a história da capulana

lenço de moçambique

Reza a história que a capulana (ou kanga, ou pano, ou pagne) nasceu no Quénia em meados do século XIX. As versões variam nalguns pormenores, mas todas apresentam os portugueses como comerciantes de lenços estampados provenientes da Índia, muito apreciados na região. Aliás, mesmo consultada de raspão, percebe-se da bibliografia sobre as relações comerciais no Índico que pelo menos desde o século XVII os tecidos indianos eram importante moeda de troca e fonte de receitas no comércio com a costa oriental africana. Os portugueses, voltando à história, venderiam em Mombassa lenços (lesos) que eram cortados um a um de uma peça de tecido com cerca de 60cm de largura. Estes lenços seriam estampados pelo menos em parte com pintas claras sobre um fundo escuro. Algumas mulheres terão tido a ideia de comprar duas peças de três lenços e uni-las de forma a ficarem com uma peça de tecido com cerca de 180cm por 120cm, mais bonita e por um preço inferior ao de um pano com essas dimensões. Por o contraste do padrão lembrar as penas da galinha da Índia ficaram estes panos de seis lenços a chamar-se kanga (galinha da Índia em Swahili). Os comerciantes rapidamente introduziram panos estampados com a dimensão dos seis lenços juntos e a kanga/capulana ganhou novas características (a explorar noutros posts), mas o que me agrada mais nesta história é o pormenor de os lenços que se vendem ainda hoje em Moçambique (e que são mais bonitos e de melhor qualidade que grande parte das capulanas que de lá vi trazer) continuarem a cortar-se da peça um a um e a ter as pintas da galinha da Índia. Aliás, estes lenços são também curiosamente semelhantes nas cores (branco, vermelho e amarelo sobre azul escuro) e nos desenhos aos nossos antigos lenços (não confundir com as chitas) de Alcobaça, coincidência que daria certamente também pano para mangas.

Guinea Hen by birdyboo.

lenço capulana

Imagem da página 28 de Albuns fotográficos e descrítivos da colónia de Moçambique (…), 1929.

Sobre a história da kanga/capulana: The history of kanga, The kanga and Zanzibar, Capulanas & Lenços (Ed. Missanga, 2004), etc.

15 comments » Write a comment

  1. a tradição da produção na india continua. grande parte das capulanas moçambicanas continuam a vir de lá; são as mais fracas, os tecidos mais frageis as impressões de menor qualidade apesar dos padrões bonitos.

    as outras, as mais fortes de melhor qualidade provêm de outros países africanos.

    Apesar dessa fraca qualidade,as de origem indiana contiuam a ser as minhas preferidas e as que eu uso. Gosto delas porque me lembro de as ver vestidas e a ser compradas pelas mulheres mais pobres nos mercados.depois de lavadas ao perderem a camada brutal de goma com que são vendidas, fica pouco mais do que uma gaze e é dificil perceber como aguentam o esforço a que são submetidas… mas aguentam…

  2. Extraordinary that coincidence! I’m also interested a lot about kangas. But I think you’re making a confusion. Real kangas have an inscription on it, like a proverb, in swahili. So kangas are also used as a mean of communication between the people. So maybe the capulanas are not exactly the kangas? I don’t know, I’m not a specialist… But I’ve grown up with kangas, my mom had a lot of them, she was kind of a hippy, and had a friend who went every year to Kenya to buy used kangas, make clothes with them and selling them in Ibiza. Every pic-nic we made, every time we went to swimming pool, there were kangas with us, and I loved them, so soft!!!

  3. Hi deedeen,

    Thanks gor commenting. I’m not making a confusion, I just left that part of the story to be told in another post :)

  4. Rosa

    Gosto cada vez mais de ler osteus posts…não fazes as coisas gratuitamente, aprofundas sempre o assunto, e dás-nos sempre essa informação que recolheste.. obrigada.

    Eu sou uma fã de capulanas, tenho algumas, não muitas, desde criança que ficava fascinada, quando as minhas tias vinham de África com aquelas capulanas lindissimas, hoje tenho uma sogra Africana (Angolana), (destino da vida) que veste capulanas magnificas. Por acaso nunca me dei ao trabalho de pesquisar sobre a sua origem, mas aparece sempre alguèm ): que nos mostra esse lado.

    Obrigada Rosa.

  5. Linda história ♥ nada como a história dos tecidos para espiar coincidências dos desenhos indianos com os dos lenços portugueses. Desenhos e cores migrados para os tecidos portugueses, tal como as chitas ditas de Alcobaça, inpiradas directamente nas Chintz indianas. Não tenho a certeza de onde veio o “lenço português”, mas vou investigar :)

  6. Beautiful. I also think it is very interesting that when I was looking for kerchiefs up north in the Minho, the woman called them “chineses”. Looking at the bazaars of Central Asia, here, I find the fabrics so similar to those we find for example that Marta posted here. Also, some women are wearing darker colors as well and those colors we find in Portugal too. Did the Portuguese bring those back from further East in trading with the nomads from the silk route? I also should review the text that José Leite de Vasconcelos did on uses of the lenço in Portugal…perhaps he has some starting point of the history of lenço in Portugal. So interesting, Rosa.

    Mary

  7. menina que blog incrível… criativo, colorido e diferente… e que bom gosto! já adicionei aos meus favoritos! ;-)

  8. Hi!

    I am interested in the Goldilocks and the Three Bears ribbon. How might I order some? What is the price per yard?

    I would appreciate it if you replied as soon as possible.

    Thank you!

    Sharon Gendler

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  11. Pingback: Artigo do Buala : http://www.buala.org/pt/a-ler/kikulacho-kimo-maungoni-mwako-kanga-da-tradicao-a-contemporaneidade | FIOS4Capulana

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