tecidos que falam

tecidos que falam

Quando, há uns anos, comecei a fazer alguma pesquisa sobre a história dos tecidos africanos, fui apanhando aqui e ali referências aos significados dos vários padrões. Este é talvez um dos aspectos mais interessantes do tema, que é vasto: nos vários países em que circulam com mais abundância os wax prints, os padrões impressos nos tecidos não são apenas decoração. A cada padrão corresponde um nome, um provérbio ou uma ideia, e ao vestir um determinado pano está a enviar-se uma mensagem silenciosa a todos os que o vêem e, na maioria das vezes, a alguém em especial. Muitos dos padrões que circulam (cada vez mais, devido à entrada dos chineses neste mercado) têm apenas nomes locais ou não chegam a recebê-los, mas outros são verdadeiros clássicos, atravessam décadas e nunca saem de moda. Com umas horas de pesquisa, consegui encontrá-los a uso, hoje em dia, em vários países. Falam das relações entre marido e mulher, entre a mulher e as outras mulheres, entre cada um e a comunidade. Deixo aqui imagens de alguns dos que já aprendi a traduzir.

O da imagem de cima chama-se Fleurs de mariage e é, como o nome indica, alusivo ao casamento.


ABCD

ABCD: Attending school does not mean that one would be wise (Gana). A Marta Mourão usou recentemente uma variação deste padrão numa das suas saias. Imagens: Christian Women in Lome (postal antigo do Togo) e obudu woman’s coop (Nigéria).

080924_maricapable.jpg

Mari capable (outro exemplo, do Senegal): Este padrão, também designado por My lips are sealed, fala de felicidade conjugal (a mulher não tem nada de mal a dizer sobre o marido, daí a boca fechada). Imagem: My new friend.

080924_family.jpg

L’union de la famille, sinal de harmonia familiar: Outro com uma mensagem positiva (tenho-o usado nos slings). Outra versão e mais outra versão. Imagem: several women with kids at their feet (Nigéria).

080924_speedbird.jpg

Speedbird: o mensageiro (outra versão). Imagem: Parade women (Gana).

080924_tortoise_back.jpg

Tortoise back: A carapaça do cágado. Alude a um provérbio que diz que a mosca por muito que tente não consegue picar o cágado através da sua carapaça. Imagem: Men talk, women work (Senegal).

Há muitos outros. A melhor leitura que fiz sobre o assunto foi o artigo Wearing Proverbs: Anyi Names for Printed Factory Cloth, de Susan Domowitz, que recomendo vivamente.

Outros links:

BurkinaMom in France e Akan cloths: factory-made wax and non-wax prints.

31 comments » Write a comment

  1. simplesmente adoro quando você escreve sobre os tecidos africanos… adorei saber que os tecidos possuem significados, aliás como quase tudo no África, em se tratando de elementos culturais-religiosos-ritualísticos!!!

    beijo!

  2. adorei. muito interessante e escreves muito bem, um dia, daqui a uns anos, deviamos publicar uma revista decente com temas interessantes e com pessoas que escrevem como deve ser em portugues, que é coisa rara.

  3. Rosa, comprei um tecido impresso aqui na Holanda de uma colecção que deveria seguir para países africanos. Na loja onde o adquiri estava uma senhora nigeriana que achou graça a uma estrangeira comprar um tecido daqueles e que falou dos nomes de alguns dos tecidos. Não fixei todos, mas percebi que todos os que estava expostos (imagino que sejam típicos) correspondem a uma expécie de padrão pré-determinado que tem nomenclatura, sim. Desconhecia que os padrões podem conter mensagens, isso tem graça. Obrigada pela explicação. Que quererão dizer os desenhos dos pássaros? Este que adquiri tem andorinhas…

  4. felicidade conjugal = a mulher não tem nada de mal a dizer sobre o marido

    :D

    interessante o conceito de conscientemente enviar mensagens através dos padrões da roupa.

  5. Wow!… I didn’t know those nice clothes had so touchable stories behind. Thank you for let me know.

    Have a nice day : )

  6. Gosto muito deste tema até porque estou a realizar uma brochura para o ministério daqui sobre o tema. E depois há também as capulanas de propaganda política ou para festejar datas especiais que são um “must” que todos ambicionam, e funciona como mais um sinal exterior de “pertencer a um grupo”. Eu colecciono-os todos pois esses sim, são edições especiais e não são copiados pelos chineses. :-)

    Que engraçado, puseste o link do blog da Beth, trabalhei com ela aqui antes de ela ir para França !

  7. Nunca me passou pela cabeça que esses tecidos lindos ainda estivessem a contar-nos histórias!! Fantástico!! Mais uma vez obrigada por me ensinares algo novo!

  8. Adoro o das galinhas… bem. Acho que gosto de quase todos os tecidos africanos.

    E logo pela manhã aprender algo novo quando espreito aqui:)

    thanks R*

    ah! my bag is beautiful, i’m wondering what it means;)

  9. Costumo gostar muito do que escreves, mas este post é mesmo muito interessante.

  10. Querida Rosa Pomar, eu só tenho a agradecer o facto de partilhar, com os leitores, cultura – matérias que eu nem imaginava que fossem exploradas, como a história de alguns tecidos – arte – porque, é verdade, faz umas coisinhas em tecido, em lã, enfim, muito bonitas, tem ideias maravilhosas e vai buscar matérias fantásticas, como aquelas relacionadas com o museu efémero, que me deixaram de queixo caído e proporcionaram a minha mudança de mentalidade, ao fazer-me ver, agora, a arte de rua, de uma maneira muito diferente, cheia de mensagens escondidas ou bastante visíveis e eu é que nem dava por isso.

    Muitíssimo obrigada e parabéns pelas suas dádivas e talento.

  11. A cada dia que passa gosto mais de capulanas, como se as cores e os motivos nao bastassem, ainda têm uma mensagem… Obrigada

    PS: uma das saias da Amanda Soule tem o seu galao do capuchinho, (ja viu?) ficou tao bonita! Este tambem é um galao com historia!

  12. Não imaginas a quantidade de vezes que vejo mulheres com vestidos feitos desses tecidos… Por aqui há tantas mulheres a usá-los e são lindos de morrer!

  13. que interesante leer que se puede comunicar tambien con un tejido, nunca lo habia pensado!! usted me està haciendo amar los tejidos africanos !! muchas gracias !!!

    ps. escribo en castellano porque es el idioma que conozco mas similar al portugues, cree usted que es un problema?

  14. Muito bacana a sua pesquisa, o tema também me interessa, li alguns livros sobre o assunto. Se puder consulte o site da Goya Lopes – é uma brasileira, baiana, de origem africana que estampa tecidos com motivos africanos, e fala sobre o significado dos símbolos utilizados, os tecidos são belíssimos e cheios de alma. A marca dela é Didara.

  15. e agora que sling escolho eu para o meu vicente-quase-a-chegar? o das galinhas ou das flores de casamento? depois de saber o significado ficam diferentes as coisas. que bom que é este teu blog.

    vou ter um sling com raios de sol.

  16. adorei saber sobre os tecidos afro, obrigada por terem me ajudado em minha pesquisa da escola em que tenho de falar sobre tecidos africanos e seus desenhos. muito legal o trabaçho de vcs

  17. OLÁ,ESTOU A PESQUISAR TECIDOS AFRICANOS PARA MINHA COLEÇÃO, NÃO CONHECIA SEU BLOG MAIS FICA SABENDO QUE APARTIR DE HOJE É UM DOS MEUS PREFERIDOS, OBRIGADA POR COMPARTILHAR CONOSCO SUAS PESQUISAS…

  18. Bom dia :)

    Eu gostaria de saber se me poderia indicar uma loja no porto onde venda tecidos africanos … Tenho estado à procura de tecidos LINDOS como estes e não encontro.

    Aguardo a sua resposta, obrigada ( se for possível envie-me um mail )

  19. Olá. Primeiramente parabéns pelo blog. Excelente!!!

    Meu nome é Natália, Sou estudante de Design de Moda da Universidade Estadual de Londrina (UEL)e gostaria de saber, onde posso encontrar tecidos africanos para comprar, pois estou fazendo uma pesquisa sobre isso.

    Obrigada.

    Natália Castilho.

Leave a Reply

Required fields are marked *.


You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>