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Estou cansada do frio, este ano. Da ginástica electrodoméstica para evitar que o quadro venha abaixo, da bilha de gás no meio da sala, de vestir um casaco quando entro em casa. Ainda não me rendi às janelas de alumínio. São feias e mudam o cheiro e o estar aos quartos. Cá em casa há oito grandes janelas de madeira. Seis delas vêm até ao chão. Pelas frinchas e através dos vidros todas deixam passar muito mais vento gelado do que quem não viva numa casa antiga pode imaginar. Gosto delas. No Verão esqueço-me do frio e juro-lhes amor eterno mas chega Novembro e decido todos os anos que é desta que as vou vestir como elas foram feitas para serem vestidas, com visilhos e rolos tapa-ventos, cortinas em camadas e sanefas a rematar. Tanto que pouca luz sobra, tanto que abri-las e fechá-las se torna um ritual antigo como a casa e a roupa com botões e atilhos. Nem cortinas nem alumínio. Ainda não foi este ano.

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