do fumo

vazio

Gerada por dois irredutíveis adictos, creio que nasci nicotinómana. No entanto (ou talvez por isso mesmo) só maior e emancipada experimentei o fumo em primeira mão. Foi amor à segunda vista. Durante meses fumei um solitário cigarro ao fim da tarde, abandonando-me ao dito como a generalidade das pessoas fez pelos doze anos. O hábito durou então pouco tempo mas retomei-o num Verão em que duas amigas anglófonas se deliciavam com o comparativamente baratíssimo Português Suave com filtro. A partir dessa altura estabeleci com os (/esses) cigarros a relação afectiva que distingue os consumidores ocasionais dos fumadores. Fui fumadora quase cinco anos, desenhando e escrevendo de maço ao lado, apesar de nunca ter passado a suportar cinzeiros com beatas ou fumado a) de janelas fechadas b) perto de grávidas ou crianças. Em dois mil e dois, de teste de gravidez na mão soube que tinha deixado de fumar. Pensei que não tinha chegado a saborear o último cigarro e estranhei o vazio do que não fumei a seguir, mas a novidade que me preenchia mandava mais do que a síndrome de abstinência. Nove meses de gravidez e quinze de amamentação sem fumo, consciente de que, como qualquer toxicómano, mesmo não praticando continuava a ser fumadora (coisa que muito exagerada deve achar quem nunca experimentou uma dependência química). No último ano e meio relapsei intermitentemente, detestando sempre o cheiro que fica na roupa e no cabelo mas gozando cada passa. O problema é o mesmo: …what they forget is the pleasure of it. Otherwise we wouldn’t do it. After all, we’re not fucking stupid (*). Tudo isto para escrever simplesmente que voltei a deixar, há poucos dias, desta vez sem a mesma boa desculpa mas com a que qualquer pessoa tem, a de que fumar é bom mas não fumar ainda é melhor. E, como em tudo, um dia de cada vez.

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