portugal, um retrato social

soajo

Soajo, 1980. Fotografia de Alexandre Pomar.

Desde os primeiros anúncios, que pediam depoimentos e histórias de vida, que aguardava a estreia desta série da autoria de António Barreto. Perdi o primeiro episódio mas, depois de ontem ter visto o segundo, espero ter as meninas a dormir a horas de não perder mais nenhum. Conhecia de outro documentário as declarações chocantes do autarca algarvio dos anos 70, a propósito da urbanização selvagem do sul do país, mas as imagens do Portugal a preto e branco põem-me sempre a pensar. A preto e branco não há gordos. Reparei nisso há anos, julgo que nos excertos que vi das recolhas de Michel Giacometti, e nunca mais consegui deixar de ver (em todas as imagens do programa de ontem, uma única mulher não era magra) essa fome quase omnipresente até há tão pouco tempo. Desse país, o dos meus pais e avós, o que conhecerão as minhas filhas? Das visitas de estudo que fiz durante a primária, as que melhor recordo foram a fábricas: uma de conservas (acabou com a turma a deliciar-se à mão com uma lata gigante de cavala), outra de açúcar e ainda a de bolachas e chocolates da Aliança. Eram todas em Lisboa, dentro da cidade. Nenhuma sobrevive. Restará talvez para elas desse Portugal, o rural e o das fábricas, o que foi guardado e/ou reinventado pelos ranchos folclóricos (sem eles não seria certamente possível comprar hoje – e pela internet – um fato completo de lavradeira do Minho), por alguma museologia e pelos nichos de mercado.

Nota: na fotografia, tirada se não me engano num princípio de Primavera em que a água das poças ainda gelava, mais uma achega para a história do mundo antes das fraldas descartáveis, sobre a qual comecei a interrogar-me nesta altura: o menino, provavelmente com dois anos, tem sapatos e meias até aos joelhos (vêem-se noutra fotografia da mesma série) mas, da cintura para baixo, mais nada.

14 comments » Write a comment

  1. realmente mudamos muito em muito pouco tempo … uma mudança muito drástica.

    de repente abandonamos a terra e sentamo-nos à espera de coisas fáceis e rápidas … com vergonha do que fomos .

    perdemos os valores que tinhamos e isso parece-me ter sido o mais lamentável .

    creio que nos cabe a todos nós (nossas gerações) tentar mudar , mudar valores : o valor da verdade , do belo e do bem .

  2. A criação do conceito de cultura popular-rural e a interpretação que em meados do século XX se procurou atribuir a esta, enquanto «expressão de uma nacionalidade», conduziu à cristalização de algumas manifestações culturais em moldes que nem sempre foram os mais fidedignos, embora muitas vezes sedutores, como é o caso dos ranchos folclóricos.

    Tenho pena que o Museu Nacional de Etnologia não faça mais exposições sobre as zonas rurais do país de meados do século XX (das quais guarda uma enorme quantidade de objectos) e que a sua biblioteca, recheada do esforço de tantos para entender e preservar estes e outros mundos, seja tão pouco divulgada.

  3. Sem dúvida, Catarina, e pode-se começar logo por questionar os próprios trajes regionais das “regiões” inventadas pelo Estado Novo. Mas não há dúvidas de que a este “folclore” (mais ou menos fidedigno) se deve a sobrevivência de muitas técnicas e saberes (sobretudo têxteis). Se não fosse preciso fazer as roupas de quem toca e dança nos ranchos já não havia ninguém a saber fazê-las.

  4. It is programs like these that give me a picture of what Portugal my parents and grandparents left behind when they went to the United States in 1969. With only three images from my mother and none from my father (zero from my grandparents on both sides) I see what my mother may have looked like, lived in and so readily left behind and reluctantly talks about today. I have to sit down and write down what she does talk about when we are in her village.

    I was already travelling to Portugal in 1980 and remember well scenes like those of the picture by Alexandre Pomar (my grandfather actually was from a village above Soajo). I would love to see more.

    bj

    Mary

  5. Também tive pena de perder o primeiro e de só ver parte do segundo, para a semana não quero perder…

    Até porque quero ver realmente o dito, para que possa falar com conhecimento de causa (confesso que tenho alguma desconfiança em relação ao António Barreto, principalmente em relação ao seu papel na reforma agrária, que foi muito penalizante para as gentes do alentejo…)

    Acho bom e bastante dejável que se mostre o Portugal de há 40 anos – um Portugal de miséria e sem liberdade é preciso não esquecer!

    Tenho igualmente muita pena que as tradições e ofícios portugueses se tenham vindo a perder cada vez mais, mas isso é resultado da falta de interesse político em resuscitar a agricultura portuguesa, infelizmente já defunta há alguns anos.

    Depois, não nos podemos esquecer que o “tradicional” e “folclórico” estão demasiado associados ao Estado Novo. Acho que é esta imagem que é preciso desconstruir, recuperando a verdadeira identidade cultural e etnográfica portuguesa.

  6. Tenho uma foto (dos finais dos anos 80), nos espigueiros do Soajo,quando vi a foto identifiquei logo o local, ou será outro muito parecido?? vou procurar a foto e envio para si, vai veer que está igualzinho…só mudam as “personagens”.

    Bjs

    Sónia

  7. Olá, Rosa,

    não te esqueças que podes sempre folhear o famoso inquérito á Arquitectura Popular Portuguesa, realizados nos anos 50!

  8. Nao vejo o programa. Nao estou em Portugal.

    Mas a minha memoria “desses tempos” é a cores e sem fotografias. Ainda me lembro de ir ao rio lavar a roupa, sair de casa às seis da manha apanhar batatas, e ver na igreja as mulheres com o véu. Lembro-me dos burros lavrarem a terra, os meus primos pisarem a uva e das lendas contadas durante a debulha. Para mim eram dias de festas, brincadeiras. Eu era a prima que vivia na cidade. Tenho a tua idade e vivi isto. Havia pobreza, muita e nao foi assim hà tanto tempo. Estava bem escondida no meio dos montes, no centro do paìs. Ainda hà, mas felizmente sempre menos.

  9. O documentário está fantástico. Retrata fielmente este nosso país, um passado, pouco distante, de miséria profunda.

    Eu conheci essa miséria de perto, e não sou da 3º idade(!). Fiz a escola primária numa aldeia “perdida” no distrito de Viseu, onde as crianças percorriam bastantes km a pé para lá chegar e onde ficavam todo o dia sem nada para comer. As mais abastadas levavam uma fatia de broa e meia dúzia de azeitonas.

    É importante que os nossos filhos conheçam este passado recente.

  10. António Barreto dá-nos um retrato, de facto, exemplar de uma realidade que, obscurecida pelo tempo, parece já muito distante para merecer um ‘refresh’ no baú da memória (senão nossa, na dos nossos pais e avós). No outro dia, no rescaldo daquele concurso televisivo que tanto brado deu, conversava com colegas que me diziam que as pessoas viveram esses outros tempos num estado de não questionamento da realidade. Aceitavam, simplesmente. E hoje, com o passar do tempo, não conseguem distanciar-se do seu passado e analisá-lo de outra forma. Apenas lhes sobra uma nostalgia e uma saudade que dificilmente concebo. Porque a realidade que vivi e conheço do que os meus pais me vão contando é muito diferente. Sempre lhes conheci uma consciência política muito forte (livre de ligaçãos partidárias, o que permite alguma objectividade) e que sempre transmitiram aos filhos…

    Catarina, o MNE (museu nacional de etnologia) vive há anos depauperado, sobretudo, de gente (por desprezo e desvalorização, mesmo pelos que sobrevivem à equipa que criou o museu) e de vontades (boas). A sua biblioteca magnífica com uma vista estupenda está igualmente depauperada de um acervo deslocado para outra instituição, por pura teimosia e nhurrice de quem o dirige. Na realidade o MNE actual, exemplar na sua experiência e na sua magnificência, é oco e vazio. Potencialmente seria o local ideal para nos fazer pensar e reflectir muito todas estas questões da nossa identidade ou da construção da mesma… Em vez disso distancia-se do público num autismo absurdo (acontece infelizmente com a maior parte dos nossos museus), o que se reflecte em coisas tão inusitadas quanto o resultado daquele concurso televisivo que tanto tem dado que falar!

Leave a Reply

Required fields are marked *.