Reparo que o leitor à minha frente, um homem mais velho, traz vestida uma camisola feita à mão. Foi feita para ele ou por ele, porque lhe assenta perfeitamente nos ombros. O fio, a gola e a cor improvável de malva manifestam um par de mãos e um trabalho caseiro. Tem motivos das camisolas antigas dos pescadores britânicos. Distraio-me da leitura, comove-me o pequeno erro junto a uma das tranças, registo de um momento. Talvez tenha sido uma conversa ou uma gargalhada, ou uma cena emocionante numa série de televisão ou algo na paisagem. Se calhar quem fez a camisola sabe o que foi. Se calhar até deixou lá esse erro (ou assim já não é um erro?) de propósito para se lembrar sempre do que o causou. Podia meter conversa com o senhor da camisola, dizer que fico sempre contente quando não sou a única, bom, às vezes também há uma miúda com uma camisola da Humana ou da Vinted. Nunca não correu bem começar uma conversa com um desconhecido por causa de uma camisola feita à mão. Até porque vestir uma é cada vez mais um acto de afirmação de alguma coisa, seja de saudade de alguém, de vaidade de uma técnica que se domina ou de ostentação de uma escolha de consumo. Volto ao que estava a ler, é uma notícia que começa assim: os investigadores criaram um equipamento tecnológico que é incorporado no vestuário para monitorizar a atividade física do utilizador, providenciando dados sobre as condições de saúde em tempo real. E depois diz Os nossos corpos emitem gigabytes de dados através da pele a cada segundo sob a forma de calor, som, bioquímicos e luz, todos eles contendo informações sobre as nossas atividades, emoções e saúde. Infelizmente, a maior parte, se não a totalidade, é absorvida e depois perde-se nas roupas que vestimos. Não seria incrível se pudéssemos ensinar o vestuário a captar, analisar, armazenar e comunicar esta informação importante sob a forma de conhecimentos valiosos sobre a saúde e a atividade. É a antítese distópica da camisola do leitor à minha frente.

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