franjas e cordões amarelos, no dia em que o coro das Rosinhas veio cantar ao nosso quintal. Logo nos foi feito o convite para uma visita e se trocaram contactos. O Mestre Rosa, como o Mestre Simão que a Diane conheceu, é um dos sapateiros sobreviventes no Baixo Alentejo. Trabalha ainda por encomenda na sua minúscula oficina e prometeu-me as botas com que sonho há anos.

Galeria portuguesa: uma entrevista recém-publicada.

Café Portugal: um artigo de Sara Pelicano sobre o projecto Lã em Tempo Real. Read more →

fabricar

fabricar

de cá

Numa terra cheia de fábricas abandonadas cujo recheio namorámos pela janela, uma delas labora ainda, e bem. Com um armazém cheio de lãs portuguesas e fios com belíssimas cores, produz para exportar, em grande escala. O problema que enfrenta quem quer colocar pequenas encomendas é sempre o mesmo: para menos que uma tonelada de produto nem vale a pena ligar as máquinas. Read more →

baltar

tamanqueiro

tamanqueiro

Apesar de não terem a qualidade das da Diane, não resisto a mostrar algumas fotografias que tirei em Baltar na oficina do Sr. João, tamanqueiro. Fomos recebidos sem a estranheza habitual por sermos de fora, o que é natural num artesão que recebe visitas frequentes e encomendas às quais não tem mãos para dar resposta (recentemente um visitante japonês quis comprar várias centenas de pares). O Sr. João não tem ajudantes nem aprendizes. O filho que aprendera o ofício morreu e os jovens de hoje querem empregos certos a ganhar logo um bom ordenado. Mas fazer tamancos não é como fazer carros de bois, ou outras artes que o progresso tornou obsoletas. Os moradores destas aldeias, como o Sr. Júlio e muitos outros que vimos passar, continuam a preferir os tamancos ao calçado moderno por protegerem melhor da humidade e do frio. E os que o Sr. João faz são tão bonitos, com a sua sola de amieiro e as tiras de pneu a aligeirar o passo, que nem na cidade parecem estranhos (estreei hoje os que de lá trouxe). Talvez os austríacos pudessem importar o Sr. João e o seu património imaterial por preservar… Read more →

cobertores de papa

Pastor com cão
António Correia (Foto Hermínios, Guarda), Pastor com cão [1930-1940]. Col. Museu da Guarda. Imagem MatrizPix.

tear

tear

A norte das mantas de Mértola fazem-se, em Maçaínhas, os célebres cobertores de papa. São mantas de lã churra seleccionada e fiada especificamente para este fim, tecidas num enorme tear totalmente manual por um único artesão de 84 anos. Do tear saem para um pisão (já único no seu género e que lembra as pernas de um gigante), daí para a máquina de cardar, onde ganham o característico aspecto peludo que as torna tão quentes, e finalmente para um estendal onde secam e ao sol e são esticados para adquirirem o aspecto definitivo.
Tudo isto se passa na fábrica de José Pires Freire, que tive o privilégio de visitar na melhor das companhias. Fomos recebidas pelas duas únicas operárias num espaço que há algumas décadas ainda albergava oito tecelãos. O único ainda activo já só vem de vez em quando, quando lhe apetece, e quando se reformar definitivamente não tem quem o substitua. Duas aldeias mais para a frente, numa fábrica moderna, fazem-se réplicas industriais destes cobertores, mas não são a mesma coisa. Ficámos também a saber que nesta região tradicionalmente são os homens que tecem, ocupando-se as mulheres de encher as canelas e ajudar com a urdidura. Não resistimos a trazer um cobertor cada uma.

Comprar uma destas mantas (eu trouxe a de riscas amarelas, vermelhas, verdes e castanhas) é a melhor forma de contribuir para que a arte não desapareça. Quem não puder ir a Maçainhas pode encontrá-las nas lojas A Vida Portuguesa de Lisboa e Porto. Read more →

mantas alentejanas

mantas

mantas alentejanas
Autor, título e data desconhecidos. Papel montado em suporte de madeira. Col. Museu de Arte Popular. MatrizPix.

As mantas de Mértola, actualmente feitas apenas pelas mulheres da Cooperativa Oficina de Tecelagem e muito menos conhecidas do que as de Monsaraz, são um verdadeiro artigo de luxo. Quem as vê não adivinha o que representam em termos de preservação de saberes quase extintos e a única monografia dedicada ao tema que conheço (Mantas tradicionais do Baixo Alentejo, de Ângela Luzia, Isabel Magalhães e Cláudio Torres. Mértola, 1984) tem um quarto de século. Estas mantas nascem nos dois teares domésticos que a cooperativa mantém a funcionar e são feitas hoje como há décadas ou séculos. A sua lã é diferente de todas as outras lãs portuguesas e macia como mais nenhuma. Vem das ovelhas merino e campaniça, autóctones da região, e é tratada de forma totalmente manual até chegar ao tear, sendo ainda hoje fervida em pequenos cestos na margem do rio, aberta, cardada e azeitada à mão e fiada em pequenas rodas artesanais. As cores das mantas são as da própria lã: branca, preta e sernubega (o castanho café com leite da ovelha campaniça). Como cada uma representa um sem fim de horas de trabalho são necessariamente objectos caros, mas comprar uma é contribuir para a sobrevivência de todo um universo. A minha está a uso há dezasseis anos e continua tão bonita como quando foi comprada. Read more →

sector secundário

candeeiro

fios

livro de amostras

Desde miúda que adoro visitar fábricas. Nos anos 80, sem sair de Lisboa, fui com a escola primária ver fazer açúcar, bolachas e conservas de peixe em indústrias entretanto extintas ou deslocadas. Nestes dias que passámos fora fomos conhecer uma empresa têxtil em plena Serra da Estrela. Vimos máquinas centenárias, um lindíssimo livro de amostras e os teares em que que ainda se fazem feltro de lã e óptimas fazendas. Prevejo um Inverno bem fornecido na Retrosaria. Read more →

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