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Uma das melhores prendas que se me pode dar é a morada de uma retrosaria que ainda não conheço. Ponho-me logo a sonhar com galões e botões e a tentar inventar tempo para lá ir. Hoje, depois de uma das meninas do Zingarelho me ter revelado a existência de um verdadeiro tesouro escondido em Alfama, dei corda aos sapatos e rumei à Rua dos Remédios.


A loja é minúscula e fica do lado direito de quem sobe a rua. Já não parece uma retrosaria. De fora só se veem panos da louça muito feios, com galos de Barcelos daqueles made in qualquer sítio estampados em cores berrantes. Só quem vai à procura repara nos armários que os panos escondem, a cheirar a pó e a prometer caixinhas. O senhor lá dentro é muito velhinho e mal me dirijo a ele garante-me que não tem nada do que eu possa vir à procura. Estas coisas já não têm saída, menina. Olhe que não vale a pena, vai ficar desiludida. Insisto e ele insiste também. Conto-lhe do meu gosto por coisas com pouca saída e ele conta-me de quando a mãe costurava do outro lado da rua, de quando vendia grega de todas as cores e aos metros por dia. Acede finalmente a destapar alguns dos armários. Por debaixo dos panos feiosos, um maná de botões de outros tempos, de todas as cores, tamanhos e feitios, e cada um mais lindo que o outro. Este senhor conta-me que já ninguém usa botões (a Benedita falava-me do mesmo no outro dia a propósito da sua filha adolescente, que os despreza. A E. tem uma única peça de roupa com botões, que me lembre assim à primeira. São mesmo uma espécie em vias de extinção). Estes milhares de botões estão lá, escondidos, à espera de serem encontrados e elogiados e comprados e cosidos e mostrados. Acho que ficámos uma hora na conversa. No fim, foi escolher um saco de plástico mais bonito para as minhas compras (nem tive coragem de lhe dizer que não queria mais um saco de plástico como faço militantemente em toda a parte) e pediu desculpa por não me poder servir melhor. E eu só queria que lá passasse mais alguém para comprar botões e lhe relembrar que eles são muito mais bonitos que os panos da louça.

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