o ciclo da lã ao vivo

o ciclo da lã

Há vários anos que os meus posts sobre cultura popular e história têxtil suscitam comentários a sugerir que organize workshops fora de Lisboa ou simplesmente a dizer quem me dera ir contigo. A estreia vai ser daqui a poucas semanas, no início de Maio, e no melhor sítio do país para perceber que ainda há quem fie e teça como sempre se fez e sem ser só em recriações folclóricas ou para turista ver: Duas Igrejas, junto a Miranda do Douro. A Ti Paula vai ser uma das várias mestras e eu vou sobretudo contextualizar e ajudar com base na minha experiência do assunto acumulada um pouco por todo o país, do Alentejo aos Açores. A iniciativa é da Associação Aldeia e o programa é excepcional não só pelo local mas também por ser tão completo. As inscrições já estão abertas. Read more →

as alforjas

alforja

sacos do trigo

Outra aldeia. Passeamos a seguir ao almoço numa das tardes mais quentes do ano. Uma senhora sentada convida-nos a entrar em sua casa para as meninas verem os gaticos. O alforge (em mirandês são alforjas) à vista perto da porta chama-me a atenção. Conversamos. Os gatinhos fugiram mas há galinhas. E uma casa que parece um museu cujas portas se abrem a desconhecidos. Read more →

amor de lã

amor de lã

amor de lã

De casa da tecedeira segui para casa da D. Isabel, escrinheira e fiandeira. Na noite anterior percorrêramos a aldeia a pé. Vimos as estrelas, as vacas a dormir, ouvimos os mochos e as cigarras, admirámos as casas de pedra silenciosas. Nem com muito optimismo conseguiria ter imaginado o estendal de lã que vi pela manhã. Aqui os teares emudecem (mas houvesse encomendas e acredito que voltassem a tecer) mas ainda se fia. A nossa sala de estar é aqui, disse a D. Maria da Cruz apontando para um banco de pedra no largo. E de Inverno estamos aqui, num outro mais abrigado. Se tivesse vindo ontem já nos conhecia todas, dantes fiava-se aqui muito. Hoje temos uma missa e um convívio, mas venha amanhã que lhe mostro o que quer ver. Read more →

tecer

tapete

manta

Nas aldeias junto a Miranda do Douro tecem-se mantas diferentes das que conheço das outras regiões do país. São urdidas com linho (agora algodão) e tapadas com lã fiada relativamente grossa e torcida num fio de dois cabos (de torção “S”). O desenho é criado através da técnica dos puxados, que se encontra em várias regiões (por exemplo no Montemuro), mas aqui toda a superfície é coberta de puxados, que são no fim do trabalho abertos com uma tesoura. O resultado é uma manta com muitos quilos de lã (julgo que entre dez e vinte) e tão densa e espessa que aos nossos olhos parece um tapete de luxo. Uma manta larga é composta por três peças tecidas individualmente (os teares domésticos são estreitos) e cosidas no fim umas às outras, por vezes rodeadas ainda de uma franja feita também em casa (o tear de franjas vê-se à direita na imagem de cima) e na mesma lã. Read more →

o burro e os pentes

pente

pentear

Depois de ver a Ti Paula fiar a lã aberta e preparada apenas à mão fiquei a conhecer o burro e os pentes. O burro é uma peça em madeira à qual se podem prender cardas ou pentes, as duas ferramentas mais importantes no preparo da lã. Com as cardas obtêm-se porções (panadas ou pastas, consoante a região) de lã com as quais se produz um fio cardado (woolen) – as fibras de lã ficam orientadas perpendicularmente ao fio que se vai criar. Com os pentes prepara-se o penteado ou estambre (worsted): apenas as fibras mais longas são seleccionadas e consegue-se que fiquem muito paralelas umas às outras, permitindo a criação de um fio mais fino e resistente, que nesta região era usado para tecer os cobertores (matéria para outro post). Read more →

ti paula

a lã

ver fiar

Junto a Miranda do Douro, pela mão de uma bela gaiteira, cheguei a casa da Ti Paula. Com elas passei uma manhã inesquecível, enquanto a E. e a A. corriam atrás dos gatos e dos pintos. Ganhei uma mestra sem estudos (disse ela), aprendi mais sobre as malhas que lá me levaram, vi fazer um manelo a preceito e fiei na roca uns metros de lã que ainda hão de ser tecidos. O manelo é a porção de lã que se prende na roca para fiar, e foi assim que a Ti Paula o preparou: Read more →

as meias das pernas

fusos e meias das pernas

as meias das pernas

Alguns dias, muitas curvas e outras tantas histórias depois, chegámos a Montalegre, onde tinha estado há três anos. Uma das razões deste passeio foi conhecer pessoalmente a Daniela Araújo, antropóloga e autora de um dos meus blogs preferidos, Uma Ovelha no Quintal. Juntas visitámos um dos muitos protagonistas do seu levantamento de saberes e tradições da região do Barroso, o Sr. Manuel Chaves. Como sempre acontece nestas ocasiões, a conversa levou-nos a muito mais temas do que as agulhas de fazer meia, que eram o pretexto inicial. Graças a ele fiquei a conhecer as meias das pernas, que nunca vi em museu nenhum nem me lembro que estejam referidas nas recolhas que conheço. Trata-se de um agasalho em malha de lã que no tempo mais frio os homens ali usavam sobre as calças e por baixo da croça e da capa. Do seu remate sai uma trança que é presa ao cinto ou às presilhas das calças e abaixo do joelho é presa (uma em cada perna, claro) com um cordão também de lã. O Sr. Manuel não as vestiu, mas mostrou-nos como era, e exemplificou também a feitura do cordão. Entre muitas outras coisas vi os fusos que fez para a mulher, os de fiar (com o característico sulco helicoidal) e os de torcer, todos em madeira (como parece ser norma em Trás-os-Montes) mas sem o volante que caracteriza os da região de Miranda do Douro. E a seguir vimos os fantásticos e coloridos xales, que ficam para outro dia… Read more →

de vinhais

meias de hulema

meias de hulema

Da Madragoa seguimos para Oeiras para ver a mostra de gastronomia e artesanato de Vinhais que decorreu no mercado municipal. Entre muitas bancas de enchidos encontrei a D. Hulema Pires, fazedora de cestos e de meias de lã. Comprei-lhe um par para a minha colecção e aproveitei para ficar um bocadinho à conversa. Fiquei a saber que a lã (muito semelhante a esta) fora fiada por ela num fuso todo em madeira. Para tricotar um par de meias disse-me que leva um dia inteiro e mais uma noite a trabalhar depressa.

Em frente à D. Hulema estava uma senhora (não registei o nome) a quem perguntámos o que era a coisa de ar apetitoso e estranho dentro de uns sacos. Explicou-nos que era (e o que era) cusco. Para mim, que sou grande apreciadora de couscous desde que me lembro, foi uma total novidade. Perguntámos como se fazia e como se cozinhava e naturalmente não lhe resistimos. Entretanto descobri este lindo documentário sobre o cusco: Read more →